Nada de ensaio, nem mesmo um telefonema para alguma combinação prévia. Fernando Catatau e Guilherme Mendonça a.k.a Guizado chegaram sem nenhum número preparado para o encontro proposto pelo Pelas Tabelas em uma tarde quente de abril no Zé Presidente. As três músicas resultantes do encontro, vistas parcialmente na edição do programa, nasceram do improviso. Aqui, recordo parte das cenas que presenciamos, ainda que sons e imagens falem por si.
Além da guitarra e da pedaleira, Catatau levou uma bateria eletrônica para fazer a base rítmica. A partir da escolha de uma batida reta em loop constante, sem quebras de andamento, Catatau improvisava uma base harmônica na guitarra, dando margem aos contornos melódicos propostos pelo trompete de Guizado. Aí, então, "sustos" de parte a parte, como definiu o trompetista, iam determinando os rumos das composições instantâneas.
A primeira, que na edição serviu para o encerramento do programa, saiu lenta, arrastada, quase fúnebre. Com notas dispersas por uma mão direita hesitante, a guitarra de Catatau a empurrava para viagens psicodélico-progressivas, enquanto o trompete trafegava pelas dissonâncias do jazz. Um tema próprio a desencontros.
Para o segundo número, Guizado pediu um batida mais acelerada. Escolhido um beat que remetia à música caribenha, imediatamente Catatau improvisou um riff que estruturou a primeira parte. Enquanto Guizado decifrava a sequência harmônica, o guitarrista criou uma segunda parte. Antes de começar a tocar pra valer, perguntou se Guizado poderia acompanhá-lo naquela variação. Permissão concedida, o resultado foi esse:
A música que abre o programa foi a terceira e última da sessão - um blues-rock com riff desenhado em uma sequência de acordes maiores. Reprocessado por pedais de efeito, o trompete soa como guitarra solo. É a música em que os dois estão mais soltos e arriscam maiores desvios do curso estabelecido no começo.
No fim, ouvindo as três músicas, nota-se que nenhuma delas remete diretamente ao som que Catatau e Guizado fazem quando acompanhados por suas respectivas bandas, que aliás, têm dois integrantes em comum - o guitarrista Régis Damasceno e o baixista Rian Batista. Catatau tem se apresentado com uma formação instrumental em um projeto paralelo ao Cidadão Instigado, então, não será estranho que Guizado junte-se a ele qualquer hora dessas para uma participação. Porém, a combinação de guitarra, trompete e beats eletrônicos dificilmente se repetirá.
Muita gente credita até hoje o fim do Mestre Ambrósio ao trabalho que Siba veio a desenvolver com músicos da Zona da Mata pernambucana a partir do disco A Fuloresta do Samba (2002). No ano anterior a banda lançara Terceiro Samba e parecia estar seguindo sua escalada ascendente de Pernambuco para o Brasil inteiro e daqui para o exterior. No Rio, o show de lançamento em um Canecão lotado, em que de toda geração do mangue beat até então apenas Chico Science e Nação Zumbi haviam tocado, foi apoteótico. Rodas de ciranda propagavam-se umas dentro das outras até tomarem o salão inteiro, muitos versos eram entoados pelo público com fervor e o bis estendeu-se para muito além do que a banda podia esperar ou estava preparada. Os maiores sucessos tiveram que ser repetidos até que o encerramento definitivo se deu com Siba improvisando versos ao microfone.
Quem tivesse prestado atenção àquele último número, talvez não viesse a se surpreender com o futuro trabalho do compositor, cujo cerne viria a ser a poesia rimada. Mas o Mestre Ambrósio era então uma banda amada com tamanha devoção pelos seus fãs, que eles não poderiam imaginar que o seu fim se desenhava em um horizonte não muito distante. No entanto, aquele improviso era também uma pista de que os caminhos a seguir poderiam tornar insustentáveis as latentes divergências internas entre os seus integrantes. O processo de gravação de Terceiro Samba fora conturbado - o clima no estúdio não era nada bom, como relembraria anos depois o produtor Beto Villares, e o próprio Siba admitiria. Nem todos compartilhavam as mesmas ambições artísticas e estéticas. Cada integrante tinha seus próprios planos.
