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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Kassin em estúdio

Último integrante do +2 a lançar disco com a sua assinatura - Futurismo (2006), Kassin deverá ser o primeiro dos três a apresentar um novo trabalho após a dissolução da banda. Enquanto vai apresentando novas composições em shows - depois de Porto Alegre, ele toca em Recife (Feira Música Brasil, no dia 11) e em São Paulo (Studio SP, no dia 16) -, aproveita para registrá-las em estúdio, conforme revelou no último sábado logo depois de deixar o palco do Cinemathèque, onde tocou com Romulo Fróes.

Duas delas já podem ser ouvidas no Myspace. "Calça de Ginástica" tem uma levada anos 80, quase eletrônica, com vocal em falsete, e o baixo em primeiro plano. "Panda" é instrumental e remete à trilha sonora que o +2 fez para o espetáculo "Imã", do Grupo Corpo, mas talvez fosse mais apropriada ao acompanhamento de um desenho animado japonês, com seus riffs hipnóticos levados em um vibrafone, instrumento central do arranjo. Duas faixas muito diferentes uma da outra que apontam não para um caminho, mas para várias encruzilhadas.

Além de Alberto Continentino, Donatinho e Domenico, que o acompanharam no show de Porto Alegre, têm participado das gravações Mauricio Takara e Marcos Gerez, do Hurtmold, e André Lima, da banda de Mallu Magalhães.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Amanhã, Romulo Fróes se apresenta no Rio com Kassin e Domenico

Daqui a pouco deve começar o primeiro e único ensaio da banda carioca que Romulo Fróes arregimentou para o show de lançamento de seu álbum duplo No Chão sem o Chão, no Rio, amanhã a noite no Cinemathèque. Nele Romulo estará acompanhado de Domenico na bateria, Kassin no baixo e Gabriel Bubu na guitarra.

Em uma breve entrevista por email, ele antecipa algumas coisas sobre a apresentação, fala abertamente sobre as dificuldades de manter uma carreira independente no Brasil dadas as atuais condições, revela uma aproximação com a turma do +2 e o começo de uma já prolífica parceria com Domenico.



Com a palavra, Romulo Fróes.

Pindzim: É quase sempre demorado para os músicos de fora do Rio chegarem à cidade para tocar e até  mesmo bandas locais reclamam por falta de espaço e de convites. Você  tem feito ensaios sobre a música brasileira atual, cujo centro nevralgico certamente se localiza em São Paulo. Nesse contexto, em que posição se encontra o Rio de Janeiro? Estaria a cidade em uma condição periférica dentro desta nova cena, com poucas novidades no que diz respeito a novos músicos e bandas, e um público desinteressado?
Romulo Fróes: Definitivamente não há no Rio de Janeiro falta de novos trabalhos relevantes para a música brasileira, muito pelo contrário, muitas das coisas que mais gosto hoje em dia, são produzidas aí. Agora, não só o Rio, mas a Bahia, Recife, Minas e todos os outros estão passando por um período de imensa dificuldade no negócio de música. O modo como se constituía o mercado acabou e ninguém sabe como será daqui pra frente. São Paulo, mesmo com seus problemas que não são poucos, ainda assim, é o melhor lugar pra se desenvolver um trabalho, o que não significa possibilitar a um artista independente viver de sua música. Sinceramente, eu considero a possibilidade de nunca conseguir viver de música.

Uma consideração sobre a pergunta que originou tal resposta. Quando me refiro a uma certa pasmaceira na cena carioca atual, faço alusão à falta do surgimento de novíssimos nomes. Há uma nova geração já estabelecida: parte dela gira em torno dos integrantes do Los Hermanos e da Orquestra Imperial, que são aqueles que Romulo diz admirar;  do outro lado há os egressos do movimento de revitalização da Lapa, mas depois destes dois movimentos espontâneos quase nada de novo surgiu - o Manacá seria uma das poucas exceções, talvez. Enquanto isso, São Paulo não para de revelar novos nomes ou de atrair músicos de outros estados para lá desenvolverem os seus trabalhos.

Pindzim: Na esteira da pergunta anterior, por que a opção de formar uma banda carioca para tocar aqui, ao invés de trazer os músicos que participaram do disco e costumam acompanhá-lo em seus shows?
Romulo: Porque não há dinheiro, simples assim. Eu não sou uma banda, eu pago os caras que tocam comigo. Pouco, mas pago, e viajar pra outro estado, significa ainda pagar passagens, hospedagem, rango e tudo o mais. Isso tudo sairá do valor da metade da bilheteria arrecadada, que é o que a maioria das casas de show oferecem, por não terem também mais o que oferecer, a coisa está difícil pra todos. Faça as contas e verá o prejuízo na minha conta. 

