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sexta-feira, 4 de abril de 2008

Bordado é lançado no Japão com 2 faixas bônus

Um dos melhores discos brasileiros de 2007 acaba de ser lançado no Japão. Bordado, estréia solo de Rodrigo Maranhão, traz duas faixas bônus em sua edição japonesa. "Samba de Um Minuto", sucesso nos shows da cantora Roberta Sá, ganhou um registro na voz do seu próprio compositor em dueto com Zé Renato. A outra é "Mantra", parceria de Rodrigo e Pedro Luis, que é presença constante no repertório dos shows. Gravada por Maria Rita, a música foi incluída como faixa oculta de Segundo - o mesmo em que a cantora gravou "Caminho das Águas" e "Recado" - em uma versão que se mantém na obscuridade devido ao seu deslocamento em relação ao conjunto das canções 'oficiais' do disco. "Samba de Um Minuto" e "Mantra" serão incluídas na próxima tiragem da edição nacional de Bordado.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Rodrigo Maranhão - Myspace e show em BH

Está no ar a página de Rodrigo Maranhão no Myspace. Enfim, a presença mais do que necessária do compositor no universo virtual para levar suas belas músicas aos quatro cantos do mundo. Lá estão disponíveis para audição algumas músicas do disco Bordado, agenda de shows e alguns vídeos, como uma interessante entrevista para a UTV e, o que muito orgulha a Pindzim, um vídeo da Tuba em que Rodrigo interpreta "Recado" em sua estréia no Centro Cultural Carioca.

Boa notícia também é que outras capitais começam a receber o show do compositor. A primeira é Belo Horizonte, onde Rodrigo e banda se apresentam quarta-feira no Teatro Alterosa, às 21h. Neste feriado Pindzim esteve em terras mineiras e ouviu "Pra Tocar na Rádio" rodando na Guarany FM. Que imenso privilégio este dos mineiros de serem os primeiros a conferir ao vivo às músicas de Rodrigo Maranhão depois dos cariocas. Este que vos fala jamais perde uma oportunidade e garante: imperdível. Pudera eu estar lá.

Serviço: Rodrigo Maranhão e banda - 12 de setembro - quarta-feira
Local: Teatro Alterosa - Av. Assis Chateaubriand, 499 - Floresta
Horário: 21:00
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) / 15,00 (meia)
Informações: 3237-6611.

domingo, 22 de julho de 2007

Noite de (diferentes) estréias no Canecão

Não foi uma noite memorável como se esperava. Ao contrário das expectativas provocadas desde o anúncio do show há alguns meses atrás, o que se viu no Canecão foram dois espetáculos desiguais costurados pelo desajeitado encontro final entre compositor e intérprete.

O devido reconhecimento a um grande compositor
Rodrigo Maranhão subiu ao palco ao lado de seus comparsas com a simplicidade habitual. O cenário composto apenas pelos instrumentos, dispensando adereços, jogo de luzes ou qualquer outro elemento que não tivesse relação direta com a música. A distorção que antecedeu o primeiro acorde sugeriu que ele começaria com "Caminho das Águas". o Um artifício para conquistar o público logo de cara. Mas não. Veio “Baião Digital”, música que dá nome ao show e estabelece o conceito musical de Bordado. Nem é exatamente um baião, muito menos digital. E o público foi sendo conquistado aos poucos, revelando a porção mineira do carioca de origens nordestinas que carrega o Maranhão no nome e o Brasil em voz e violão. A empatia entre músico e platéia seguiu uma curva ascendente que atingiu seu ápice em “Noites do Irã”. A poesia desenhando a melodia acompanhada pela sanfona de Marcelo Caldi fluindo macia sobre os seixos da percussão até a catarse na coda conduzida pelo ecoar do lamento triste na voz prenhe de emoção sobre o batuque dos tambores, acentuando a dor dos escravos da globalização. Naquele momento, cada um dos presentes na casa definitivamente se entregou de corpo e alma à música de Rodrigo Maranhão. Justamente na música preferida pelo seu pai, conforme ele revelou na estréia do show no Centro Cultural Carioca. Daí em diante, ele ficou mais solto, passou a conversar com o público, às vezes fazendo graça de si mesmo, fazendo do show uma celebração divertida.

