Não foi uma noite memorável como se esperava. Ao contrário das expectativas provocadas desde o anúncio do show há alguns meses atrás, o que se viu no Canecão foram dois espetáculos desiguais costurados pelo desajeitado encontro final entre compositor e intérprete.
O devido reconhecimento a um grande compositor
Rodrigo Maranhão subiu ao palco ao lado de seus comparsas com a simplicidade habitual. O cenário composto apenas pelos instrumentos, dispensando adereços, jogo de luzes ou qualquer outro elemento que não tivesse relação direta com a música. A distorção que antecedeu o primeiro acorde sugeriu que ele começaria com "Caminho das Águas". o Um artifício para conquistar o público logo de cara. Mas não. Veio “Baião Digital”, música que dá nome ao show e estabelece o conceito musical de Bordado. Nem é exatamente um baião, muito menos digital. E o público foi sendo conquistado aos poucos, revelando a porção mineira do carioca de origens nordestinas que carrega o Maranhão no nome e o Brasil em voz e violão. A empatia entre músico e platéia seguiu uma curva ascendente que atingiu seu ápice em “Noites do Irã”. A poesia desenhando a melodia acompanhada pela sanfona de Marcelo Caldi fluindo macia sobre os seixos da percussão até a catarse na coda conduzida pelo ecoar do lamento triste na voz prenhe de emoção sobre o batuque dos tambores, acentuando a dor dos escravos da globalização. Naquele momento, cada um dos presentes na casa definitivamente se entregou de corpo e alma à música de Rodrigo Maranhão. Justamente na música preferida pelo seu pai, conforme ele revelou na estréia do show no Centro Cultural Carioca. Daí em diante, ele ficou mais solto, passou a conversar com o público, às vezes fazendo graça de si mesmo, fazendo do show uma celebração divertida.
A estréia no Canecão foi um evento natural para o compositor. Comportou-se como se estivesse em casa, com autoridade musical. Da primeira à última canção, Rodrigo mostrou uma obra digna da estatura do palco que o abrigava mesmo que o show tenha tido uma duração reduzida. A se lamentar apenas o constante vai e vem dos garçons da casa, talvez motivados por alguns freqüentadores mais interessados no gelo do seu uísque do que no show em si, atrapalhando a visão e, assim, comprometendo a perfeita fruição do espetáculo por parte da maioria.
Roberta Sá: Stage Fright
Roberta Sá entrou em campo com o jogo ganho de antemão. Esse parece ser um dom da cantora. Foi assim em sua estréia em disco, quando recebeu acolhida imediata por parte da grande imprensa e conquistou um público fiel e devotado, entre os quais se inclui o papa pop da MPB, Caetano Veloso. De fato, Roberta Sá tem uma bela voz, de timbre ao mesmo tempo potente e delicado. Construiu um repertório que mescla canções de compositores consagrados às de alguns dos melhores representantes da nova geração, valorizou o onipresente samba e pode-se dizer que é hoje a mais bem sucedida cantora entre as muitas que seguem esta linha. Braseiro foi mesmo uma estréia respeitável, com dois grandes achados - “Lavoura”, de Tereza Cristina e Pedro Amorim, e “Ah se eu vou”, de Lula Queiroga -, uma representante da unanimidade hermânica – “Casa pré-fabricada” – e um sucesso de novela das oito – “A Vizinha do Lado”.
Quando já se esperava o segundo disco, veio a notícia da estréia no Canecão. A produção caprichada com cenário e figurino inéditos, créditos de abertura animados no telão, direção de Pedro Luis e Bianca Ramoneda, criou um clima de show de lançamento não-oficial de Que belo e estranho dia para se ter alegria. A entrada com “Eu Sambo Mesmo” trouxe-nos de volta ao passado. Apesar da usual receptividade de seu público, Roberta não parecia muito a vontade. Se em espaços pequenos sua presença de palco mostrou algum progresso, na amplidão do palco do Canecão ela perdeu toda a espontaneidade arduamente conquistada. Parecendo seguir rigorosamente à marcação de palco dos diretores, executando movimentos ensaiados, cada gesto previamente coreografado, Roberta se entregou a uma interpretação à beira da dislexia. A concentração dividida entre a música e o cerimonial fez a apresentação mais fria e racional. Por vezes, a emoção da voz se perdendo no automatismo da movimentação cênica, distanciando a cantora do público, especialmente nas músicas novas. Nas velhas conhecidas de Braseiro, mesmo que houvesse um afastamento durante a execução, mais um gelinho no copo, um comentário aqui e ali tecendo elogios, palmas de acompanhamento que não sustentavam o ritmo e a intensidade sugerida por Roberta, inevitavelmente, no final, se dava a usual comunhão entre o público, com aplausos e apupos, e a artista, agradecida e feliz.
Até aí, nada que tenha feito do show um mau espetáculo, mas com certeza seria fácil aos seus inúmeros fãs, mesmo que admitindo somente na intimidade de um pensamento nunca verbalizado, lembrarem de apresentações muito mais intensas. O melhor do show foi ter conhecido algumas das músicas que vão estar no disco novo, que ela prometeu para agosto. Embora se configure como uma continuação de Braseiro, o repertório de Que belo e estranho dia para se ter alegria é bem menos óbvio e, por isso, representa um passo a frente em relação ao seu antecessor. No processo ainda não concluído de construção de uma identidade musical própria, Roberta dá mais um passo em direção ao samba.
“Alô Fevereiro”, ao contrário do que foi escrito no post anterior, seria melhor definida como um clássico obscuro. Ao primeiro verso reconheci o samba contagiante do pouco lembrado Sidney Miller. Pelo que se ouviu no show, a versão de Roberta deve superar àquela gravada por Dóris Monteiro no passado.