Pindzim: Numa conversa há tempos atrás, você falou que tocaria no Rio com o pessoal da banda Do Amor, depois falou em Alberto Continentino no baixo, mas eis que agora vem com Domenico e Kassin, a melhor cozinha da cidade. Como essa banda carioca se formou?
Romulo: Partindo pra essa coisa de se montar uma banda local, quando a gente conversou, eu era mais próximo dos caras do Do Amor por conta da minha proximidade com a Nina Becker, com quem já dei algumas canjas. Mas por mais que todos tenhamos admiração um pelo trabalho do outro, as prioridades existem e neste fim de semana haverá show de Caetano Veloso na cidade, o que significa que metade do Do Amor não poderia tocar comigo, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Passado algum tempo me aproximei mais do Domenico, acabamos por fazer um trabalho juntos no Sesc Pompéia, trabalho em que também estava o Bubu. Precisávamos então de um baixista. Pensamos no Alberto Continentino, que acabou não podendo por também tocar nesse dia com a Vanessa da Mata. Daí pintou a chance do Kassin fazer e eu fiquei felizaço, afinal é quase o +2, que eu sou fã, tocando comigo, além do Bubu, que eu acho um dos maiores músicos dessa cena. Contei essa história toda pra mostrar as dificuldades de se manter um trabalho da maneira mais digna possível. 

Pindzim: Há intenção de levar adiante um possível trabalho com esses músicos?
Romulo: Sempre quero me relacionar com quem tenho admiração, esse show é muito por conta disso. Efetivamente, o que já rolou foi uma parceria de composição com o Domenico. Já fizemos três canções juntos e creio que muitas outras ainda virão. Quem sabe a gente não toque alguma neste show no Cinematheque...

Pindzim: Tendo pouco tempo para ensaiar, qual será o repertório do show? Imagino que baseado nas músicas de "No Chão sem o Chão", mas, sendo elas muitas, como foi feita a seleção?
Romulo: Vou fazer rigorasamente o show que costumo fazer com minha banda em São Paulo. Eu seleciono as canções, digamos, mais enérgicas do disco, pra não correr o risco de ser engolido pelo burburinho habitual de um show num boteco, as canções mais tristes e delicadas não funcionam nesse tipo de ambiente.  

Pindzim: Você é um compositor prolífico. Alguma chance de apresentar alguma coisa nova por aqui?
Romulo: Se tiver tempo de ensaiar sim, sempre gosto de mostrar novas canções, é onde mais me divirto. 

Pindzim: Da última vez em que conversamos, você falou sobre as encomendas que vinha recebendo para fazer músicas para algumas cantoras, citou a Thais Gulin, por exemplo. O que vem por aí de Romulo Fróes em outras vozes?
Romulo: Continuo minha constante paquera com todas as cantoras que conheço. De certo mesmo, no próximo ano terá canção minha no disco de estréia da Nina [Becker], um disco lindo que vai dar o que falar.


SERVIÇO
Cinemathéque
Endereço: Rua Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo
Horário: 21h
Ingressos: a partir de R$ 15,00 

sábado, 14 de novembro de 2009

Kassin e o presente pós-Futurismo

Leandro de Nardi, correspondente eventual aqui do blog na capital gaúcha, foi conferir a estreia portoalegrense de Kassin, agora sem o aposto +2. Abaixo, as suas considerações em texto e o registro em imagens.

Kassins
Estreia em Porto Alegre a nova banda de Kassin
por Leandro de Nardi (com edição e colaboração de Pindzim)
Vídeo: Lucieli Galho

Kassin+3 ou seria Kassinx3? A equação matemática pouco importa. Kassin nunca é um só. É múltiplo. Há aquele do Futurismo, o do Game Boy, o produtor e o Alexandre, nome de batismo que poucos conhecem, eterno e legítimo.

O show apresentado em Porto Alegre, no projeto Unimúsica, da UFRGS, deu provas de sua capacidade musical. Numa apresentação consistente apesar de se tratar de uma estreia, com mais de hora de duração, o multi-homem, instrumentista, compositor e produtor promove uma simbiose sonora, não só dos vários Kassins que coabitam dentro de si, mas também dos integrantes de sua nem tão nova, mas sempre competente banda. Domenico contribui com seus ritmos contagiantes; Donatinho evoca a elegância do pai João Donato ao teclado; e Alberto Continentino toca um baixo que só o próprio Kassin poderia tocar, caso não estivesse divertidamente ocupado com a sua guitarra.