A estréia no Canecão foi um evento natural para o compositor. Comportou-se como se estivesse em casa, com autoridade musical. Da primeira à última canção, Rodrigo mostrou uma obra digna da estatura do palco que o abrigava mesmo que o show tenha tido uma duração reduzida. A se lamentar apenas o constante vai e vem dos garçons da casa, talvez motivados por alguns freqüentadores mais interessados no gelo do seu uísque do que no show em si, atrapalhando a visão e, assim, comprometendo a perfeita fruição do espetáculo por parte da maioria.

Roberta Sá: Stage Fright
Roberta Sá entrou em campo com o jogo ganho de antemão. Esse parece ser um dom da cantora. Foi assim em sua estréia em disco, quando recebeu acolhida imediata por parte da grande imprensa e conquistou um público fiel e devotado, entre os quais se inclui o papa pop da MPB, Caetano Veloso. De fato, Roberta Sá tem uma bela voz, de timbre ao mesmo tempo potente e delicado. Construiu um repertório que mescla canções de compositores consagrados às de alguns dos melhores representantes da nova geração, valorizou o onipresente samba e pode-se dizer que é hoje a mais bem sucedida cantora entre as muitas que seguem esta linha. Braseiro foi mesmo uma estréia respeitável, com dois grandes achados - “Lavoura”, de Tereza Cristina e Pedro Amorim, e “Ah se eu vou”, de Lula Queiroga -, uma representante da unanimidade hermânica – “Casa pré-fabricada” – e um sucesso de novela das oito – “A Vizinha do Lado”.

Quando já se esperava o segundo disco, veio a notícia da estréia no Canecão. A produção caprichada com cenário e figurino inéditos, créditos de abertura animados no telão, direção de Pedro Luis e Bianca Ramoneda, criou um clima de show de lançamento não-oficial de Que belo e estranho dia para se ter alegria. A entrada com “Eu Sambo Mesmo” trouxe-nos de volta ao passado. Apesar da usual receptividade de seu público, Roberta não parecia muito a vontade. Se em espaços pequenos sua presença de palco mostrou algum progresso, na amplidão do palco do Canecão ela perdeu toda a espontaneidade arduamente conquistada. Parecendo seguir rigorosamente à marcação de palco dos diretores, executando movimentos ensaiados, cada gesto previamente coreografado, Roberta se entregou a uma interpretação à beira da dislexia. A concentração dividida entre a música e o cerimonial fez a apresentação mais fria e racional. Por vezes, a emoção da voz se perdendo no automatismo da movimentação cênica, distanciando a cantora do público, especialmente nas músicas novas. Nas velhas conhecidas de Braseiro, mesmo que houvesse um afastamento durante a execução, mais um gelinho no copo, um comentário aqui e ali tecendo elogios, palmas de acompanhamento que não sustentavam o ritmo e a intensidade sugerida por Roberta, inevitavelmente, no final, se dava a usual comunhão entre o público, com aplausos e apupos, e a artista, agradecida e feliz.

Até aí, nada que tenha feito do show um mau espetáculo, mas com certeza seria fácil aos seus inúmeros fãs, mesmo que admitindo somente na intimidade de um pensamento nunca verbalizado, lembrarem de apresentações muito mais intensas. O melhor do show foi ter conhecido algumas das músicas que vão estar no disco novo, que ela prometeu para agosto. Embora se configure como uma continuação de Braseiro, o repertório de Que belo e estranho dia para se ter alegria é bem menos óbvio e, por isso, representa um passo a frente em relação ao seu antecessor. No processo ainda não concluído de construção de uma identidade musical própria, Roberta dá mais um passo em direção ao samba.