”Laranjeira” e ”Janeiros também são coisa da antiga. A primeira é um samba de partido alto - um refrão que se repete preparando a passagem para um possível improviso na segunda parte, como a água correndo para o mar. A segunda, assinada pela própria cantora em parceria com Pedro Luís é um típico samba-canção, o qual Roberta interpreta com uma impostação emprestada das cantoras da era de ouro do rádio.
A contida “Mais Alguém” faz ponte com a tradição baiana do samba de roda, mas também flerta com o axé e o samba reggae, uma síntese que só se encontra nas composições de Moreno Veloso, provável autor da canção. A letra versando sobre um amor rasgado, beirando o brega, sobre uma levada percussiva em emulação dissimulada dos tambores do Olodum.
Outros representantes da nova geração gravados por Roberta em seu novo disco são Edu Krieger, de quem escolheu “Novo Amor”, e Pedro Luís e Carlos Rennó com “Fogo e Gasolina” e “Samba do Amor e Ódio” e a já conhecida “Girando na Renda”, única que foi apresentada no show. O que deveria ser o ápice da apresentação, por acidente, proporcionou o maior constrangimento da noite. À entrada de Pedro Luis - mais um convidado especial além de Rodrigo Maranhão no cavaquinho, e Marcelo Caldi na sanfona -, a cantora se perdeu e emendou um verso errado. Corrigiu-se no seguinte e o show continuou. Não estivesse publicamente registrado, rapidamente se poderia esquecer. Menos evidente foi a entrada em tonalidades conflitantes das vozes de Roberta Sá e Rodrigo Maranhão no dueto protagonizado entre os dois em “Samba de Um Minuto”. A cantora foi obrigada a conter o seu alcance vocal adequando-o à voz pequena do compositor enquanto cantavam a primeira estrofe. Mesmo sem soltar a voz como faz em sua interpretação solo, ficou claro que o novo disco de Roberta traz pelo menos um clássico da música brasileira contemporânea.
Conhecidas muitas das músicas, resta agora aguardar o lançamento do disco para ver se a produção de Rodrigo Campello, que também produziu Braseiro, tenha sabido valorizar as vicissitudes de cada canção e o resultado seja menos homogêneo e pasteurizado do que o do disco de estréia e aponte um rumo mais claro à carreira de Roberta, que fuja à sombra de Marisa Monte. “Afefé”, de Roque Ferreira, gravada no disco Samba Novo na companhia do Trio Madeira Brasil, já mostrou que é possível.
domingo, 22 de julho de 2007
domingo, 15 de julho de 2007
Rodrigo Maranhão e Roberta Sá no Canecão
Escute o que vou lhe dizer, um minuto de sua atenção por algumas horas de muito prazer musical. Nesta semana que se inicia acontece um dos grandes shows do ano no Rio. Em apresentação única, juntos e separados, Rodrigo Maranhão e Roberta Sá no palco do Canecão.O compositor volta a apresentar o show do disco Bordado, pequena peça musical calcada em uma lírica permeada por uma brasilidade ancestral e na simplicidade dos arranjos eminentemente acústicos que revelam na íntegra a sensibilidade poética e musical de Rodrigo Maranhão. Rodrigo promete fugir ao roteiro do disco apresentando as novas "Negro Coração", de Chacal e Ricardo Barreto, e "Mantra", parceria entre Rodrigo e Pedro Luís. O compositor já figurou na tela deste blog em duas oportunidades. Para ler postagem sobre Bordado, clique aqui. Sobre o show de lançamento no Centro Cultural Carioca, clique aqui.
Enquanto o novo trabalho não sai, Que belo e estranho dia para se ter alegria deve chegar ao público no mês de agosto, a cantora Roberta Sá faz o show de despedida da bem sucedida turnê de Braseiro, seu disco de estréia. Para aplacar as grandes expectativas que cercam o lançamento do disco, a cantora deve apresentar em primeira mão a inédita "Janeiros", parceria da cantora também com Pedro Luís, e "Alô Fevereiro", canção obscura do esquecido Sidney Miller, compositor talentoso de carreira inconstante, da linhagem de Chico Buarque, que teve músicas gravadas por Nara Leão no fim dos anos 60.
Em noite de gala, a promessa de momento mais sublime fica por conta do encontro entre compositor e intérprete. Juntos eles vão cantar "Samba de Um Minuto", de autoria de Rodrigo, que faz parte do repertório de shows de Roberta e estará no novo disco. Merece toda a sua atenção, do primeiro ao útlimo minuto. A cobertura completa vc acompanha aqui.
domingo, 8 de julho de 2007
Nota dissonante: a música perdeu O Rafa
O primeiro impulso à notícia foi negar-lhe a credibilidade: o coração levou O Rafa. Ficou a flauta chorando notas em tom menor pela perda de um grande musicista. Maestro dos interlúdios de alta erudição popular na sonoridade eletro-híbrido-acústica do Mombojó. Sopros a acalentar a distorsão roqueira, as notas feito afluentes sinuosos a desaguar sobre o curso da canção. As vezes com o trombone, ocasionalmente um violão.
De memória busco lembranças de O Rafa no palco. Cadeira a cadeira ao lado de Marcelo Campello, parceiros no tocar dos instrumentos acústicos. Sempre reservado, quase distante. Ou concentrado, com os ouvidos atentos a espera da deixa para introduzir suas pequenas suítes? Penso que nunca compreendi o que se passava nas terminações nervosas por debaixo daqueles cabelos espigados. A armação quadrada dos óculos a dissipar-lhe o olhar. Uma voz que se abria somente em coro. O Rafa traduzia-se pela música, a melhor música. Aquela que não se explica nem é matéria que a morte pode levar.
