É estranho pensar que em tempos de mp3 o lançamento físico de um disco no mercado ainda seja um fato importante. Vejamos, pois, o caso do Sonantes, projeto coletivo idealizado por Céu, Pupillo, Dengue, e os irmãos Rica e Gui Amabis, que contou com participações de nomes não menos eminentes, tais como Fernando Catatau, Lucio Maia, Siba e Beto Villares.
O laboratório de criação da turma se ativou após a reunião para gravação de duas faixas, "Doce Guia", para o disco Na Confraria das Sedutoras, do 3naMassa, e "Frevo da Saudade", para a coletânea Frevo do Mundo. Sem um compromisso definido a não ser o de fazer um som, eles acabaram concebendo um disco inteiro, lançado em 2008 somente no exterior, pela Six Degrees Records. E aquele que certamente foi um dos melhores discos produzidos no Brasil naquela ocasião acabou passando quase em branco por aqui. Falou-se nele apenas aqui e acolá. A bem da verdade, o G1 e a Rolling Stone Brasil chegaram a noticiá-lo antes do lançamento. Depois, nada. Inclusive, não figurou na lista de melhores daquele ano eleitos pela revista. Ausência que chegou a ser comentada na sessão destinada às opiniões dos leitores.
E por quê? Arrisco uma opinião, ainda que sem qualquer base empírica. O disco não foi lançado fisicamente e por conseqüência não chegou às redações, às mãos dos ditos formadores de opinião. Talvez tenha sido tema de uma ou outra reunião de pauta, mas acabou na gaveta por questões de "mercado", fundamentalmente a falta de uma assessoria de imprensa para divulgar a obra e cavar espaços na mídia.
Conclusão: no Brasil o suporte físico ainda é fundamental e o vácuo mercadológico de um não-lançamento oficial - ainda que as faixas estejam desde então circulando livremente no território da pirataria autorizada - é uma razão forte para tanto.
É de se ressaltar também que o cd não fora lançado aqui à mesma época que saiu lá fora porque os músicos envolvidos não conseguiram um contrato que os satisfizesse. Ponto para o selo Oi Música, que vai desengavetar o disco para lançá-lo em terras brasileiras. Dois (ou três) anos depois, poderá ser descoberto pela mídia oficial com sabor de novidade. Só a faixa de abertura, com Céu no vocal à frente dos integrantes da Nação em uma versão de "Carimbó", gravada originalmente pela banda pernambucana em Rádio S.A.M.B.A, já faz dele um clássico.
Lamenta-se apenas que a iniciativa não sirva de ensejo para uma reunião dos músicos envolvidos no intuito de levar o disco aos palcos. Por enquanto não há planos nesse sentido. Quem sabe depois de uma turnê pelo exterior?
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terça-feira, 14 de setembro de 2010
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Besouro: quando a trilha sonora é melhor que o filme
Atualmente em cartaz em um cinema perto de você, morador das capitais brasileiras, Besouro não é aquele tipo de filme cujo desgostar pode ser camuflado com elogios à fotografia, ao elenco, à direção de arte, à edição ou mesmo aos efeitos especiais, dignos de nota em se tratando de cinema brasileiro. Talvez os belos cenários do Recôncavo Baiano e da Chapada Diamantina sirvam como ponto de fuga, mas nada é capaz de maquiar a fragilidade do roteiro da estreia em longa-metragens do diretor de publicidade João Daniel Tikhomiroff.
Embora o mito de Besouro e a capoeira constituam temas próprios a uma boa história, a narrativa se estabelece num vácuo entre a fábula e uma suposta realidade histórica sem convencer nem numa chave nem noutra. Os personagens arquetípicos - mocinhos(as) e vilões planos planos, sem nuances, com exceção de Quero-quero (Anderson Santos de Jesus) - transitam em situações óbvias.
No que se pretende "real", os negros recém-alforriados submetidos a condições de trabalho degradantes e privados de se manifestarem livremente, com proibições à prática da capoeira e, embora não seja mencionado no filme, também de exercerem seus rituais religiosos, depositam toda confiança numa possível redenção através do capoeirista Besouro (Ailton Carmo). Um triângulo amoroso entre o personagem principal, Quero-quero e Dinorá (Jéssica Barbosa) adiciona o elemento romance à trama, que não poderia faltar no repertório de clichês da roteirista Patricia Andrade (de "Dois Filhos de Francisco").
