Atualmente em cartaz em um cinema perto de você, morador das capitais brasileiras, Besouro não é aquele tipo de filme cujo desgostar pode ser camuflado com elogios à fotografia, ao elenco, à direção de arte, à edição ou mesmo aos efeitos especiais, dignos de nota em se tratando de cinema brasileiro. Talvez os belos cenários do Recôncavo Baiano e da Chapada Diamantina sirvam como ponto de fuga, mas nada é capaz de maquiar a fragilidade do roteiro da estreia em longa-metragens do diretor de publicidade João Daniel Tikhomiroff.
Embora o mito de Besouro e a capoeira constituam temas próprios a uma boa história, a narrativa se estabelece num vácuo entre a fábula e uma suposta realidade histórica sem convencer nem numa chave nem noutra. Os personagens arquetípicos - mocinhos(as) e vilões planos planos, sem nuances, com exceção de Quero-quero (Anderson Santos de Jesus) - transitam em situações óbvias.
No que se pretende "real", os negros recém-alforriados submetidos a condições de trabalho degradantes e privados de se manifestarem livremente, com proibições à prática da capoeira e, embora não seja mencionado no filme, também de exercerem seus rituais religiosos, depositam toda confiança numa possível redenção através do capoeirista Besouro (Ailton Carmo). Um triângulo amoroso entre o personagem principal, Quero-quero e Dinorá (Jéssica Barbosa) adiciona o elemento romance à trama, que não poderia faltar no repertório de clichês da roteirista Patricia Andrade (de "Dois Filhos de Francisco").
Besouro e sua amada
Pior é a representação das entidades do candomblé que compõem o terreno fabular. Além de nada acrescentarem à história com seus visuais estilizados - são meros guardiões de Besouro que, no entanto, não conseguem evitar o final trágico do capoeirista em sua luta do bem contra o mal -, banalizam as tradições religiosas afro-brasileiras, simplificando-as rasteiramente.
Exu estilizado
Os jogos de capoeira são poucos, mas muito bem coreografados por Hiuen Chiu Ku, o mesmo coordenador de cenas de ação dos hollywoodianos Matrix e Kill Bill. O desfecho em loop primeiro oferece uma versão com final feliz, mas em seguida opta pela tragédia seguida de esperança. Esperança esta de que o possível sucesso do filme resulte em uma continuação. A cena final, totalmente desprovida de sentido e fora de contexto, se presta única e exclusivamente para tal fim. O filho de Besouro assume a alcunha de seu pai e encara o temporariamente vitorioso coronel. As chances de um Besouro 2 são palpáveis. Em duas semanas de exibição, foi visto por 240 mil pessoas, de acordo com o blog da produção, um número bom para produções nacionais.
Mas por que razão um filme de qualidade estética duvidosa mereceria menção em um blog musical? Por causa da trilha sonora, obviamente. Besouro tem direção musical de Rica Amabis, membro do coletivo paulista Instituto. Se o filme não vai ficar na história, a sua trilha sonora já pode ser considerada clássica. Se coloca ao lado das de Baile Perfumado, Amarelo Manga, O Invasor, Árido Movie e Deserto Feliz. Exceto a do filme Beto Brant, assinada pelo Instituto, todas as outras vêm da cena cinematográfico-musical de Recife, reunindo bandas como Mestre Ambrósio, mundo livre s/a, Nação Zumbi - com e sem Chico Science - Eddie e os cantores e compositores Otto e Junio Barreto.
A trilha de Besouro reúne quase todos eles. Já no começo do filme, os cânticos das rodas de capoeira são entoados ora por Junio, ora por Otto. A trilha incidental tem temas compostos pelo próprio Rica em parceria com Pupillo e Tejo Damasceno, outros por Naná Vasconcelos e a canção tema do personagem principal, "Besouro - Cordão de Ouro", é da Nação Zumbi.
Não bastasse isso, "Besouro", a música tema do filme, promoveu o reencontro da Nação com Gilberto Gil treze anos depois de o músico baiano juntar-se à banda durante as gravações de Afrociberdelia para colocar voz em "Macô". Novamente ele canta sobre a base sonora da Nação dando mostras de que lhe caberia muito bem uma renovação nos moldes daquela engendrada pelo seu parceiro tropicalista de primeira hora, juntando-se a músicos mais jovens para renovar se não a sua música, a sua sonoridade. Porém, somente aqueles que permanecem no cinema quando os créditos finais já correm avançados por sobre a tela negra são brindados com o verdadeiro climax de Besouro. O melhor momento do filme dispensa imagens.