“Alô Fevereiro”, ao contrário do que foi escrito no post anterior, seria melhor definida como um clássico obscuro. Ao primeiro verso reconheci o samba contagiante do pouco lembrado Sidney Miller. Pelo que se ouviu no show, a versão de Roberta deve superar àquela gravada por Dóris Monteiro no passado.

”Laranjeira” e ”Janeiros também são coisa da antiga. A primeira é um samba de partido alto - um refrão que se repete preparando a passagem para um possível improviso na segunda parte, como a água correndo para o mar. A segunda, assinada pela própria cantora em parceria com Pedro Luís é um típico samba-canção, o qual Roberta interpreta com uma impostação emprestada das cantoras da era de ouro do rádio.

A contida “Mais Alguém” faz ponte com a tradição baiana do samba de roda, mas também flerta com o axé e o samba reggae, uma síntese que só se encontra nas composições de Moreno Veloso, provável autor da canção. A letra versando sobre um amor rasgado, beirando o brega, sobre uma levada percussiva em emulação dissimulada dos tambores do Olodum.

Outros representantes da nova geração gravados por Roberta em seu novo disco são Edu Krieger, de quem escolheu “Novo Amor”, e Pedro Luís e Carlos Rennó com “Fogo e Gasolina” e “Samba do Amor e Ódio” e a já conhecida “Girando na Renda”, única que foi apresentada no show. O que deveria ser o ápice da apresentação, por acidente, proporcionou o maior constrangimento da noite. À entrada de Pedro Luis - mais um convidado especial além de Rodrigo Maranhão no cavaquinho, e Marcelo Caldi na sanfona -, a cantora se perdeu e emendou um verso errado. Corrigiu-se no seguinte e o show continuou. Não estivesse publicamente registrado, rapidamente se poderia esquecer. Menos evidente foi a entrada em tonalidades conflitantes das vozes de Roberta Sá e Rodrigo Maranhão no dueto protagonizado entre os dois em “Samba de Um Minuto”. A cantora foi obrigada a conter o seu alcance vocal adequando-o à voz pequena do compositor enquanto cantavam a primeira estrofe. Mesmo sem soltar a voz como faz em sua interpretação solo, ficou claro que o novo disco de Roberta traz pelo menos um clássico da música brasileira contemporânea.

Conhecidas muitas das músicas, resta agora aguardar o lançamento do disco para ver se a produção de Rodrigo Campello, que também produziu Braseiro, tenha sabido valorizar as vicissitudes de cada canção e o resultado seja menos homogêneo e pasteurizado do que o do disco de estréia e aponte um rumo mais claro à carreira de Roberta, que fuja à sombra de Marisa Monte. “Afefé”, de Roque Ferreira, gravada no disco Samba Novo na companhia do Trio Madeira Brasil, já mostrou que é possível.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Agenda Rio - Semana 28/05 a 03/06

Mais uma semana com excelentes atrações nos palcos cariocas. O ponto alto da semana é o sábado, 2 de junho, em que o Circo Voador vai abrigar o show de duas das melhores bandas e em atividade. Do Rio, Kassin+2, junto com os pernambucanos do Mombojó. Veja abaixo as dicas do Pindzim:

28 Segunda-feira: Marcelinho da Lua na Modern Sound
Hoje, o dj e produtor carioca Marcelinho da Lua promove o lançamento do seu segundo disco, Social, no palco do Allegro Bistrô Musical. O sucessor de Tranquilo, eminentemente eletrônico, traz uma sonoridade mais orgânica, em que os samplers abrem mais espaços aos instrumentos tradicionais. Quatro músicas podem ser ouvidas no myspace. As composições se estruturam a partir da melodia combinada ao beat acelerado do DJ, próprio às pistas de dança. A participação de convidados de tendências diversas expandem o painel rítmico e sonoro do DJ. "Ela Partiu", de Tim Maia, com os gaúchos da Ultramen, virou um reggae clássico apimentado pelos beats de Marcelinho, ora em sincronia com a guitarra, ora ditando um ritmo proeminentemente dançante. B Negão, que participa do show, aproxima o rap da gafieira adubada pela eletrônica em "Fundamental". A cantora Marcela Mangabeira também faz participação esta noite.
Local: Modern Sound - Rua Barata Ribeiro, 502 – D - Copacabana.
Horário: 19:00
Ingresso: Grátis
Informações e reservas no site da loja.