DAS CORDAS ACÚSTICAS ÀS ELÉTRICAS
Este ano, quando Siba novamente desviou sua trajetória da trilha óbvia, não houve trauma semelhante. Pelo contrário, Violas de Bronze, gravado em parceria com o violeiro Roberto Corrêa, foi saudado como uma obra coerente com a sua carreira e com aquilo que dele se poderia esperar. "Eu conquistei uma coisa muito boa, que nem foi intencional no começo, mas que hoje eu comemoro. Quando eu fiz a ruptura do que eu fazia com o Mestre Ambrósio para o que eu fui fazer com a Fuloresta, que foi realmente uma ruptura grande em termos de procedimento, de resultado sonoro, e até do tipo de pessoas com que se trabalha e tal, eu fiz uma guinada muito radical que me possibilitou, a partir daí, que eu possa fazer quantas guinadas eu quiser desde que eu mantenha uma coerência que é muito subjetiva minha", diz Siba, explicando a repercussão que o trabalho com Roberto vem obtendo, em entrevista via Skype ao Blog do Pindzim."Tem um ponto que é constante no meu trabalho, alguns procedimentos que são meus e que têm me guiado, mas depois que eu fiz o Mestre Ambrósio e fiz a Fuloresta, que são tão diferentes, eu acho que fazer um disco com Roberto, só de rabeca e violas, deixou de ser pra mim uma guinada tão radical", completa.
Roberto Corrêa e Siba (Foto: Pablo Francischelli)
E se trata de um disco nada convencional. Com arranjos fundamentados apenas em viola caipira e de cocho - a cargo de Roberto -, e viola nordestina e rabeca - pelas mãos de Siba -, trata-se de um disco "estranho", na definição do próprio, por unir dois músicos cujas personalidades e trabalhos autorais são tão distantes e distintos quanto suas origens - Roberto vem do Brasil Central e Siba, como se sabe, do Nordeste. "Eu não sinto mais tanto o peso de ter que ser coerente com um estilo musical que o público venha a me cobrar. As pessoas me cobraram o Mestre Ambrósio por uns anos e depois se acostumaram com isso e hoje eles sabem que o que dá o norte do meu trabalho não é um formato em si, é uma outra coisa", afirma, encerrando o assunto.
Este desvio eventual fez com que Siba se reaproximasse dos instrumentos de corda, praticamente abandonados desde os tempos de Mestre Ambrósio - embora na intimidade ele sempre os tenha mantido ao alcance da mão. E foi assim que a eventual imersão no universo da viola, por vias tortas, acabou sendo definitiva para abrir uma nova vereda em sua carreira. "Eu voltei a tocar guitarra agora, junto com esse processo do Violas de Bronze", revela Siba, para em seguida enfatizar: "guitarra elétrica".
A própria viola não será abandonada nesta nova fase que se anuncia, mas ganhará captadores e, quem sabe, distorção. Siba encomendou a um luthier de São Paulo uma viola elétrica que já está em suas mãos e com a qual ele vem preparando material para um futuro disco. "Meu próximo trabalho vai vir muito mais ligado às cordas, especialmente à viola e à guitarra. Uma coisa bem mais elétrica mesmo, retomando um pouco do que foi o lado elétrico do Mestre Ambrósio, só que talvez de uma maneira diferente", conta Siba, para logo depois vaticinar: "acho que vai ser diferente de tudo o que eu fiz antes, mas isso está se processando para mim agora, nesse momento". Momento este que não deixa de ser uma surpresa para ele próprio. No auge de seu envolvimento com a Fuloresta, Siba chegou a achar que jamais voltaria à guitarra. "Mas cada tempo é um tempo", pondera.
Siba e a viola nordestina (Foto: Pablo Francischelli)
PARCERIA COM CATATAU
Outra influência que seguramente o conduziu a esta nova trilha foi a de Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado. Siba revela que tem sido um ouvinte atento de tudo o que o músico e compositor cearense tem feito de um bom tempo para cá. Ao lado da Nação Zumbi, é a principal referência musical de Siba no cenário da música brasileira atual. Há um mês atrás quando conversamos, Siba ainda tinha poucas certezas acerca do novo trabalho, mas a participação de Catatau era uma delas. "Eu ainda estou montando esse trabalho novo. É um trio ou quarteto totalmente elétrico, de bateria, baixo e guitarra e viola elétrica, rabeca também, tudo muito elétrico. Praticamente é um power trio ou um power quarteto, não sei bem ainda, e quem vai produzir esse trabalho junto comigo é o Catatau. Ele é o grande parceiro dessa história", afirmou.
Além da coprodução do futuro trabalho, Catatau poderá integrar a banda idealizada por Siba. "É possível que sim, que seja eu e ele tocando as cordas. Isso é para o ano que vem. Já comecei agora, já tenho trabalhado material, tenho me preparado, e no começo do ano que vem a gente começa pra valer mesmo", diz. A ideia é levar o projeto ao palco no primeiro semestre, com apresentações em lugares pequenos, para depois entrar em estúdio. Siba prevê o lançamento em disco no final de 2010.