O show visita o passado de Futurismo e desenha o futuro em tempo real. Já na abertura, "Azul", em tom celeste intimista, sente-se a densidade rítmica da guitarra de Kassin conduz um passeio pela poesia caótica da zona sul carioca.  



De Futurismo, tocaram "Tranquilo", "Esquecido", "Quando Nara ri", "Simbiótico", "Mensagem" (dedicada ao inseparável parceiro Domênico), "Homem ao Mar", "Pra Lembrar", "Ponto Final", "O Seu Lugar" e"Água", a melhor de todas, que Caetano Veloso pegou emprestada para os shows da turnê do disco Zii e Zie.

Entre suspiros, freqüentes nas novas músicas, talvez decorrentes do prazer provocado pelos novos horizontes e consequente sensação de liberdade, Kassin aparenta estar em seu melhor momento. Compensa sua timidez com uma fina ironia nas manifestações à plateia e nas letras de suas músicas. Misturadas aos acordes da banda e à sutileza de seu timbre vocal por vezes desafinado, são diversão garantida. O deleite musical vem intercalado com gargalhadas do público ligado em suas composições, digamos, inteligentes. Este é o adjetivo que vem à cabeça vendo-o no palco com seus óculos de lentes grossas e sua aparência estranha, próprias antes a um cientista maluco, o que ele não deixa de ser, do que propriamente a um músico.

Em "Lua do Sol", música nova composta com Jon Fell, baixista da banda inglesa The High Llamas, Kassin questiona em forma de verso: “…será que somos um satélite ou uma lua no sol?” A resposta depende do Kassin que há em cada um de nós. Foram incluídas no repertório as antigas "Stricnina" e "O Que Você Quiser", ambas gravadas por Toni Platão no álbum Calígula Freejack (2000). Entre as novíssimas, as bem humoradas "Calça de Ginástica" e "Potássio", em que exalta as propriedades nutritivas de bananas e tomates. Se "Futurismo" tinha um sotaque caribenho, com climas etéreos e sabores tropicais, as novas composições apontam para uma sonoridade oitentista, com bateria e teclados impondo um ritmo mais acelerado, e letras que evocam paisagens urbanas.



Para um publico talvez um pouco surpreso, desacostumado que está às novidades da cena independente que vem de fora (de suas fronteiras regionais) e de dentro (do Brasil grande) - olha que este ano Little Joy, Céu e agora Kassin, fizeram a estréia nacional de seus novos trabalhos na capital gaúcha -, além de um tanto resistente a elas, a cidade até que não está tão mal.

E já que a frase anterior remete a Chico Science, vale continuar com ele: "a cidade não pára, a cidade só cresce" e nós, gaúchos, argüimos que a nova música brasileira só cresce, não dando o menor sinal de parada. Se abrindo aos poucos, Porto Alegre tem o privilégio de acompanhar e ir compreendendo este movimento. Não é difícil de se acostumar ao que é bom.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Kassin estreia trabalho pós +2 em Porto Alegre

Criticada por aqui por ser um lugar resistente à penetração dos nomes mais proeminentes da música brasileira atual, Porto Alegre será a primeira cidade a conhecer o novo trabalho de Kassin após o anunciado fim do +2, coletivo do qual o músico fazia parte ao lado de Moreno Veloso e Domenico Lancelotti. Será no dia 5 de novembro, dentro do projeto Unimúsica, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Tendo cumprido o papal de projetar o trabalho autoral de cada um dos seus integrantes, que se revezaram a frente da banda em cada um dos três álbuns lançados - Máquina de Escrever Música (Moreno+2), Sincerely Hot (Domenico+2) e Futurismo (Kassin+2) -, o +2 se despediu do público em grande estilo, após dez anos de estrada, com o primeiro trabalho assinado coletivamente pelo trio: Imã, trilha sonora instrumental para o espetáculo homônimo do Grupo Corpo. Agora, cada um canta e toca em nome próprio. Como Kassin afirmou quando o entrevistamos para o Pelas Tabelas, eles "não queriam mais ficar presos à coisa de ser uma banda, e até essa ideia [do +2], que era bastante aberta, a gente começou a achar ela um pouco limitadora".