29 Terça-feira: Flu no Cinematèque Jam Club
O músico gaúcho radicado no Rio de Janeiro apresenta "Música Desenhada", show audiovisual com intervenções gráficas do cartunista Allan Sieber. Acompanhado por Benjão e Marcelo Callado, Flu apresenta sua musicalidade acústico-eletrônico-psicodélica, com pitadas de bossa e lullabies, além de músicas do pseudo-álbum "As Coisas Boas da Vida", cujo vídeo de divulgação pode ser visto no youtube. Os Subterrâneos abrem a noite.
Local: Cinematèque Jam Club - Rua Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo.
Horário: 22:00
Ingressos: 20,00 (Inteira) / R$ 10,00 (Lista Amiga)

29 Terça-feira: Max Sette no Estrela da Lapa
O trompetista da Orquestra Imperial assume o microfone para mostrar as canções de seu disco de estréia como compositor, "Parábolas ao Vento", e recebe os convidados Rubinho Jacobina e Wilson das Neves, seu parceiro no samba "Era Bom". "Gomalina", já conhecida das apresentações com a Orquestra também está no repertório.
Local: Estrela da Lapa - Av. Mem de Sá, 69 - Lapa.
Horário: 22:00
Ingressos: R$ 15,oo
Informações e reservas no site da casa.

30 Quarta-feira: Rodrigo Maranhão no Centro Cultural Carioca
Última chance para assistir o show de lançamento de Bordado, disco de estréia do compositor carioca. Disco e show já foram comentados aqui neste blog, portanto não há muito mais a ser dito a não ser que é imperdível. Rodrigo Maranhão transpõem a delicadeza de suas composições para o palco com o apoio de seus antigos companheiros do Bangalafumenga e do acordeão de Marcelo Caldi respeitando o formato acústico registrado no disco.
Local: Centro Cultural Carioca - Rua do Teatro, 37 - Praça Tiradentes, Centro.
Horário: 21:00
Couvert Artístico: R$ 20,00
Informações e reservas no site do CCC.