Abaixo, Gil coloca a voz na faixa em seu estúdio no Rio. Pena que o áudio esteja saturado.
Mostrando postagens com marcador nação zumbi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nação zumbi. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Da Lama ao Caos: reprodução literal 15 anos depois
"Modernizar o passado é uma evolução musical" cantava discursando Chico Science, em 1994, nos primeiros versos do hoje clássico Da Lama ao Caos, cujos 15 anos de lançamento têm sido comemorados com shows em que o álbum é reproduzido de cabo a rabo, quase sempre com a participação de convidados especiais. Porém, no palco, o ditame de Chico é ignorado. Reproduzir não é mordenizar.
Talvez porque a modernização já tenha sido levada à cabo nas comemorações de 10 anos do movimento, quando todos os integrantes da Nação e do mundo livre s/a, a outra banda seminal do movimento, se reuniram para fazer algumas apresentações sob a alcunha de Orquestra Manguefônica. Na ocasião, fizeram releituras inspiradas e nada reverentes de músicas de Da Lama ao Caos e de Samba Esquema Noise. Com certeza, um dos melhores shows já vistos em palcos brasileiros.
Na última sexta no Rio, com as memórias da Orquestra Manguefônica reverberando na mente, fui ao Circo Voador conferir o show da atual efeméride, ainda mais que o convidado era Fred Zeroquatro. Adicionou seu cavaquinho e fez duetos com Jorge du Peixe em algumas músicas, a bateria de Pupillo, que não fazia parte da banda na época, inseriu mais agressividade e intensidade às versões, mas nada que se possa chamar de novidade, afinal, muitas daquelas músicas fazem parte do repertório usual da Nação. Tratou-se de apenas mais um show, o que, em se tratando de Nação Zumbi, nunca é pouco, mas o show de lançamento de Fome de Tudo, no mesmo Circo, há pouco tempo atrás, foi muito melhor.
Talvez porque a modernização já tenha sido levada à cabo nas comemorações de 10 anos do movimento, quando todos os integrantes da Nação e do mundo livre s/a, a outra banda seminal do movimento, se reuniram para fazer algumas apresentações sob a alcunha de Orquestra Manguefônica. Na ocasião, fizeram releituras inspiradas e nada reverentes de músicas de Da Lama ao Caos e de Samba Esquema Noise. Com certeza, um dos melhores shows já vistos em palcos brasileiros.
Na última sexta no Rio, com as memórias da Orquestra Manguefônica reverberando na mente, fui ao Circo Voador conferir o show da atual efeméride, ainda mais que o convidado era Fred Zeroquatro. Adicionou seu cavaquinho e fez duetos com Jorge du Peixe em algumas músicas, a bateria de Pupillo, que não fazia parte da banda na época, inseriu mais agressividade e intensidade às versões, mas nada que se possa chamar de novidade, afinal, muitas daquelas músicas fazem parte do repertório usual da Nação. Tratou-se de apenas mais um show, o que, em se tratando de Nação Zumbi, nunca é pouco, mas o show de lançamento de Fome de Tudo, no mesmo Circo, há pouco tempo atrás, foi muito melhor.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
CéU: disco na rede em julho, show no Brasil em outubro
A capa é esta aí do lado. Vagarosa já está em pré-venda nos Estados Unidos, com lançamento marcado para o próximo dia 7, através da Six Degrees Records. No Brasil, não se sabe o quanto vai demorar apesar da promessa de que sai ainda neste mês de julho, embora deva cair na rede tão logo o primeiro fã tenha acesso a ele.Através da Amazon.com é possível ouvir uma prévia das 13 músicas que compõem o álbum - três delas presentes no EP Cangote ("Visgo de Jaca", em boa rotação na rádio carioca MPB FM ficou de fora). Informações sobre as faixas podem ser encontradas no site da gravadora.
A produção, conforme revelado aqui anteriormente, é dividida entre Beto Villares, Gustavo Lenza, Gui Amabis e integrantes da Nação Zumbi. Sob a alcunha de Los Sebozos Postizos, eles formam a banda de apoio de CéU em "Rosa Menina Rosa", pinçada do repertório de Samba Esquema Novo (1963), de Jorge Ben. Embora na bateria haja participações do finado Gigante Brasil em suas últimas gravações em estúdio ("Cangote" e "Papa"), de Curumin ("Nascente", "Grains de Bauté" e "Cordão da Insônia") e de Serginho Machado ("Sonâmbulo"), Pupillo é presença recorrente no comando das baquetas. Em "Ponteiro", com a companhia do baixo de Dengue.