Pindzim presta homenagam ao músico e à sua banda no traço destas linhas e na Tuba, trazendo de volta à primeira página o vídeo pioneiro: Mombojó com "Nem Parece".
De memória busco lembranças de O Rafa no palco. Cadeira a cadeira ao lado de Marcelo Campello, parceiros no tocar dos instrumentos acústicos. Sempre reservado, quase distante. Ou concentrado, com os ouvidos atentos a espera da deixa para introduzir suas pequenas suítes? Penso que nunca compreendi o que se passava nas terminações nervosas por debaixo daqueles cabelos espigados. A armação quadrada dos óculos a dissipar-lhe o olhar. Uma voz que se abria somente em coro. O Rafa traduzia-se pela música, a melhor música. Aquela que não se explica nem é matéria que a morte pode levar.
Pindzim presta homenagam ao músico e à sua banda no traço destas linhas e na Tuba, trazendo de volta à primeira página o vídeo pioneiro: Mombojó com "Nem Parece".
domingo, 1 de julho de 2007
Entrevista: Thais Gulin
A melhor maneira de conhecer o trabalho de um artista novo é assistindo à sua apresentação ao vivo. No palco, a integridade musical de uma intérprete revela-se sem subterfúgios. A voz ecoa sem filtros. A presença de palco e a capacidade de conquistar o público são postas a prova. O arranjo das canções desnudam as sutilezas da produção em estúdio. Assisti ao show de Thais Gulin em sua estréia no Centro Cultural Carioca antes de ouvir ao disco de estréia da cantora e fiquei com uma boa impressão. Melhor ainda foi assisti-la na intimidade do Cinematèque Jam Club, colada ao público que lotava o pequeno espaço. Trata-se de uma intérprete em evolução, porém com uma identidade definida a partir do elemento fundamental para o sucesso de uma cantora: a voz.A curitibana radicada no Rio de Janeiro trafega pela via larga das cantoras que casam a tradição da MPB consagrada de autores como Chico Buarque, Toquinho e Zé Ramalho às atualidades de compositores contemporâneos, como Zeca Baleiro. Porém, sua música se destaca pela escolha de músicas nada óbvias do repertório de tais compositores e, principalmente, por sua predileção pela obra de artistas marginais, embora não menos importantes, como Tom Zé, Jards Macalé e Arrigo Barnabé. Representando a nova geração desta linhagem "maldita", comparecem o pernambucano Otto e as paulistas Iara Rennó e Anelis Assumpção, do grupo Dona Zica.
A experiência como atriz no passado, mesmo que inconscientemente, foi um elemento fundamental para a escolha do repertório e, conseqüentemente, para a construção de uma identidade particular. O elemento catalisador da musicalidade de Thais é a sua voz. A força de seu trabalho provém das emoções que o seu canto evoca na interpretação de músicas cujas letras, no conjunto, se caracterizam por conter uma alta carga dramática.
No momento, Thais se dedica à divulgação do disco de estréia lançado no ano passado pela gravadora independente Rob Digital. Nesta semana, ela faz show em Paraty, onde acontece a FLIP. Em entrevista ao Blog do Pindzim, a cantora fala sobre o seu espaço no cenário atual da música brasileira, a concepção do disco e os efeitos da internet sobre a produção musical.
Pindzim: A música brasileira vive um momento em que muitas cantoras têm se destacado com trabalhos que unem a tradição de compositores consagrados às novidades de jovens compositores. Seu trabalho de estréia desenvolve esta linha. Neste cenário, qual seriam as particularidades de sua música e com quais outros artistas contemporâneos você se identifica musicalmente?
Thais Gulin: Eu me identifico e adoro a Monica Salmaso, Bjork, Mart'nália, Caetano, Tom Zé, Rumo, etc... Tenho ouvido muitos discos de música experimental também. Quanto a essa mistura de tradição e novidade, quando terminamos o disco, acabei achando o repertório bem atemporal, principalmente as canções dos compositores mais tradicionais. Me sinto absolutamente exposta nesse repertório.
Pindzim: Destaca-se no seu trabalho o repertório nada óbvio, com compositores de épocas e tendências diversas, mas que mantém uma unidade estética. De que maneira você chegou às músicas que compõem o disco?Thais Gulin: O processo todo durou quase 4 anos. No começo o objetivo nem era gravar um disco. Eu queria descobrir na música o que seria mais pessoal para mim. Começou com a demo que gravei com o Fernando Moura (produtor do disco). Fomos testando e descobrindo as sonoridades, a direção dos arranjos, a formação. Duas músicas do demo estão no disco: "Hino de Duran" (com outro arranjo) e "A Vida da Outra (Dela) ou Eu" (com o mesmo arranjo do demo). Depois dessa demo, comecei a fazer shows no Rio e o repertório foi se formando. Era um entra e sai de músicas... "Cedotardar", "Cinema Incompleto" e "Cisco" entraram só na época da pré-produção do disco. E "78 rotações" entrou quando o disco já estava quase todo gravado. Eu tinha pedido "Movimento dos Barcos" (também do Jards Macalé e do Capinam) a um amigo e ele mandou a música com esse título, mas a que estava lá era "78 rotações". Adorei o acaso, adorei a canção, fechava bem o conceito do disco. E ficou assim.
Pindzim: Você assina duas músicas do disco, "A Vida da Outra (dela) ou eu", parceria com Rogério Guimarães, e "Cinema Incompleto (Núpcias)", com Arrigo Barnabé. Como funcionou o processo de composição nestas duas músicas e qual a sua participação em cada uma delas, letra, melodia?