30 Quarta-feira: Marcelo Campello na Casa da Gávea
Integrante do Mombojó, banda na qual toca violão de 7 cordas, cavaquinho, escaleta e trompete, Marcelo Campello lançou este ano um disco solo instrumental dedicado exclusivamente ao violão de 7 cordas que em nada se aproxima do som de sua banda ou mesmo do formato tradicional da canção. Projeções e mais duas séries para violão de sete cordas apresenta um músico maduro, apesar de ter apenas 24 anos, experimentando as possibilidades do seu instrumento para além das tradições do samba e do choro. Atonalidade, dissonâncias e o silêncio dão forma às composições presentes no disco que Marcelo vai apresentar neste show de lançamento aqui no Rio. O palco da Casa da Gávea é o lugar perfeito se admirar o músico desnudando suas intimidades musicais através das sete cordas do seu violão.
Local: Casa da Gávea - Praça Santos Dumont, 116 Sobrado - Baixo Gávea.
Horário: 21:00
Ingressos: R$ 10,00
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31 Quinta-feira: Flávia Bittencourt com Zé da Velha e Silvério Pontes no Trapiche da Gamboa
A cantora maranhense que gravou "Parangolé" no disco Samba Novo, projeto coletivo produzido por Rodrigo Maranhão que apresenta alguns dos nomes que vem revitalizando o samba carioca, se apresenta ao lado dos mestres Zé da Velha e Silvério Pontes. No repertório, clássicos do samba e canções de Sentido, disco de estréia da cantora lançado em 2005 que explora as tradições musicais do Maranhão.
Informações a respeito não disponíveis.
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1° Sexta-feira: Canastra no Teatro Odisséia
A banda carioca apresenta na casa da Lapa o segundo show de lançamento do disco Chega de Falsas Promessas, que pode ser encontrado nas bancas de todo o país encartado na revista Outra Coisa. Participação especial da cantora Érika Martins.
Local: Teatro Odisséia - Av Mem de Sá - Lapa.
Horário: 22:00
Ingressos: 20,00 (Inteira) / R$ 16,00 (Com filipeta)
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2 Sábado: Mombojó e Kassin+2 no Circo Voador
Como se já não fosse sensacional a volta do Mombojó ao Rio de Janeiro após longa ausência, os pernambucanos vão ter Kassin+2 fazendo as honras da casa. Após bem-sucedida turnê pela Europa e matéria elogiosa na Rolling Stone americana, a banda de Moreno Veloso, Domênico Lancelotti e Kassin se apresenta o show do disco Futurismo, no Circo Voador, enquanto o Mombojó volta à cidade com o show do disco Homem-espuma depois da elogiada apresentação no palco principal da edição 2006 do Tim Festival. Dois motivos para encarar a confusão na Lapa apesar do evento cervejeiro na vizinha Fundição.
Local: Circo Voador - Arcos da Lapa - Lapa.
Horário: 23:00
Ingressos: 30,00 (Inteira) / R$ 15,00 (Estudante)

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Noite de celebração para Rodrigo Maranhão

Pode parecer exagero duas postagens subseqüentes sobre um mesmo artista, mas não quando se trata de um compositor da estatura de Rodrigo Maranhão. Após uma estréia embargada pela emoção de estar levando ao palco pela primeira vez o show do lançamento de Bordado, seu primeiro disco solo, ele voltou ao palco do Centro Cultural Carioca mais a vontade na quarta-feira, dia 23. No final, a apresentação foi coroada pela entrega do Grammy de Melhor Canção Latina que lhe é de direito, oficialmente recebido por Maria Rita, por “Caminho das Águas”. Uma das primeiras cantoras a reconhecer o talento do compositor, ao gravar “Baile da Pesada”, Fernanda Abreu foi quem entregou a Rodrigo Maranhão o gramofone dourado sob louvação do público, interrompida apenas pelo segundo bis da noite. Antes de cantar seu maior sucesso, divertiu-se revelando se tratar de um prêmio tardio aquele, uma vez que a canção foi composta quando ele tinha 18 anos, inspirada por cânticos de roda de capoeira, no caminho entre a sua casa e a praia. Na dúvida entre gravá-la ou desfrutar dos prazeres imediatos do sol e do mar, optou, ainda que inconscientemente, pela futura consagração.

Acompanhado por seus companheiros de Bangalafumenga – Tiago Di Sábato na guitarra, Dudu Fuentes e André Moreno na percussão -, mais Marcelo Caldi no acordeão, Rodrigo Maranhão amplia no show o repertório do disco. Partindo de “Baião Digital”, música que originalmente daria nome ao disco e batiza o show, eles tocam todas as músicas de Bordado, exceto “Olho de Boi”. Um set solitário contempla os sambas “Pra Tocar no Rádio” e “Recado”, ao vivo acrescida de violão. Em seguida, ele recebe Edu Krieger para juntos, sob o choro da sanfona, cantarem “A Mais Bonita de Copacabana”, presente em Samba Novo, projeto coletivo produzido por Maranhão. Já com a banda de volta ao palco, levam “Ciranda do Mundo”, música do convidado que, como o próprio contou orgulhoso, não é mais atribuída a ele. Tornou-se de domínio público.