FULORESTA E NAÇÃO JUNTAS
Nem por isso, Siba e a Fuloresta entrarão em recesso. E até mesmo no trabalho com o grupo a eletricidade deverá se fazer sentir. Além das apresentações que vem fazendo desde o lançamento de Toda Vez que Eu Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar (2007), a Fuloresta pode se unir à Nação Zumbi para shows conjuntos, como aconteceu em duas oportunidades neste ano - no carnaval de Recife e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, por ocasião das festividades do Ano França-Brasil. "São as duas bandas no palco com o repertório em comum dividido. Então a Nação toca nas músicas minhas com a Fuloresta e a Fuloresta toca nas músicas da Nação também, é tudo bem misturado. Agora, é uma banda muito grande, imagine, então é um projeto pra se fazer de vez em quando, ele é um pouco inviável", explica Siba.
O FIM DO MESTRE AMBRÓSIO
Dada a imprevisibilidade dos rumos de sua carreira, há alguma esperança de que os fãs do Mestre Ambrósio vejam a banda novamente reunida?, muitos podem se perguntar. Siba acredita que não, mas não usa a palavra "impossível" para descartar totalmente uma futura reunião. Diz que acha "bem difícil". Por outro lado diz que composições antigas do Mestre Ambrósio de sua autoria podem reaparecer em algum momento no seu repertório, embora atualmente não haja nenhuma em vista. Por fim, aproveita para esclarecer de uma vez por todas que o fim da banda aconteceu independentemente de sua vontade.
"Apesar de eu ser creditado como o primeiro que saiu da banda pra fazer a Fuloresta, eu fui um dos poucos que não saí da banda, na verdade. A Fuloresta foi um projeto para o qual eu me preparei por anos, inclusive preparei a banda pra ele. A gente tinha uma proposta em comum de parar por seis meses para isso e para todo mundo também fazer as suas próprias coisas. Sendo que eu acho que o nível de conflito de interesse já tava bem alto em termos de interesse profissional e de carreira, de modo de ver o desenvolvimento da coisa. Com essa parada foram saindo um, dois, três. Na hora que saiu o terceiro a parada ficou por tempo indefinido. Nesse tempo indefinido eu acho que já se passou tempo demais e praticamente hoje eu acho muito difícil voltar a banda. Não existe um fim decretado, mas ao mesmo tempo eu acho muito pouco provável uma volta. Se na época que a banda tinha 12 anos de batalha e tinha, digamos assim, uma inércia positiva que possibilitava que a gente parasse por um tempo para depois retomar, porque tinha um público e tinha toda uma imagem, uma presença e tal, não aconteceu, hoje, depois de tantos anos, é um tamanho de esforço dentro de um contexto que é muito diferente. Cada um está em uma cidade diferente fazendo suas coisas, então eu acho que o que a gente tinha pra dizer tinha que ter continuado naquela época", encerra.
Na verdade, o Mestre Ambrósio segue vivo na trajetória peculiar que Siba vem traçando ao longo de seus quase 20 anos de carreira. A proposta híbrida de combinar elementos regionais e universais já estava presente no trabalho da banda e veio - e vem - se expandindo cada vez mais em sua caminhada. Siba é um nome que nunca vem sozinho, está sempre junto de outros artistas importantes, de personalidade própria. Pode estar em parcerias com a paulistana Céu ("Nascente") ou com os conterrâneos Lucio Maia e Dengue ("Alados"), em projetos coletivos de sabor regional, como a própria Fuloresta, e de matizes latinas, como em América Contemporânea. Ou simplesmente indefiníveis, como a dupla com Roberto Corrêa e a futura banda com Catatau. Toda vez que ele dá um passo o mundo sai do lugar - e a música se expande para além do reconhecido e do imediatamente reconhecível, constituindo uma das obras mais sólidas, belas e relevantes de toda uma excepcional geração.
Fernando Catatau anuncia na comunidade do orkut do Cidadão Instigado que o terceiro disco da banda vai se chamar Uhuuu!. O show de lançamento acontece no dia 1º de agosto, no teatro Boca Rica, em Fortaleza. Catatau diz ainda que o disco está "saindo da fábrica" e terá 11 faixas e. Uma delas, "Escolher Pra Quê?", já está rolando no Myspace e oferece uma prévia do novo trabalho. É bem dançante, com tecladinhos oitentistas e uma batida eletrônica quase disco, mas sem perder a pegada rock'n'roll, ou abrir mão do flerte com o brega. Mantém também o traço progressivo com seus mais de seis minutos de duração alternando solos de guitarra e de teclado entre versos irônicos sobre a inclemência da natureza, seja pelo sol seja pela chuva.