Thais Gulin: Letra. Na "Vida da Outra" fiz primeiro a letra, o Rogério fez a música e depois ainda acrescentamos juntos uma segunda estrofe. No "Cinema Incompleto" eu letrei a música já pronta do Arrigo.
Pindzim: Como tem sido o trabalho de divulgação do disco? Em quais cidades você já se apresentou e quais serão os próximos passos?
Thais Gulin: A divulgação do trabalho se deve quase totalmente à imprensa e às rádios. Quanto aos shows, o primeiro lançamento foi no Guairinha (Teatro Guaíra) em Curitiba, depois fizemos uma temporada, no Centro Cultural Carioca. Fizemos Cinematheque, Letras e Expressões, Modern Sound e outras casas, ainda no Rio. Esse mês, teve mais uma temporada no Centro Cultural Carioca. No final de semana passado foi o lançamento aqui em São Paulo, no Sesc Vila Mariana e ainda fizemos um pocket show na Livraria da Vila. Na semana que vem (quinta-feira), vamos nos apresentar na FLIP em Paraty (no Che Bar). Esse ano, ainda quero fazer o lançamento em Belo Horizonte, Porto Alegre, voltar a Curitiba e fazer uma temporada em São Paulo.
Pindzim: Nos shows, você tem recebido convidados como Nelson Sargento, Otto e Jards Macalé. Você já os conhecia ou conheceu-os em decorrência de ter gravado canções destes autores no disco?
Thais Gulin: O S. Nelson, eu conheci num show que fiz no Teatro do Planetário há uns 3 anos. Eu cantava "Homenagem ao Mestre Cartola" e o convidei para fazer uma participação nessa música. Mandei o demo para ele, ele gostou e topou fazer. Nesse show acabamos cantando também "De Boteco em Boteco" - foi quando essa música entrou no repertório. O Otto, tínhamos uma amiga em comum e nos conhecemos no aeroporto de Congonhas, há uns 2 anos. O Macalé, foi só depois do disco. Mandei a ele, ele curtiu e, mais tarde, veio a participação. É sempre uma surpresa cantar com os autores, porque você passa tanto tempo cantando aquela música, com uma certa visão, e de repente entra quem escreveu e desconstrói tudo. Abre uma outra perspectiva.
Pindzim: Para você, qual a importância da internet como meio de divulgação para o seu trabalho, através de mp3 e sites como myspace e youtube? Por vezes pode ser um instrumento sobre o qual o artista não tem controle, como quando um fã disponibiliza o disco em mp3 ou posta um vídeo sem prévia autorização. Você encara esses aspectos como negativos?
Thais Gulin: Não. Não dá para ignorar a presença da internet e querer que tudo seja como antes. Ela não existe para ter limite e é um espaço difícil (ou impossível) de ser regulamentado e controlado. O mercado ainda não se adaptou a isso e ninguém apareceu com uma resposta. Além de que muitos discos que estão na rede, não estão nas lojas. É ruim que baixem sua música de graça? Um disco onde foi investido tanto trabalho e tanta verba? Por esse lado, sim. Mas, não é bom que cada vez mais pessoas conheçam a sua música? Sim. Então, enquanto não houver uma solução com a qual todos fiquem felizes, vou sempre preferir que cada vez mais pessoas tenham acesso ao meu trabalho. De qualquer maneira, eu adoro um bom encarte de cd. Mais ainda, uma capa de disco de vinil. :-)
domingo, 24 de junho de 2007
Edu Krieger abre as portas do Canecão

Edu Krieger não é uma novidade na cena musical carioca. Ao contrário, é um músico forjado nos palcos da cidade. Lançou seu primeiro disco no ano passado sem grande alarde. Um conjunto de belas canções inoculadas por diversos regionalismos cujo reconhecimento vem se dando de forma gradual e progressiva. Sua "Ciranda do Mundo", gravada por Maria Rita e Pedro Luis e a Parede, escapou à sua autoria e incorporou-se ao domínio público. É uma daquelas canções que se espalham de boca em boca, seja na voz de crianças celebrando as festas juninas ou na interpretação distorcida dos paraíbanos do Cabruêra, sem que se dê crédito ou reconhecimento ao autor. Uma peça musical que transcende à propriedade intelectual pela sensibilidade com que toca os ouvintes a ponto de estes a reproduzirem instintivamente por puro prazer, como se há muito fizesse parte da memória coletiva.
Nesta semana que finda, Edu se apresentou pela primeira vez no palco do Canecão. Quem conhece a mística da casa, sabe que se trata de uma chancela à carreira de um músico brasileiro. Um rito de passagem a um estágio maior de reconhecimento e envergadura. E o público que preencheu grande parte da casa o recebeu com as honras merecidas.
Não foi a primeira vez que assiti a um show de Edu, mas com certeza foi a primeira vez que dediquei total atenção à sua performance musical e à sonoridade da sua banda sobre o palco. O compositor exerce um pleno domínio sobre as tradições da música brasileira, do samba à ciranda, do jongo ao choro canção, alinhavadas por uma poética cuja identidade se constrói no perfeito encaixe entre letra e melodia, uma a serviço da outra, como se elas nascecem juntas, indissociáveis, na imaginação do autor. A boa voz e o domínio vocal do cantor possibilitam com que ele explore as nuances melódicas que cada verso propicia, ora aprofundando certas extensões, ora contido pela melancolia dos acordes menores, outrora explorando os desvios das dissonâncias. O violão de 7 cordas é usado de forma reverente, basicamente como um instrumento ritmíco, vez ou outra arriscando-se na baixaria, traçando a linha mestra das canções sobre a qual todos os outros instrumentos se arranjam.