Canções que não entraram em Bordado reafirmam a unidade de uma obra ancorada na beleza das diversas tradições regionais da música brasileira e fazem crescer a expectativa de que as nossas intérpretes continuem recorrendo ao baú do compositor para trazer à luz mais alguns destes tesouros guardados. Entre os destaques, “Samba de Um Minuto”, com sua viola delicada tal qual a de Paulinho, que ontem contou com a participação especial de Zé Renato e faz parte do repertório de shows de Roberta Sá, e uma canção espiritual, com menções divinas, a qual me falta o nome, que guarda parentesco com a fase mística de Gilberto Gil.

Assistindo à interpretação do autor ali no palco, fiel ao disco na simplicidade dos arranjos acústicos construídos a partir do violão, ou seja, da essência das canções, tem-se a certeza de que se está diante não só de um magistral compositor, mas de um dos grandes artistas da música brasileira atual. Já se dizia de Caymmi que ele é imbatível na interpretação de suas próprias canções. Seja ao vivo ou em estúdio, o mesmo pode ser dito de Rodrigo Maranhão.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Disco: Bordado - Rodrigo Maranhão

Geografia musical da delicadeza perdida

Bordado (MP, B / Universal), primeiro disco solo de Rodrigo Maranhão, é uma viagem pela riqueza das tradições regionais da música brasileira reprocessadas pela linguagem poético-musical do compositor carioca. Estão lá o samba, restabelecendo a ponte original entre o Rio e a Bahia, agora no sentido inverso, o baião, o xote, a ciranda e o coco nordestinos, e até a milonga gauchesca. Nunca, porém, aferrados às suas formas clássicas. As 11 músicas reunidas no disco compõem uma obra coesa pela hibridização de diferentes gêneros na unidade de cada canção. Rodrigo Maranhão imerge na tradição para atualizá-la e recolocá-la em movimento.

“Bordado” parte do litoral, revisitando as canções praieiras de Dorival Caymmi, gênero inaugurado e encerrado na obra do compositor baiano. Os personagens são os mesmos. Há o pescador dividido entre suas duas paixões, sempre a navegar por sobre a amplidão do mar para no fim desaguar nos olhos do seu bem. O pescado à mesa, temperado por aquela que inspira em seu coração sonhador “uma canção maior”, oceânica. Como único acompanhamento à voz, o violão, emulando o ir e vir da ondulação, embalando a amada ao sabor das marés. Porém, o cenário não é exatamente o mesmo, não se trata de uma vila de pescadores baiana. Está mais para uma praia deserta a meio caminho entre o Rio de Janeiro e o Ceará, terreno onde, só, Rodrigo Maranhão finca a bandeira da musicalidade que lhe é peculiar.

Em seguida, a embarcação do compositor solitário toma o rumo do continente navegando contra a correnteza rumo ao “Interior” “da rinha de galo, do café na panela, das noites de lua, das noites de breu”. O violão recebe o acompanhamento da viola caipira de dez cordas de Marcello Gonçalves, integrante do Trio Madeira Brasil. A marcação do triângulo, “a chuva na serra” e “o espinho do mato machucando o gibão” não permitem que o ouvinte se situe na trilha percorrida pelas composições de Rodrigo Maranhão. Sua obra não tem guias, é um convite à divagação.

Sob o luar do sertão, “Olho de Boi” é um enigma que oferece respostas cifradas: “o que não falei sim, tudo que cantei sou”. Carrega a tristeza de um canto de trabalho, como fosse um aboio cantado em versos: “olho de ajudar boi, rezo pelo popular; reza pra cantar boi, canto pra purificar”. Mas também pode ser apenas um lamento sertanejo cuja poética se constrói em função da melodia.

O Nordeste se estende ao Rio Grande do Sul em “Milonga”. A lírica circular se constrói a partir de negações recorrentes que insistem em afirmar que nem tudo é o que parece. Assim como o vanerão gaúcho pertence à mesma família do xote nordestino, a milonga de Rodrigo Maranhão ecoa pelo sertão. Acelerada, com o acompanhamento de triângulo e zabumba, bem poderia se transformar num baião.

