Quando o canto é reza, o santo é Roque Ferreira. Nas terças-feiras de janeiro do Centro Cultural Carioca, a cantora Roberta Sá e o Trio Madeira Brasil têm sido seus súditos fiéis - no dia 2, acontece a última apresentação da temporada. E desta combinação - as músicas de Roque, com interpretação de Roberta e arranjos de Zé Paulo Becker e Marcello Gonçalves - resulta o primeiro grande espetáculo musical do ano de 2010. E trata-se apenas de um ensaio aberto utilizado para a preparação do repertório que será registrado em disco até o final deste ano, com direito a eventuais erros, mas o que sobressai são primordialmente os acertos.
No palco, o conjunto desfia os primeiros acordes e silencia para, do fundo da casa, surgir Roberta Sá entoando versos de devoção religiosa em que toda fé se deposita não em deuses inatingíveis ou em entidades da cultura afro-brasileira, mas sim no vasto repertório inédito do baiano Roque Ferreira. Lembrado recentemente pelas músicas gravadas por Maria Bethânia em seus dois últimos discos, o compositor lançado por Clara Nunes no fim dos anos 70 - com a música "Apenas um Adeus", no disco Esperança (1979) - parece finalmente receber a merecida atenção, tendo um disco dedicado exclusivamente à sua obra. Muito embora tenha lançado um excelente, porém pouco conhecido, disco solo, Tem Samba no Mar, em 2005.
Seus sambas - de roda, de capoeira, cariocas -, chulas, ijexás, cocos, toadas e galopes fazem um inventário da musicalidade popular da Bahia ofuscada pela força mercadológica do axé com suas cantoras turbinadas. E é, ainda, como Roberta fez questão de ressaltar, uma obra em progresso - "Roque está sempre mandando músicas novas pra gente", contou -, fonte abundante de clássicos latentes, pedindo vozes que os façam vicejar.
Samba Novo
Esta história começa em 2006, quando Roberta Sá foi convidada por Rodrigo Maranhão para participar de uma coletânea de samba que ele produzia para a Som Livre. A procura de uma música para gravar, Roberta entrou em contato com o universo de Roque e escolheu "Afefé". Para registrá-la, uniu-se ao Trio Madeira Brasil. Daquela experiência, surgiu a vontade de fazer um trabalho dedicado ao repertório de Roque.
Em seu segundo disco, Que Belo Estranho Dia Para se Ter Alegria (2007), Roberta gravou "Laranjeira", mas foi em outubro daquele ano que o projeto começou a tomar forma. Convidados a participar do Circuito Original, Roberta e o Trio Madeira Brasil fizeram um show no Trapiche da Gamboa, zona portuária do Rio, em que músicas dos dois discos da cantora, clássicos do samba e algumas canções de Roque se misturaram dando início ao projeto que agora se realiza. "Zumbiapungo", parceria do baiano com Zé Paulo Becker, um dos integrantes do trio, que encerra a atual apresentação antes da volta para o bis, foi uma das canções apresentadas na ocasião.
Naquela oportunidade, Roberta cantou "Afefé", que no show da última terça foi pedida pela platéia no bis, sugestão rejeitada por Roberta, sob a justificativa de que não estava ensaiada. Na época, registrei a canção em um vídeo que ficou tecnicamente imperfeito - eram minhas primeiras experiências com uma nova câmera e tive dificuldades com o foco. Optei por mantê-lo inédito até agora. Aí está para a posteridade:
Sobre o futuro disco, não há dúvida de que representará o salto definitivo de Roberta Sá, de mais uma em meio a um conjunto de boas cantoras em busca de identidade, para a afirmação como uma das divas de sua geração, posto que lhe cai bem, dada uma certa afetação que demonstra no palco e o público fiel que vem conquistando desde que se lançou como cantora após uma tímida participação no extinto programa "Fama", suposta fábrica de talentos musicais da Globo, do qual, por vias completamente tortas, tornou-se a única a realmente vingar.