Prometendo novo disco para logo, Cibelle colocou uma faixa de 14 minutos em sua página no Myspace. De acordo com as palavras da cantora e compositora paulista radicada em Londres, se trata de uma "jornada através do disco novo". Arranjos pouco convencionais, com muitos ruídos de animais selvagens e letras em inglês e português apontam para um aprofundamento dos experimentos de Cibelle sobre o formato tradicional das canções já verificado no anterior The Shine of Electric Dried Leaves. Entre os colaboradores, estão Fernando Catatau, do Cidadão Instigado e Pupillo, baterista da Nação Zumbi.
Outra foto trás uma lista de músicas que provavelmente estarão no disco. Entre elas, "Mango Tree", apresentada por Cibelle em uma vinheta gravada para a MTV Brasil. Outros títulos são "Light Works", "Melting the Ice", "Braid Hair" (será a anteriormente conhecida por "White Hair"? )"Lady Grey", "Selvagem", "Sapato Azul", "Being Green", "Escute Bem", "Baby" e "Frankestein".
Sobre uma possível data de lançamento, nada ainda, mas não se perde por esperar. É uma das mais inventivas cantoras brasileiras dos tempos atuais.
A capa é esta aí do lado. Vagarosa já está em pré-venda nos Estados Unidos, com lançamento marcado para o próximo dia 7, através da Six Degrees Records. No Brasil, não se sabe o quanto vai demorar apesar da promessa de que sai ainda neste mês de julho, embora deva cair na rede tão logo o primeiro fã tenha acesso a ele.
Através da Amazon.com é possível ouvir uma prévia das 13 músicas que compõem o álbum - três delas presentes no EP Cangote ("Visgo de Jaca", em boa rotação na rádio carioca MPB FM ficou de fora). Informações sobre as faixas podem ser encontradas no site da gravadora.
A produção, conforme revelado aqui anteriormente, é dividida entre Beto Villares, Gustavo Lenza, Gui Amabis e integrantes da Nação Zumbi. Sob a alcunha de Los Sebozos Postizos, eles formam a banda de apoio de CéU em "Rosa Menina Rosa", pinçada do repertório de Samba Esquema Novo (1963), de Jorge Ben. Embora na bateria haja participações do finado Gigante Brasil em suas últimas gravações em estúdio ("Cangote" e "Papa"), de Curumin ("Nascente", "Grains de Bauté" e "Cordão da Insônia") e de Serginho Machado ("Sonâmbulo"), Pupillo é presença recorrente no comando das baquetas. Em "Ponteiro", com a companhia do baixo de Dengue.
Outras participações especiais são de Luiz Melodia em "Vira Lata", que CéU compôs especialmente para a voz do cantor. Guizado toca trumpete em "Nascente", cuja autoria é dividida com Siba. O cavaquinho de Rodrigo Campos está presente na vinheta de abertura "Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso" e em "Vira Lata".
Para promover o disco lá fora, no dia 10, CéU dá início a uma breve turnê pelos Estados Unidos, cujas datas são as seguintes:
Os primeiros shows anunciados no Brasil serão no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, nos dias 2, 3 e 4 de outubro. Não é certo que seja a estreia em terras brasileiras, embora seja bem provável. Os ingressos já estão a venda.
Abaixo, as músicas que compõem Vagarosa:
1. Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso (0:56)
(Letra e música: Céu)
2. Cangote (4:02)
(Letra e música: Céu)
3. Comadi (3:29)
(Letra: Céu / Música: Céu e Beto Villares)
4. Bubuia (3:14)
(Letra e música: Céu, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas)
5. Nascente (3:19)
(Letra: Siba / Música: Céu)
6. Grains de Beauté (3:34)
(Letra: Céu / Música: Céu e Beto Villares)
7. Vira Lata (3:37)
(Letra e música: Céu)
8. Papa (1:20)
(Letra e música: Céu)
9. Ponteiro (3:38)
(Letra e música: Céu)
10. Cordão da Insônia (2:42)
(Letra e música: Céu e Beto Villares)
11. Rosa Menina Rosa (4:41)
(Letra e música: Jorge Ben)
12. Sonâmbulo (3:50)
(Letra: Céu / Música: Céu, Serginho Machado, Bruno Buarque, Lucas Martins, Guilherme Ribeiro e DJ Marco)