Pelo xote chegamos ao Rio de Janeiro, anuncia o acordeão de Marcelo Caldi, tal qual Luiz Gonzaga fez no passado, abandonando a terra natal, com “muita fé e pouco dinheiro”, para tentar a sorte na antiga capital. “O Osso” não dissimula sua raiz nordestina, mas tergiversa na malemolência. Em seu ritmo lento, abre espaço para a ginga e o jogo de cintura do carioca rubro-negro. Uma vez no Rio de Janeiro, ele exorta: “moçada carrega o batuque, no berço do samba deixa o couro cantar”. Sim, mas sem pandeiro, surdo, repique, reco-reco e tamborim. “Pra Tocar na Rádio” é um samba de linhagem baiana, cadenciado, em que a divisão rítmica se organiza exclusivamente através do violão, tocado ao estilo de João Gilberto, com quem os improvisos vocais no fim da canção estreitam ainda mais os laços. Rodrigo Maranhão manteve guardado seu espírito carnavalesco de mestre de bateria e puxador do Bloco do Banga para o desfile do ano que vem. A outra incursão pelo universo do samba presente no disco é ainda mais direta. “Recado” foi gravada a capela. A simplicidade do arranjo fazendo contraponto à banca de seu interlocutor, uma celebridade instantânea que se afasta de suas origens ao optar pelo esbanjamento e o acúmulo de bens materiais.

“Baião Digital” também marca a posição do compositor em relação aos hábitos e à cultura típicos da pós-modernidade. Por um lado, não se trata exatamente de um baião à moda antiga, ao contrário do que poderia sugerir o título. O ritmo marcado na palma da mão e o violão de 7 cordas tocado com vigor percussivo por Marcello Gonçalves remetem à música ritual e às brincadeiras de terreiro. A referência ao digital aborda o deslocamento da esfera real para um universo virtual em que se depende de máquinas para mediar o relacionamento entre as pessoas, mantendo qualquer um acessível em todos os lugares. A música de Rodrigo Maranhão transita por paragens diversas sem que ele precise sair do seu lugar ou se distanciar de suas raízes em nome de uma suposta modernidade contemporânea.

Esta linha reflexiva atinge o ápice e a síntese na melancólica “Noites de Irã”, um canto aos escravos da globalização – os irmãos subjugados em suas existências miseráveis cuja cultura é ignorada pelos ideais supostamente democráticos do “grande irmão” que ninguém quis, o autodeterminado juiz de última instância, imune a julgamentos. Sobre o batuque dos tambores de origem africana, a coda ecoa o lamento triste de um compositor consciente do lugar que lhe cabe no latifúndio global, resistente à ilusão de “viver de mentira o sonho de um outro país”. “Cresço para bem servir-te, ó pátria-amada”, anuncia, ao som de berimbau e agogô no samba de roda “Todo Dia” para em seguida completar: “eu não queria me calar ó mãe, minha mãe”. A ele se junta em coro múltiplo a cantora Elizah, reunindo o canto ancestral de todas as gerações em uma só voz.

Navegando sobre o encontro de coco, ciranda e baião, “a barca segue seu rumo lenta” de volta à origem. O retorno à casa paterna e aos “olhos da morena bonita”, aquela mesma que assistiu à partida em “Bordado”, lá no começo, após a viagem a qual somos conduzidos em apenas meia hora. O último canto das águas renova o primeiro grande sucesso do compositor – na interpretação de Maria Rita – em uma versão que valoriza o acento regional marcado pelo ritmo da zabumba. Em “Caminho das Águas”, Rodrigo Maranhão trança o último fio de linha da sua poesia sobre o fundo musical das tradições brasileiras, redesenhando em seu “caminho bordado a fé” a geografia musical do país da delicadeza perdida. O Brasil do encontro festivo de diferentes raças, credos e culturas se faz redivivo em suas canções.


Assista a "Caminho das Águas" no show de lançamento do disco Bordado na Tuba do Pindzim.
Veja mais informações sobre o show aqui.