Besouro e sua amada
Pior é a representação das entidades do candomblé que compõem o terreno fabular. Além de nada acrescentarem à história com seus visuais estilizados - são meros guardiões de Besouro que, no entanto, não conseguem evitar o final trágico do capoeirista em sua luta do bem contra o mal -, banalizam as tradições religiosas afro-brasileiras, simplificando-as rasteiramente.
Exu estilizado
Os jogos de capoeira são poucos, mas muito bem coreografados por Hiuen Chiu Ku, o mesmo coordenador de cenas de ação dos hollywoodianos Matrix e Kill Bill. O desfecho em loop primeiro oferece uma versão com final feliz, mas em seguida opta pela tragédia seguida de esperança. Esperança esta de que o possível sucesso do filme resulte em uma continuação. A cena final, totalmente desprovida de sentido e fora de contexto, se presta única e exclusivamente para tal fim. O filho de Besouro assume a alcunha de seu pai e encara o temporariamente vitorioso coronel. As chances de um Besouro 2 são palpáveis. Em duas semanas de exibição, foi visto por 240 mil pessoas, de acordo com o blog da produção, um número bom para produções nacionais.
Mas por que razão um filme de qualidade estética duvidosa mereceria menção em um blog musical? Por causa da trilha sonora, obviamente. Besouro tem direção musical de Rica Amabis, membro do coletivo paulista Instituto. Se o filme não vai ficar na história, a sua trilha sonora já pode ser considerada clássica. Se coloca ao lado das de Baile Perfumado, Amarelo Manga, O Invasor, Árido Movie e Deserto Feliz. Exceto a do filme Beto Brant, assinada pelo Instituto, todas as outras vêm da cena cinematográfico-musical de Recife, reunindo bandas como Mestre Ambrósio, mundo livre s/a, Nação Zumbi - com e sem Chico Science - Eddie e os cantores e compositores Otto e Junio Barreto.
A trilha de Besouro reúne quase todos eles. Já no começo do filme, os cânticos das rodas de capoeira são entoados ora por Junio, ora por Otto. A trilha incidental tem temas compostos pelo próprio Rica em parceria com Pupillo e Tejo Damasceno, outros por Naná Vasconcelos e a canção tema do personagem principal, "Besouro - Cordão de Ouro", é da Nação Zumbi.
Não bastasse isso, "Besouro", a música tema do filme, promoveu o reencontro da Nação com Gilberto Gil treze anos depois de o músico baiano juntar-se à banda durante as gravações de Afrociberdelia para colocar voz em "Macô". Novamente ele canta sobre a base sonora da Nação dando mostras de que lhe caberia muito bem uma renovação nos moldes daquela engendrada pelo seu parceiro tropicalista de primeira hora, juntando-se a músicos mais jovens para renovar se não a sua música, a sua sonoridade. Porém, somente aqueles que permanecem no cinema quando os créditos finais já correm avançados por sobre a tela negra são brindados com o verdadeiro climax de Besouro. O melhor momento do filme dispensa imagens.
Abaixo, Gil coloca a voz na faixa em seu estúdio no Rio. Pena que o áudio esteja saturado.
Embora o mito de Besouro e a capoeira constituam temas próprios a uma boa história, a narrativa se estabelece num vácuo entre a fábula e uma suposta realidade histórica sem convencer nem numa chave nem noutra. Os personagens arquetípicos - mocinhos(as) e vilões planos planos, sem nuances, com exceção de Quero-quero (Anderson Santos de Jesus) - transitam em situações óbvias.
No que se pretende "real", os negros recém-alforriados submetidos a condições de trabalho degradantes e privados de se manifestarem livremente, com proibições à prática da capoeira e, embora não seja mencionado no filme, também de exercerem seus rituais religiosos, depositam toda confiança numa possível redenção através do capoeirista Besouro (Ailton Carmo). Um triângulo amoroso entre o personagem principal, Quero-quero e Dinorá (Jéssica Barbosa) adiciona o elemento romance à trama, que não poderia faltar no repertório de clichês da roteirista Patricia Andrade (de "Dois Filhos de Francisco").
Besouro e sua amada
Pior é a representação das entidades do candomblé que compõem o terreno fabular. Além de nada acrescentarem à história com seus visuais estilizados - são meros guardiões de Besouro que, no entanto, não conseguem evitar o final trágico do capoeirista em sua luta do bem contra o mal -, banalizam as tradições religiosas afro-brasileiras, simplificando-as rasteiramente.