"Espaçonave" é uma parceria com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que além de tocar guitarra nesta faixa, participa também de "Bubuia", composição coletiva de CéU, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas.
"Espaçonave" é uma parceria com Fernando Catatau, do Cidadão Instigado, que além de tocar guitarra nesta faixa, participa também de "Bubuia", composição coletiva de CéU, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas.
Outras participações especiais são de Luiz Melodia em "Vira Lata", que CéU compôs especialmente para a voz do cantor. Guizado toca trumpete em "Nascente", cuja autoria é dividida com Siba. O cavaquinho de Rodrigo Campos está presente na vinheta de abertura "Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso" e em "Vira Lata".
Para promover o disco lá fora, no dia 10, CéU dá início a uma breve turnê pelos Estados Unidos, cujas datas são as seguintes:
7/15 - The Triple Door - Seattle, WA
7/17 - The Roxy - Los Angeles, CA
7/18 - Herbst Theatre - San Francisco, CA
7/21 - The HighLine Ballroom - New York, NY
Os primeiros shows anunciados no Brasil serão no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, nos dias 2, 3 e 4 de outubro. Não é certo que seja a estreia em terras brasileiras, embora seja bem provável. Os ingressos já estão a venda.
Abaixo, as músicas que compõem Vagarosa:
Abaixo, as músicas que compõem Vagarosa:
1. Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso (0:56)
(Letra e música: Céu)
2. Cangote (4:02)
(Letra e música: Céu)
3. Comadi (3:29)
(Letra: Céu / Música: Céu e Beto Villares)
4. Bubuia (3:14)
(Letra e música: Céu, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas)
5. Nascente (3:19)
(Letra: Siba / Música: Céu)
6. Grains de Beauté (3:34)
(Letra: Céu / Música: Céu e Beto Villares)
7. Vira Lata (3:37)
(Letra e música: Céu)
8. Papa (1:20)
(Letra e música: Céu)
9. Ponteiro (3:38)
(Letra e música: Céu)
10. Cordão da Insônia (2:42)
(Letra e música: Céu e Beto Villares)
11. Rosa Menina Rosa (4:41)
(Letra e música: Jorge Ben)
12. Sonâmbulo (3:50)
(Letra: Céu / Música: Céu, Serginho Machado, Bruno Buarque, Lucas Martins, Guilherme Ribeiro e DJ Marco)
13. Espaçonave (3:35)
(Letra: Céu / Música: Céu e Fernando Catatau)
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Sonantes: trilha sonora para o cotidiano
Quatro músicas apareceram no Myspace de uma banda denominada Sonantes. Quando exatamente, não se sabe, mas as ondas sonoras logo reverberaram do espaço virtual para o cotidiano tomando de assalto as vias auditivas conectadas ao que de melhor se produz na música brasileira atual. Uma ponte erguida nas Perdizes paulistanas unindo o Recife da Nação Zumbi, de Pupilo e Dengue, e a São Paulo do Instituto, de Rica Amabis. Entre estes dois pólos de criatividade, a cantora CéU e o produtor e compositor Gui Amabis. Desdobramento concreto da experiência sônica do 3 na Massa. Inesperado é que ambos venham a luz juntos, tão próximos em sua filiação, mas diversos em seus propósitos. Pois Sonantes não se trata de um projeto, mas de uma banda batizada e abençoada por Jorge du Peixe, e que acolhe convidados tais quais Lucio Maia, Siba, Beto Villares, Toca Ogan, Fernando Catatau, Gustavo Da Lua, Pepe Cisneros, Sergio Machado, B-Negão e Apollo 9. Até então, a melhor novidade do ano de 2008, que promete uma safra excelente de novos discos, potencializada pelo fator surpresa. O texto que apresenta a banda no myspace leva a crer que o disco está pronto e será lançado em parceria entre o Selo Instituto e a Candeeiro. Vá agora à página dos Sonantes para ouvir as músias, ou baixe o EP compilado por um fã de primeira hora, sinta o baque e acione o repeat enquanto espera pela íntegra do possível e desejado álbum.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Retrospectiva 2007: Shows - Parte 1
2007 se encerrou. É comum que se façam balanços retrospectivos sobre o que de melhor aconteceu em diversas áreas. Na música, normalmente, as listas de melhores discos predominam e Pindzim não vai se furtar a oferecer a sua àqueles que estiverem interessados. Porém, os momentos de maior prazer dos amantes da música são os shows. Assistir ao ídolo querido, descobrir uma banda ou um artista novo confrontando-o da platéia, conferir como a sonoridade de um disco é retrabalhada no palco. Enfim, a experiência única de ver a música sendo construída nota por nota em tempo real, sem mediação.