Mas são justamentes os demais ingredientes que diminuem o sabor do delicioso caldo musical de Edu Krieger. A bateria se impõem como força maior no campo rítmico abafando as sutilezas da percussão, a qual poderia agir subliminarmente sobre a estrutura das canções tirando-lhes o peso e conseqüentemente torando-as mais arejadas, com maior espaço para a harmonia. A guitarra discreta, de seu irmão Fernando Krieger, preenche os espaços deixados pelo violão sem exercer de fato um contraponto. Um segundo violão, dedilhado, seria mais efetivo nesse sentido. Isso porque a flauta transversa de PC Castilho, quando em evidencia, evoca a tradição dos regionais chorando pela companhia de mais um pandeiro, um cavaco e um tamborim. O mesmo vale para Marcelo Caldi, dividido entre o teclado e a sanfona. Quando debruçado sobre as teclas, passa desapercebido. Ao ficar de pé no manejo do fole, ele abre novas possibilidades tanto harmônicas quanto melódicas. Prova disso é o momento em que ele e Edu ficaram sozinhos no palco na interpretação de "A Mais Bonita de Copacabana". O mesmo aconteceu no final do show, quado a banda se retirou e ele recebeu Geraldo Azevedo para uma participação especial e os dois puseram seus violões a dialogar. Juntos, tocaram "Temporais", uma parceria, e a clássica "Moça Bonita". A parte estes momentos, o formato quase pop da maioria dos arranjos contribuiu para a planificação de uma obra cujo alcance tem tudo para se expandir cada vez mais. A bela "Novo Amor" estará no aguardado segundo disco de Roberta Sá, Que belo e estranho dia para se ter alegria. Edu agradeceu à cantora que estava presente na platéia, e exaltou por pelo menos quatro vezes o também presente Rodrigo Maranhão como mais um representante da excelência criativa desta geração que vem definitivamente conquistando o seu espaço.
Assim, me despeço deixando a vocês três momentos de Edu Krieger ao vivo na Tuba do Pindzim:
"Moça Bonita", com Geraldo Azevedo no Canecão. "Novo Amor", com sua banda, no mesmo show do Canecão. E, por fim, "Ciranda do Mundo", em participação no show de Rodrigo Maranhão no Centro Cultural Carioca.
quarta-feira, 20 de junho de 2007
Marcela Mangabeira hoje em Belo Horizonte

Esta é uma dica para os leitores mineiros deste blog. A cantora Marcela Mangabeira apresenta hoje a noite o show de lançamento do cd Simples no Teatro Alterosa. Considerada uma das grandes revelações do ano por Nelson Motta, ela interpreta clássicos da bossa nova como "A Rã" e "Eu e a Brisa" e músicas inéditas como "Os Grilos" e "Pro Tom", esta última composta especialmente para ela por Roberto Menescal. Com arranjos que transitam entre o orgânico e o eletrônico, o destaque do disco é a voz da cantora. Marcela já acompanhou o grupo Bossacucanova em excursões pela Europa e participa dos grupos vocais Mulheres de Hollanda, 4 Cantus e Bebossa. A boa recepção de suas músicas nas rádios de Belo Horizonte fez com que Roberto Menescal a elevasse ao patamar de Ivete Sangalo em termos de popularidade entre os mineiros. Hoje é a chance de conferir ao vivo o trabalho da cantora.
Show de Marcela Mangabeira e lançamento do Cd "Simples" em única apresentação.
Local: Teatro Alterosa - Av. Assis Chateaubriand, 499 - Floresta
Data: 20 de Junho de 2007, Quarta-feira
Horário: 21:00 horas
Ingresso: R$ 30 (inteira) / R$ 15,00 (meia)
Mais informações: 31-3077-7047/9906-3659
domingo, 17 de junho de 2007
Satisfação aos leitores do Pindzim
Por motivos de ordem profissional, o blog anda abandonado já faz algum tempo. Desde a véspera do feriado estou trabalhando insanamente em área outra que, infelizmente, nada tem a ver com música. Trata-se de um recesso temporário, embora ainda não haja uma data certa para terminar. Tal compromisso tem dificultado minha presença na excelente temporada de shows que vem se estendendo desde o princípio de maio. Nestes últimos dias, fui apenas à despedida do Los Hermanos, sobre a qual ainda pretendo escrever aqui neste espaço, embora o calor da hora tenha se passado, e ao show de lançamento de Carnaval só ano que vem, primeiro disco da Orquestra Imperial, que também merece registro. Aproveito esta primeira folga dominical para retomar o contato com os leitores e prometer que em breve voltarei a atualizar este espaço com a constância habitual do primeiro mês. Pelo menos, assim espero.
Enquanto esta hora não chega, ofereço aos freqüentadores deste espaço, dois vídeos da Orquestra Imperial no Teatro Rival: "Matemática do Desejo", com vocal de Nina Becker, e "Cansado de Sambar", com vocal de Thalma de Freitas. Ambos podem ser vistos na Tuba do Pindzim.
Deixo também algumas sugestões de shows para a semana que entra:
19 Terça-feira: Cordão do Boitatá no Centro Cultural Carioca
20 Quarta-feira: Moraes Moreira no Estrela da Lapa
21 Quinta-feira: Orquestra Imperial no Teatro Rival
Agô!
Enquanto esta hora não chega, ofereço aos freqüentadores deste espaço, dois vídeos da Orquestra Imperial no Teatro Rival: "Matemática do Desejo", com vocal de Nina Becker, e "Cansado de Sambar", com vocal de Thalma de Freitas. Ambos podem ser vistos na Tuba do Pindzim.