Exu estilizado
Os jogos de capoeira são poucos, mas muito bem coreografados por Hiuen Chiu Ku, o mesmo coordenador de cenas de ação dos hollywoodianos Matrix e Kill Bill. O desfecho em loop primeiro oferece uma versão com final feliz, mas em seguida opta pela tragédia seguida de esperança. Esperança esta de que o possível sucesso do filme resulte em uma continuação. A cena final, totalmente desprovida de sentido e fora de contexto, se presta única e exclusivamente para tal fim. O filho de Besouro assume a alcunha de seu pai e encara o temporariamente vitorioso coronel. As chances de um Besouro 2 são palpáveis. Em duas semanas de exibição, foi visto por 240 mil pessoas, de acordo com o blog da produção, um número bom para produções nacionais.
Mas por que razão um filme de qualidade estética duvidosa mereceria menção em um blog musical? Por causa da trilha sonora, obviamente. Besouro tem direção musical de Rica Amabis, membro do coletivo paulista Instituto. Se o filme não vai ficar na história, a sua trilha sonora já pode ser considerada clássica. Se coloca ao lado das de Baile Perfumado, Amarelo Manga, O Invasor, Árido Movie e Deserto Feliz. Exceto a do filme Beto Brant, assinada pelo Instituto, todas as outras vêm da cena cinematográfico-musical de Recife, reunindo bandas como Mestre Ambrósio, mundo livre s/a, Nação Zumbi - com e sem Chico Science - Eddie e os cantores e compositores Otto e Junio Barreto.
A trilha de Besouro reúne quase todos eles. Já no começo do filme, os cânticos das rodas de capoeira são entoados ora por Junio, ora por Otto. A trilha incidental tem temas compostos pelo próprio Rica em parceria com Pupillo e Tejo Damasceno, outros por Naná Vasconcelos e a canção tema do personagem principal, "Besouro - Cordão de Ouro", é da Nação Zumbi.
Não bastasse isso, "Besouro", a música tema do filme, promoveu o reencontro da Nação com Gilberto Gil treze anos depois de o músico baiano juntar-se à banda durante as gravações de Afrociberdelia para colocar voz em "Macô". Novamente ele canta sobre a base sonora da Nação dando mostras de que lhe caberia muito bem uma renovação nos moldes daquela engendrada pelo seu parceiro tropicalista de primeira hora, juntando-se a músicos mais jovens para renovar se não a sua música, a sua sonoridade. Porém, somente aqueles que permanecem no cinema quando os créditos finais já correm avançados por sobre a tela negra são brindados com o verdadeiro climax de Besouro. O melhor momento do filme dispensa imagens.
Abaixo, Gil coloca a voz na faixa em seu estúdio no Rio. Pena que o áudio esteja saturado.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
As exóticas delícias de Cibelle
Prometendo novo disco para logo, Cibelle colocou uma faixa de 14 minutos em sua página no Myspace. De acordo com as palavras da cantora e compositora paulista radicada em Londres, se trata de uma "jornada através do disco novo". Arranjos pouco convencionais, com muitos ruídos de animais selvagens e letras em inglês e português apontam para um aprofundamento dos experimentos de Cibelle sobre o formato tradicional das canções já verificado no anterior The Shine of Electric Dried Leaves. Entre os colaboradores, estão Fernando Catatau, do Cidadão Instigado e Pupillo, baterista da Nação Zumbi.
Cibelle também vem postando fotos, sob o título de EXOTIC#$%^&*()_ - MAKING OF, que revelam os bastidores da gravação do novo disco.

Cibelle também vem postando fotos, sob o título de EXOTIC#$%^&*()_ - MAKING OF, que revelam os bastidores da gravação do novo disco.

Outra foto trás uma lista de músicas que provavelmente estarão no disco. Entre elas, "Mango Tree", apresentada por Cibelle em uma vinheta gravada para a MTV Brasil. Outros títulos são "Light Works", "Melting the Ice", "Braid Hair" (será a anteriormente conhecida por "White Hair"? )"Lady Grey", "Selvagem", "Sapato Azul", "Being Green", "Escute Bem", "Baby" e "Frankestein".