Lembro abaixo alguns grandes momentos sem pretensões hierarquizantes. Afinal, na música, melhores e piores são determinados por uma questão intransferível de gosto pessoal:
Rodrigo Maranhão - Temporadas no CCC
Nação Zumbi - Circo Voador - 14 de dezembro
Fome de Tudo, o disco novo da Nação lançado no fim do ano, não me pegou de imediato. Não porque soasse mais ou menos pop, como se tem discutido. E sim porque é normal que os discos mais relevantes, aqueles que entram para a história, causem em um primeiro momento uma sensação de estranhamento. Com este sentimento aliado a uma certa preguiça devido a fúria que o som da Nação provoca sobre o público, me dirigi ao Circo Voador. Cheguei quando rolava o show de abertura com Ortinho e convidados. Naquele instante, cantava o mago Junio Barreto, "Amigos bons". Mesmo sozinho, pareceu-me um bom presságio. Me posicionei no melhor ponto da pista do Circo e ali fiquei até o fim, sem sair para beber ou mesmo ir ao banheiro. Transpostas para o palco, misturadas às antigas, as músicas de Fome de Tudo se distinguiram dos velhos clássicos por valorizarem arranjos climáticos, os tambores trabalhados de forma mais sútil, pois a receptividade dos fãs a elas era automática. Apenas as reações mais contidas, entre o balanço e coros eventuais para a voz de Jorge du Peixe. Nas músicas mais antigas e pesadas a insana roda de pogo se espalhava por toda a pista. Confesso que os melhores momentos, para mim, foram os de Fome de Tudo e os poucos que relembraram o disco anterior, Futura. Otto se integrou a banda a partir do meio do show e não saiu mais, revezando-se entre a percussão e o vocal de apoio. Junio Barreto voltou ao palco para cantar "Toda Surdez Será Castigada". O ápice ficou para o fim. Foi quando B Negão subiu ao palco para cantar o refrão de "Manguetown", levada pela guitarra com um efeito espacial. É tudo que eu consigo lembrar daquele que foi o mais festivo show da Nação que assisti até hoje.
Céu - Mistura Fina - 29 e 30 de novembro
Céu é uma cantora que recria suas músicas ao vivo com auxílio de sua excelente banda. Já escrevi sobre isso aqui. Ao longo destes dois anos de carreira nos palcos, as músicas foram ganhando novos detalhes. Improvisos vocais, as batidas quebradas do baterista Sérgio Machado alterando o ritmo aqui e ali, os scratches do DJ Marco preenchendo espaços com overdubs, injetando um suíngue derivado do hip-hop sem se impor sobre a multiplicidade sonora que caracteriza a musicalidade da cantora. Dependendo da noite, o show pode enveredar por improvisos jazzísticos ou, ao contrário, concentrar-se na linha melódica conduzida pela voz. Na mesa colada ao palco do Mistura Fina, o retrato fez-se nítido: da aparente oposição entre a energia irradiada pelo som e a delicadeza de sua presença, inconscientemente, sem artifícios ou grandes cuidados de produção, Céu forja naturalmente a mais interessante personalidade artística da música brasileira atual. Ave Céu!
Rodrigo Maranhão - Temporadas no CCC
Do Rodrigo Maranhão nervoso e de poucas palavras da estréia do show de lançamento de Bordado, ao bem humorado e falastrão da mais recente apresentação em novembro último, nota-se, além da mudança de comportamento, um compositor e uma banda cada vez mais a vontade com o repertório. Os arranjos permanecem os mesmos, privilegiando instrumentos acústicos, embora algumas músicas tenham incorporado baixo e guitarra, mas, agora, há margens para maiores improvisos. Especialmente, a partir do acordeão de Marcelo Caldi. A participação de convidados especiais, como Edu Krieger e Roberta Sá, renderam números memoráveis no palco do Centro Cultural Carioca. Se já estava afirmado como compositor, o carinho da platéia presente em seus shows indica que somente as canções não nos satisfazem. É na delicadeza de sua voz e de seu violão, na cumplicidade com seus velhos companheiros de Bangalafumenga, que Rodrigo Maranhão cria as mais belas interpretações que suas canções podem ter. Sendo um cara generoso, de vez em quando ele pode convidar uma ou outra intérprete para cantá-las em dueto. Com Roberta Sá, "Olho de Boi", inédita tanto nos shows dele quanto nos dela, ficou linda.