Domenico e Kassin estarão juntos em Porto Alegre
Ao contrário da maioria das bandas, a dissolução do +2 não significa que os seus integrantes não possam mais tocar juntos. A banda formada por Kassin para o show de Porto Alegre conta com formação muito semelhante àquela com que o +2 vinha se apresentando ao vivo desde o lançamento de Futurismo. Kassin canta e toca guitarra, Domenico é o baterista e Alberto Continentino, o baixista. A única diferença é que no lugar de Moreno, que tocava violão e cello, entra Donatinho, no teclado. Os primeiros ensaios acontecem esta semana, no Rio de Janeiro. Músicas de Futurismo estarão no repertório, o resto é novidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

Thalma de Freitas no futuro do pretérito

Em 2007, Thalma de Freitas se uniu a Paulão 7 Cordas em um duo de voz e violão. Fizeram algumas apresentações baseadas em um repertório de sambas antigos cujo tema em comum era a decepção amorosa. Mais do que um show, era um recital. O violão elegante de Paulão era a base perfeita para a cantora dar vazão a todo o seu potencial como intérprete, como falamos aqui à época. Entusiasmada com o resultado, Thalma chegou a dizer que gravaria um disco naquele formato.

A gravação, porém, acabou nunca se concretizando. Thalma foi advertida por Kassin, seu companheiro na Orquestra Imperial, de que trilhando aquele caminho cairia na vala comum das cantoras-intérpretes devotas do samba. Se ela desejava realmente se afirmar como cantora em um cenário onde elas são abundantes, completou ele, deveria desenvolver um trabalho mais autoral e contemporâneo.

Kassin estava certo, ela concluiu, e daí surgiu o Casio Knights. Munida de um teclado, arriscando algumas programações eletrônicas, Thalma foi preparando um novo repertório com composições próprias e outras de seus pares na cena atual. Apresentou-se no exterior e fez alguns shows no Rio e em São Paulo para mostrá-lo ao público. A banda que a acompanhava era formada por Rubinho Jacobina no teclado, Kassin no baixo, Leo Monteiro na bateria e Gustavo Ruiz na guitarra. Um provável disco que resultasse desta combinação soava promissor. Mas também acabou não sendo gravado.

Janeiro de 2009: no Cinemathèque com Kassin, Rubinho Jacobina, Leo Monteiro e Gustavo Ruiz


Na última sexta-feira Thalma fez um show na sala Sidney Miller, no centro do Rio, com uma banda totalmente reformulada. Tinha Felipe Pinaud na guitarra e na flauta, Marco Tommaso no piano e no Rhodes, Alberto Continentino no baixo, Renato Massa na bateria e participações especiais de Marlon Sette no trombone e Altair Martins no trumpete. Na mesma medida em que Mariana Aydar declara que o samba a persegue, como justificativa para não abandonar uma trilha na qual se sente confortável, pode-se dizer que o samba jazz persegue Thalma de Freitas. A espinha dorsal dos arranjos com essa nova formação se assenta no tripé piano, baixo e bateria, assim como no EP lançado em 2004 pelo selo Cardume.

O show começou estranho na noite de sexta, com uma versão jazzística de "Cordeiro de Nanã" em que Thalma parecia sair do tom propositalmente ao fim de cada verso. A má impressão inicial foi apagada logo em seguida por uma sequência de novas e boas canções. Primeiramente, o bolero "Enquanto a Gente Namora", composto em parceria com João Donato; depois, "Santo Mambo", um número de raízes latinas cantado em portunhol; destacaram-se também "Uma Outra Qualquer Por Aí", canção até então inédita que a dupla Romulo Fróes e Clima fez para ela, e especialmente "Onde o Amor Termina", com letra do escritor angolano José Eduardo Agualusa (no vídeo acima em show no Cinemathèque, em janeiro deste ano). Esta, aliás, com sua poesia circular e sua bela melodia, evoca a melhor canção do EP, "Tranquilo", de autoria do anteriormente citado Kassin, e já se credencia à condição de clássico do futuro trabalho da cantora.

Outubro de 2009: apresenta canção inédita de Romulo Fróes na Sala Funarte

Paradoxalmente, os melhores momentos do show são fruto da tensão anacrônica que se cria entre os arranjos passadistas e as composições recentes, nada reverentes à tradição do samba jazz. O problema é que somente as músicas novas não são suficientes para compor o roteiro de uma apresentação de mais de uma hora. Assim, a parte final do show concentra-se em velhos standards do cancioneiro nacional, como "Dindi", por exemplo e aí o anacronismo constitui-se como algo negativo, pois Thalma se arrisca em canções que já mereceram melhores registros.

Durante o show, Thalma revelou que anda gravando algumas coisas com a banda que agora a acompanha. Ao que ela se referiu como uma demo deve resultar em um futuro álbum, a ser lançado no ano que vem, misturando suas personalidades de intérprete e compositora. As expectativas são as melhores, desde que ela tenha em mente as sábias palavras de Kassin. A participação de Jam da Silva - o mais moderno dos atuais compositores brasileiros - em cinco faixas já gravadas é um forte indício de que o samba jazz não será o limite.