Sobre uma possível data de lançamento, nada ainda, mas não se perde por esperar. É uma das mais inventivas cantoras brasileiras dos tempos atuais.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
A gafieira de Junio Barreto
Depois de lançar um EP com três faixas no ano passado - introspectivo, com texturas sonoras delicadas e acústicas -, o compositor pernambucano Junio Barreto está em estúdio gravando um álbum de composições próprias inspiradas na sonoridade e na temática dos bailes de gafieira. A ideia partiu de Pupillo, da Nação Zumbi, que, além de tocar bateria, é o responsável pela produção do disco, ainda sem título definido. Junio já tinha algumas composições prontas para um segundo disco, mas elas foram temporariamente arquivadas para tocar o projeto sugerido por Pupillo.Ainda nesta onda de música para dançar, Junio Barreto e Fábio Trummer, do Eddie, têm planos de montar uma banda para tocar músicas de temática latino-americana na noite paulistana . Sob tal guarda-chuva, haverá espaço tanto para ritmos tradicionais, como a cumbia colombiana, o samba brasileiro, como parra as composições de autoria deles próprios e dos amigos mais próximos.
Ambos os projetos, disco e show, ainda não têm data definida para virem à luz.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
CéU: disco na rede em julho, show no Brasil em outubro
A capa é esta aí do lado. Vagarosa já está em pré-venda nos Estados Unidos, com lançamento marcado para o próximo dia 7, através da Six Degrees Records. No Brasil, não se sabe o quanto vai demorar apesar da promessa de que sai ainda neste mês de julho, embora deva cair na rede tão logo o primeiro fã tenha acesso a ele.Através da Amazon.com é possível ouvir uma prévia das 13 músicas que compõem o álbum - três delas presentes no EP Cangote ("Visgo de Jaca", em boa rotação na rádio carioca MPB FM ficou de fora). Informações sobre as faixas podem ser encontradas no site da gravadora.
A produção, conforme revelado aqui anteriormente, é dividida entre Beto Villares, Gustavo Lenza, Gui Amabis e integrantes da Nação Zumbi. Sob a alcunha de Los Sebozos Postizos, eles formam a banda de apoio de CéU em "Rosa Menina Rosa", pinçada do repertório de Samba Esquema Novo (1963), de Jorge Ben. Embora na bateria haja participações do finado Gigante Brasil em suas últimas gravações em estúdio ("Cangote" e "Papa"), de Curumin ("Nascente", "Grains de Bauté" e "Cordão da Insônia") e de Serginho Machado ("Sonâmbulo"), Pupillo é presença recorrente no comando das baquetas. Em "Ponteiro", com a companhia do baixo de Dengue.
"Espaçonave" é uma parceria com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que além de tocar guitarra nesta faixa, participa também de "Bubuia", composição coletiva de CéU, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas.
"Espaçonave" é uma parceria com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que além de tocar guitarra nesta faixa, participa também de "Bubuia", composição coletiva de CéU, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas.
Outras participações especiais são de Luiz Melodia em "Vira Lata", que CéU compôs especialmente para a voz do cantor. Guizado toca trumpete em "Nascente", cuja autoria é dividida com Siba. O cavaquinho de Rodrigo Campos está presente na vinheta de abertura "Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso" e em "Vira Lata".
Para promover o disco lá fora, no dia 10, CéU dá início a uma breve turnê pelos Estados Unidos, cujas datas são as seguintes:
7/15 - The Triple Door - Seattle, WA
7/17 - The Roxy - Los Angeles, CA
7/18 - Herbst Theatre - San Francisco, CA
7/21 - The HighLine Ballroom - New York, NY
Os primeiros shows anunciados no Brasil serão no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, nos dias 2, 3 e 4 de outubro. Não é certo que seja a estreia em terras brasileiras, embora seja bem provável. Os ingressos já estão a venda.
Abaixo, as músicas que compõem Vagarosa:
Abaixo, as músicas que compõem Vagarosa:
1. Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso (0:56)
(Letra e música: Céu)
2. Cangote (4:02)
(Letra e música: Céu)
3. Comadi (3:29)
(Letra: Céu / Música: Céu e Beto Villares)
4. Bubuia (3:14)
(Letra e música: Céu, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas)
5. Nascente (3:19)
(Letra: Siba / Música: Céu)
6. Grains de Beauté (3:34)
(Letra: Céu / Música: Céu e Beto Villares)
7. Vira Lata (3:37)
(Letra e música: Céu)
8. Papa (1:20)
(Letra e música: Céu)
9. Ponteiro (3:38)
(Letra e música: Céu)
10. Cordão da Insônia (2:42)
(Letra e música: Céu e Beto Villares)
11. Rosa Menina Rosa (4:41)
(Letra e música: Jorge Ben)
12. Sonâmbulo (3:50)
(Letra: Céu / Música: Céu, Serginho Machado, Bruno Buarque, Lucas Martins, Guilherme Ribeiro e DJ Marco)
13. Espaçonave (3:35)
(Letra: Céu / Música: Céu e Fernando Catatau)
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