quinta-feira, 17 de julho de 2008

Lica: Winehouse à brasileira

Esta postagem é uma crônica bastante pessoal. Não é uma crítica, embora haja juízos de valor contidos nela. Dada a passagem do tempo, certos fatos dados como verdades absolutas não correspondem a um passado sobre o qual a história não foi escrita. Fica aqui a minha colaboração.

Chica Felina
A primeira vez que vi e ouvi Lica cantar foi em um show da Groove James em uma festa não oficial do Festival de Gramado. O ano não lembro exatamente, talvez 98, ou 99. Com uma blusa de lã cor de rosa com gola rolê, ela dividia os vocais com dois MC's de versos inflexíveis e nenhuma voz cujos nomes não me recordo nem me darei ao trabalho de pesquisar. Pois, daquela apresentação, guardo na memória as interpretações de Lica para "Soul Rebel"-ao mesmo tempo etérea e intensa- e "Imunização Racional (Que Beleza)" -cujos versos nunca tiveram uma tradução mais fiel do que na voz daquela cantora até então para mim desconhecida. Isso em uma época em que o culto à fase racional de Tim Maia estava para começar.

Estaria mentindo se não dissesse que o refrão "Não brinque comigo/ eu não sou seu tamagochi/ minha cabeça tá doendo/ não aguento mais deboche" me pegou ali também. Não pela poética, logicamente, mas pela voz.
Embora fosse uma banda de rock em sua configuração instrumental, o hip-hop dava o tom das canções autorais. Lica, talvez por ser uma cantora, mais do que apenas uma MC, tinha seu espaço restrito a momentos esporádicos para não ofuscar os sofríveis rimadores. Momentos estes que justificavam a existência da banda. Por nunca terem entendido -ou aceitado- que o diferencial da Groove James era Lica, eles nunca foram além do circuito regional. Coisa que a banda que se apresentou em seguida quase conseguiu.

Tudo ou Nada - Clipe dos tempos de Groove James

Coube à Bidê ou Balde fechar a noite com seu rock retrô irônico e piadista. Era a preferida do público presente, majoritariamente formado por colegas do curso de Comunicação Social da PUC-RS, como grande parte dos integrantes tanto da Groove quanto da Bidê. E se já colaborava para eu me sentir deslocado o fato de ser estudante da UFRGS, mais contribuiu minha incapacidade de ver qualquer valor musical ou humorístico na banda liderada pela lenda viva Carlinhos Carneiro. Havia também uma garota que fazia a segunda voz. Sua voz pouco se ouvia. Tinha uma função muito mais decorativa do que musical.

Depois daquela noite em Gramado assisti a muitos outros shows da Groove James, mas ali já ficara claro que ela era a responsável pelo interesse que a banda despertava. Lica chegou a participar do primeiro e único disco da banda até agora, mas logo saiu para seguir carreira solo. Na qual, diga-se, manteve-se no terreno do hip-hop, onde é, hoje, uma MC respeitada e reconhecida. Em 2006, ganhou o Prêmio Hutuz na categoria Melhor Demo Feminina, por Cada Dia; fez apresentações na Europa, onde gravou algumas músicas com nomes do hip-hop local; e arrancou aplausos espontâneos em apresentação em congresso da ONU contra a violência a mulher em Nova York.

Peleia - ao vivo em Congresso da ONU

Por que me veio à lembrança aquela noite na serra há quase 10 anos atrás? Há pouco tempo, alguns integrantes das duas bandas que tocaram naquela noite reuniram-se com outros músicos da cena local para formar o Império da Lã, uma banda que, entre covers variados, se propõe a recriar na íntegra clássicos do pop internacional em apresentações ao vivo.

Lica Winehouse
Para reproduzir Back to Black, de Amy Winehouse, eles convidaram Lica para assumir os vocais, o penteado e a maquiagem. Drogas a parte, o resultado foi sensacional. E se alguns críticos musicais paulistanos choram, lamentam e reclamam que não temos cantoras como a inglesa, depois de assistir aos vídeos da apresentação no Youtube, é possível que eles enxerguem em Lica uma forte candidata. Potência vocal e presença de palco, ela tem.

You Know I'm No Good - Lica e Império da Lã

Que as comparações parem por aqui para que eu não seja levado a mal, mas deu vontade de ver Lica à frente de uma banda explorando todas as suas possibilidades como vocalista e performer para além das limitações que o ritmo e a poesia do hip-hop inevitavelmente impõem à sua musicalidade. O Império da Lã seria a banda perfeita. Nas mãos de um bom produtor, Lica poderia ser não a Winehouse brasileira, mas sim uma Winehouse à brasileira. Até pode-se enxergar uma certa semelhança física entre as duas.

Ídolos internacionais sempre levam vantagem quando comparados aos brasileiros. No pop, permanece vivo o complexo de vira-latas muito bem traduzido por Nelson Rodrigues. Se de antemão haverá de se ouvir que a inglesa é muito mais cantora do que a brasileira, será impossível negar que a nossa é mais linda, mais cheia de graça e também canta que é uma beleza.

4 comentários:

Lázaro Fanfa disse...

ae figura parabéns pelo blog, muito bem escrito comentários bastante consistentes. muito bom.

e pelo que eu ouvi dá pra concordar com a sua afirmação sobre a Lica, a guria manda muito bem. porém como dito comparações injustas podem afundar a carreira dela ao invés de ajudar.

ela tem que seguir seu caminho proprio e tal. no mais isso ae

se possivel entra no meu blog

www.enjambracao.wordpress.com

K.Ferraz disse...

Bom post.Parabéns!

LICA TITO disse...

OI :)
Adorei a Materiaa...

lembro bem daquele dia em gramado
pois foi a 1a. vez q vi neve ao vivo e a cores, nao sei se tu vai lembrar mas no meio do show da Groove James
o Carlinhos apareceu com uma (mini) bola de neve jogando no povo todo ahaha

valeu o carinho BJS

Denardi disse...

Ihh rapaiz...
bo(oo)m mesmo. Som e a voz da moça sempre foram destaque.
Ela deu um passo a frente, com certeza.