Na próxima parte, Thalma "Voz" de Freitas e Paulão 7 Cordas, Bebeto Castilho e Cibelle.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
Humaitá pra Peixe: Maquinado
Ao anunciar o show do Maquinado na noite de domingo, Bruno Levinson, idealizador do festival, apresentou Lucio Maia como um dos maiores guitarristas do Brasil. Com todo respeito a todos os demais, o integrante da Nação Zumbi há tempos é "O" melhor. Se na banda, os riffs de sua guitarra são a espinha dorsal das canções, frases que determinam o ritmo e a intensidade da massa percussiva, e o encaixe dos versos de Jorge du Peixe, Lucio faz do Maquinado um espaço recreativo. Com o chapéu enterrado na cabeça sob uma iluminação sombria, mal se vêem as expressões em seu rosto. Todas as luzes se concentram sobre a guitarra. Os beats e scratches do DJ PG e o gravíssimo baixo de Dengue compõem a base, ao mesmo tempo sólida e sútil, para os devaneios elétricos do Homem-binário. As canções se dissolvem ao serem recriadas ao sabor do passeio da mão esquerda de alto a baixo sobre o braço da guitarra e do manejo dos pedais, fazendo desvanecer qualquer conceito de autoria. O suíngue da mão direita é parente próximo do batuque de outro velho companheiro de Nação, o percussionista Toca Ogan. E o rock flui naturalmente, eminentemente elétrico com leve tempero acústico-eletrônico. Um convite à dança que as cadeiras da sala Baden Powell não deixaram se materializar, exceto pelo próprio Lucio e alguns poucos empolgados da platéia posicionados no fundo da sala.
É interessante observar que o show do Maquinado, distancia-se totalmente do disco lançado no ano passado. Enquanto Homem-binário pode ser enquadrado dentro do conceito de disco de produtor, em que Lucio Maia se propôs a explorar outras possibilidades formais como guitarrista e compositor, diferentes de seu trabalho com a Nação Zumbi. Os riffs poderosos continuam constituindo o núcleo celular das composições, mas as diversas texturas de guitarra que Lucio consegue extrair e combinar em uma mesma música, unidas a um teclado, ou a um trompete, como em "Alados", se destacam mais do que o virtuosismo de seus solos. Assim como grande parte do repertório do disco não foi incluído do show, em parte porque não seria fácil reunir o grande elenco de convidados que colaborou com os vocais em pelo menos metade das músicas, no palco, os solos, em que cada nota é mais importante do que a harmonia, são o show.
É interessante observar que o show do Maquinado, distancia-se totalmente do disco lançado no ano passado. Enquanto Homem-binário pode ser enquadrado dentro do conceito de disco de produtor, em que Lucio Maia se propôs a explorar outras possibilidades formais como guitarrista e compositor, diferentes de seu trabalho com a Nação Zumbi. Os riffs poderosos continuam constituindo o núcleo celular das composições, mas as diversas texturas de guitarra que Lucio consegue extrair e combinar em uma mesma música, unidas a um teclado, ou a um trompete, como em "Alados", se destacam mais do que o virtuosismo de seus solos. Assim como grande parte do repertório do disco não foi incluído do show, em parte porque não seria fácil reunir o grande elenco de convidados que colaborou com os vocais em pelo menos metade das músicas, no palco, os solos, em que cada nota é mais importante do que a harmonia, são o show.
Há quem prefira ver no palco uma reprodução fiel da sonoridade obtida a partir do disco gravado em estúdio, mas provavelmente não é o caso daqueles que lá estavam. E também daqueles que ainda terão a oportunidade de assistir a futuras apresentações do Maquinado. Lucio Maia, o homem-binário em seu projeto solo, não parece ser capaz de fazer uma apresentação igual a outra. Assim, que venham as próximas.
Assinar:
Postagens (Atom)