Deixo também algumas sugestões de shows para a semana que entra:
19 Terça-feira: Cordão do Boitatá no Centro Cultural Carioca
20 Quarta-feira: Moraes Moreira no Estrela da Lapa
21 Quinta-feira: Orquestra Imperial no Teatro Rival
Agô!
quarta-feira, 6 de junho de 2007
Los Hermanos: notas sobre o recesso
Nilson Primitivo, diretor dos clipes de "O Vento" e "Sentimental", e do filme "Ventura", ensaio documental focado sobre os fãs da banda durante a turnê do álbum homônimo, vai ser o responsável pelo registro audiovisual da despedida dos Los Hermanos antes do indeterminado recesso. Não está definido se o material terá lançamento comercial ou se será disponibilizado aos fãs através da internet. Neste momento de turvação, Marcelo Camelo não fugiu à contudência de algumas perguntas em entrevista publicada ontém no Drops 3.0 do MTV Overdrive, cuja manchete antecipa o fim da banda. Questionado sobre os motivos da parada, revelou que os integrantes estão cansados da rotina a que a banda vem se submetendo desde antes da ascenção, em 1999, com o estouro de "Anna Julia". Por isso, particularmente, ele pretende descansar. Também deixou claro que, na qualidade de músico e compositor, não tem compromisso de agradar a todos os fãs. A entrevista foi concedida durante os ensaios que Marcelo realizou com a dupla Sandy & Junior tendo em vista a gravação do acústico que marca a despedida da dupla.
terça-feira, 5 de junho de 2007
Céu: a cantora da nação
Os acordes do violão ainda não identificavam a música quando se ouviram os primeiros versos de “O Ronco da Cuíca”. A banda, posicionada na porção esquerda do grande palco do Vivo Rio, acompanhava discretamente, respeitando a proeminência do violão do co-autor da canção. Dedilhando as cordas, o mestre de cerimônias João Bosco estendia o tapete vermelho para Céu, a estrela da noite. A banda se retira e os dois se aproximam no centro do palco. O violão percussivo anuncia “Rainha”, cantada em dueto. O acento grave da voz de João contrasta com a delicadeza frágil do timbre da voz da cantora.

Mas é quando João deixa o palco e o DJ dispara a introdução de “Roda” que o show de Céu efetivamente começa. A intensidade musical da cantora no palco está umbilicalmente vinculada aos músicos da banda que a acompanha. Sérgio Machado, na bateria, e Bruno Buarque, na percussão, produzem o substrato rítmico de raiz afro-brasileira. A densidade do som provém do baixo de Lucas Martins. O teclado de Guilherme Ribeiro concentra as linhas melódicas. O DJ Marco é uma verdadeira usina sonora. Saem de suas pick ups a segunda voz, bases de guitarra, naipe de metais, contrapontos percussivos, além dos scratches e efeitos. Na mesa de som, Gustavo Lenza garante a equalização harmônica entre voz e instrumentos. Com esta formação, a música de Céu atinge a perfeição entre o ideal – conforme registrado em estúdio – e o imaginado – as concepções artísticas dela enquanto compositora.
Mesmo quando assume a condição de intérprete em “Concrete Jungle”, de Bob Marley, e “Visgo de Jaca”, de Sérgio Cabral e Rildo Hora, ela imprime seu toque pessoal. Se a variação melódica do reggae, em sua versão original, já expandia os limites do gênero, Céu aprofundou-a explorando as nuances de sua voz e também lhe alterou sutilmente o ritmo com uma marcação menos rígida na guitarra e uma bateria mais quebrada. Já o samba, em nada guarda relação com a versão gravada originalmente por Martinho da Vila. Céu transfigurou-o em um soul funkeado com uma pitada de reggae aqui e ali. No refrão, Céu altera a entonação em benefício do groove e ainda abre espaço para um solo do DJ Marco.
O tempo passado na estrada em apresentações nos Estados Unidos, seguidas por duas temporadas no Tom Jazz, em São Paulo, foi benéfico para aprimorar o desempenho da cantora e de sua banda no palco, mas o show do Vivo Rio manteve a essência do último concerto da cantora no Rio de Janeiro, no Tim Festival. O repertório reuniu as músicas do disco de estréia, excluídas as lentas “Valsa para Biu Roque” e “Véu da Noite”, os sambas “Bobagem” e “Samba na Sola”, e “Mais um lamento”. Também ficou de fora “Ragga”, música composta em parceria com os integrantes da banda durante turnê na Europa que vem sendo tocada ocasionalmente e aponta para a expansão de seus horizontes musicais.

Sua performance no palco é de entrega à música mais do que ao público. Por cantar composições próprias, o sentimento que Céu transmite através de gestos e expressões corporais ao interpretá-las é genuíno. Assim, a imposição de sua presença se dá naturalmente. Seja no estilo de dançar indiferente à platéia, por vezes de costas, interagindo com os integrantes da banda, outras como se estivesse sozinha em uma pista de dança. Ou no improviso travestido de samba, “Chegou de mansinho, veio vagarinho, ô menino bonito...” que ela incorporou definitivamente à “Malemolência”. E ainda, advertindo que não tomem sua gentileza por fraqueza durante a execução de “Rainha”.
Quando dividiu o palco com João Bosco, Céu assumiu uma postura contida, sentada em um banquinho, revisitando clássicos do cancioneiro nacional no formato voz e violão. Apesar de toda beleza contida em sua interpretação de “Isto aqui o que é”, de Ary Barroso, fica claro que Céu fica mais a vontade ao tangenciar a tradição sem apropriar-se dela.
É notório que a música brasileira vive um período fértil de jovens cantoras. Mas, se por um lado boas vozes não faltam, a originalidade esbarra no conservadorismo dos repertórios e dos arranjos. Passada a fase da bossa eletrônica que exportou talentos e ainda rende frutos tardios por aqui, caiu-se na maldição do samba. Revitalizado a partir de um movimento engendrado por uma nova geração carioca em rodas na Lapa e no carnaval de rua, hoje, a tal maldição está espalhada pelo Brasil. Enquanto algumas bandas conseguem mimetizar o samba ao som de baixo, guitarra e bateria, outros através de samplers e scratches, nossas cantoras acabam aprisionadas em arranjos reverentes, seja ao samba, à bossa nova ou mesmo ao pop, deixando-se enquadrar entre seguidoras ou de Elis, ou de Clara, ou de Nara ou de Marisa.
Céu, ao contrário, incorpora o samba sem devoção ou deslumbramento, incorporando-o a outras matrizes da música negra, o que resulta em uma musicalidade original que transcende o mero folclore nacional e é reconhecida pela sua criatividade para além das fronteiras do país. Suas incursões explícitas ao gênero são duas: “Samba na Sola” e “Bobagem”. Esta última, um samba incomum, melancólico e de ritmo lento, cuja introdução de acordes dissonantes deságua numa levada percussiva minimalista sobre a qual Céu entoa: “Minha beleza, não é efêmera, como a que eu vejo em bancas por aí. Minha natureza é mais que estampa, é um belo samba que ainda está por vir”. Uma letra da cantora para a sua nação.

Mas é quando João deixa o palco e o DJ dispara a introdução de “Roda” que o show de Céu efetivamente começa. A intensidade musical da cantora no palco está umbilicalmente vinculada aos músicos da banda que a acompanha. Sérgio Machado, na bateria, e Bruno Buarque, na percussão, produzem o substrato rítmico de raiz afro-brasileira. A densidade do som provém do baixo de Lucas Martins. O teclado de Guilherme Ribeiro concentra as linhas melódicas. O DJ Marco é uma verdadeira usina sonora. Saem de suas pick ups a segunda voz, bases de guitarra, naipe de metais, contrapontos percussivos, além dos scratches e efeitos. Na mesa de som, Gustavo Lenza garante a equalização harmônica entre voz e instrumentos. Com esta formação, a música de Céu atinge a perfeição entre o ideal – conforme registrado em estúdio – e o imaginado – as concepções artísticas dela enquanto compositora.
Mesmo quando assume a condição de intérprete em “Concrete Jungle”, de Bob Marley, e “Visgo de Jaca”, de Sérgio Cabral e Rildo Hora, ela imprime seu toque pessoal. Se a variação melódica do reggae, em sua versão original, já expandia os limites do gênero, Céu aprofundou-a explorando as nuances de sua voz e também lhe alterou sutilmente o ritmo com uma marcação menos rígida na guitarra e uma bateria mais quebrada. Já o samba, em nada guarda relação com a versão gravada originalmente por Martinho da Vila. Céu transfigurou-o em um soul funkeado com uma pitada de reggae aqui e ali. No refrão, Céu altera a entonação em benefício do groove e ainda abre espaço para um solo do DJ Marco.
O tempo passado na estrada em apresentações nos Estados Unidos, seguidas por duas temporadas no Tom Jazz, em São Paulo, foi benéfico para aprimorar o desempenho da cantora e de sua banda no palco, mas o show do Vivo Rio manteve a essência do último concerto da cantora no Rio de Janeiro, no Tim Festival. O repertório reuniu as músicas do disco de estréia, excluídas as lentas “Valsa para Biu Roque” e “Véu da Noite”, os sambas “Bobagem” e “Samba na Sola”, e “Mais um lamento”. Também ficou de fora “Ragga”, música composta em parceria com os integrantes da banda durante turnê na Europa que vem sendo tocada ocasionalmente e aponta para a expansão de seus horizontes musicais.

Sua performance no palco é de entrega à música mais do que ao público. Por cantar composições próprias, o sentimento que Céu transmite através de gestos e expressões corporais ao interpretá-las é genuíno. Assim, a imposição de sua presença se dá naturalmente. Seja no estilo de dançar indiferente à platéia, por vezes de costas, interagindo com os integrantes da banda, outras como se estivesse sozinha em uma pista de dança. Ou no improviso travestido de samba, “Chegou de mansinho, veio vagarinho, ô menino bonito...” que ela incorporou definitivamente à “Malemolência”. E ainda, advertindo que não tomem sua gentileza por fraqueza durante a execução de “Rainha”.
Quando dividiu o palco com João Bosco, Céu assumiu uma postura contida, sentada em um banquinho, revisitando clássicos do cancioneiro nacional no formato voz e violão. Apesar de toda beleza contida em sua interpretação de “Isto aqui o que é”, de Ary Barroso, fica claro que Céu fica mais a vontade ao tangenciar a tradição sem apropriar-se dela.
É notório que a música brasileira vive um período fértil de jovens cantoras. Mas, se por um lado boas vozes não faltam, a originalidade esbarra no conservadorismo dos repertórios e dos arranjos. Passada a fase da bossa eletrônica que exportou talentos e ainda rende frutos tardios por aqui, caiu-se na maldição do samba. Revitalizado a partir de um movimento engendrado por uma nova geração carioca em rodas na Lapa e no carnaval de rua, hoje, a tal maldição está espalhada pelo Brasil. Enquanto algumas bandas conseguem mimetizar o samba ao som de baixo, guitarra e bateria, outros através de samplers e scratches, nossas cantoras acabam aprisionadas em arranjos reverentes, seja ao samba, à bossa nova ou mesmo ao pop, deixando-se enquadrar entre seguidoras ou de Elis, ou de Clara, ou de Nara ou de Marisa.
Céu, ao contrário, incorpora o samba sem devoção ou deslumbramento, incorporando-o a outras matrizes da música negra, o que resulta em uma musicalidade original que transcende o mero folclore nacional e é reconhecida pela sua criatividade para além das fronteiras do país. Suas incursões explícitas ao gênero são duas: “Samba na Sola” e “Bobagem”. Esta última, um samba incomum, melancólico e de ritmo lento, cuja introdução de acordes dissonantes deságua numa levada percussiva minimalista sobre a qual Céu entoa: “Minha beleza, não é efêmera, como a que eu vejo em bancas por aí. Minha natureza é mais que estampa, é um belo samba que ainda está por vir”. Uma letra da cantora para a sua nação.
segunda-feira, 4 de junho de 2007
Agenda Rio - Semana 04/06 a 10/06
Nesta semana, a grande atração nos palcos cariocas são os shows de despedida do Los Hermanos na Fundição Progresso. Ainda restam poucos ingressos para a primeira apresentação, na quinta-feira, dia 7. Para os dias 8 e 9 já se esgotaram faz tempo. A Tuba do Pindzim vai estar presente nos shows de sexta e sábado e os leitores poderão acompanhar a cobertura aqui. Aproveito para esclarecer que, segundo fonte ligada à banda, ao contrário do que foi divulgado no blog do Mauro Ferreira, o show não será registrado para posterior lançamento em DVD e/ou CD.
Outra boa pedia para entrar no ritmo das festas juninas é a temporada que Moraes Moreira e sua banda vão promover no Estrela da Lapa em todas as quartas de junho. Abaixo, as dicas de Pindzim.
Outra boa pedia para entrar no ritmo das festas juninas é a temporada que Moraes Moreira e sua banda vão promover no Estrela da Lapa em todas as quartas de junho. Abaixo, as dicas de Pindzim.
Os músicos Alfredo Del-Penho, Pedro Paulo Malta, Luís Felipe de Lima, Beto Cazes e Henrique Cazes apresentam o show Cachaça dá Samba, baseado no repertório do disco homônimo que traz 14 faixas dedicadas à mais tradicional das bebidas brasileiras. O trabalho foi concebido a partir de uma pesquisa realizada pelo grupo que resultou na compilação de músicas de diversos gêneros, como o samba, o partido alto, a música caipira e a famosa marchinha. "Se você pensa que cachaça é água..."
Local: Teatro Rival Br - Rua Álvaro Alvim, 33/37 - Subsolo - Cinelândia
Horário: 19:30
Ingressos: R$30,00 (INTEIRA) / R$25,00 (OS 200 PRIMEIROS PAGANTES) / R$15,00 (MEIA)
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05 Terça-feira: Moptop e Móveis Coloniais de Acaju no Canecão
Duas bandas da nova geração do rock brasileiro se apresentam no Canecão. O Moptop, do Rio de Janeiro, cujo elogiado disco de estréia foi lançado no ano passado pela major Universal, leva o seu rock básico ao templo da música carioca. Pindzim esteve presente no show de lançamento do disco ano passado no Teatro Sérgio Porto em que a performance da banda foi prejudicada pela precariedade do som que tornou inaudível a voz de Gabriel Marques abafada pela massa sonora das guitarras. Com músicas na trilha sonora do excelente filme "É Proibido Proibir" e da novelinha global "Malhação" é muito provável que o profissionalismo dê o tom desta apresentação. Antes, apresenta-se o Movéis Coloniais de Acaju, recentemente elogiados pelos grunges do Mudhoney pela apresentação no Porão do Rock no fim de semana passado. A banda brasiliense foi uma das grandes sensações da edição deste ano do Humaitá pra Peixe, conquistando um público fiel, daqueles que se entrega e canta junto, no melhor estilo Los Hermanos. Os arranjos recheados por metais, por vez ou outra remetem à banda carioca. Depois do show, tem festa do pessoal do Moptop no Cinematèque Jam Club. Basta apresentar o canhoto do ingresso do Canecão para ter acesso.
Local: Canecão - Rua Venceslau Brás - Botafogo.
Horário: 19:00
Ingressos: R$ 30,00 / R$ 15,00 (Estudante)
Mais informações no site do Canecão.
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06 Quarta-feira: Moraes Moreira no Estrela da LapaMoraes Moreira e seu filho Davi Moraes levam o clima dos festejos juninos para o coração da Lapa durante todas as quartas-feiras de junho. Clássicos do xote, baião e xaxado além de composições próprias, como "Forró do ABC" e "Festa do Interior" fazem parte do repertório.
Local: Estrela da Lapa - Av. Mem de Sá, 69 - Lapa
Horário: 22:00
Ingressos: R$ 25,00 / R$ 20,00 (com filipeta)
Mais informações e reservas no site da casa.
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06 Quarta-feira: Thais Gulin no Centro Cultural Carioca
A cantora natural de Curitiba volta aos palcos cariocas com o show de lançamento de seu disco de estréia, cujo destaque fica por conta do repertório nada óbvio. Canções de novos compositores, como o pernambucano Otto e as paulistas Iara Rennó e Anelis Assumpção do grupo Dona Zica, se misturam a clássicos de Tom Zé e Chico Buarque. Jards Macalé faz participação especial. Confira ainda esta semana uma entrevista com Thais aqui.
Local: Centro Cultural Carioca - Rua do Teatro, 37 - Praça Tiradentes, Centro.
Horário: 21:00
Couvert Artístico: R$ 17,00
Informações e reservas no site do CCC.
Horário: 21:00
Couvert Artístico: R$ 17,00
Informações e reservas no site do CCC.
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Também estava prometido para esta quarta-feira, véspera de feriado, show do Cordão do Boitatá em homenagem a Sivuca e Dominguinhos no Clube dos Democráticos. Até agora, não consegui confirmação, mas vale a pena ficar atento.
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