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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O carnaval de Lucas Santtana e do Baiana System

Encontrei Lucas Santtana depois do show da Céu no Circo Voador, sábado retrasado, e ele contou que vai comandar um trio elétrico no carnaval de Salvador. Ontem, no Twitter, ele liberou uma música que antecipa o clima da folia. Com batida eletrônica acelerada, solos que emulam a guitarra baiana de Dodô e Osmar e letra que exalta os foliões, "Carnaval quem é que faz?" é uma composição do Lucas que está no primeiro disco do Baiana System. Trata-se do novo projeto de Roberto Barreto - guitarrista do Lampirônicos - cuja proposta é "divulgar e explorar novas possibilidades sonoras da guitarra baiana".

Sem formato definido, ao vivo a banda pode assumir formações variadas. "A idéia principal é que a guitarra baiana interaja num formato de live P.A. com um DJ que assuma as bases sampleadas e/ou tocadas, fazendo inserções de sons e efeitos com liberdade de improvisos. Utilizando-se de recursos como camadas, efeitos e loops, numa concepção que também se inspira na liberdade e psicodelia do Dub".

Tal configuração faz uma ponte entre o carnaval baiano e os sistemas de som jamaicanos. "Pensar o principal meio de divulgação e consolidação da Guitarra Baiana (o trio elétrico) como um tipo especial de Sound System (divulgador do Dub), permite uma nova forma de utilizá-la, explorando mais suas possibilidades de timbragem e a interação com a produção das bases rítmicas, onde a linguagem e a filosofia das “colagens”, do re – criar a partir do existente, se tornam o desafio do Baiana System."



Antes do carnaval, Lucas se apresenta em São Paulo, no Studio SP. É sábado que vem, 30 de janeiro.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Os 10 Melhores Discos de 2009

1. Vagarosa - Céu

Ritmo e melodia em perfeita harmonia com uma lírica inspirada pela beleza presente nas coisas simples e corriqueiras. Quando o futuro se faz presente incorporando também o passado, a música brasileira de domínio público encontra o século 21.

A todo volume: Bubuia / Cordão da Insônia / Cangote / Comadi

2. Violas de Bronze - Siba e Roberto Corrêa

A tradição da cantoria, reprocessada por Siba, encontra-se e funde-se com as modas de viola peculiares de Roberto Corrêa. Juntos, munidos de violas e rabeca, os dois passeiam por veredas nunca antes exploradas.

A todo volume: Casa de Reza / Nos Gerais

3. São Mateus não é um Lugar Tão Longe Assim - Rodrigo Campos

Nos fim de uma década marcada pela onipresença do samba, na qual os pastiches prevaleceram sobre a originialidade, um paulista surgiu para realmente trazer um sopro de novidade ao mais carioca de todos os gêneros. Suas crônicas da vida na periferia, de lírica pesada e acabamento delicado, soam como se os Racionais se encontrassem com Paulinho da Viola para levar um som.

A todo volume: California Azul / Mangue e Fogo

4. Uhuuu! - Cidadão Instigado

Cada vez mais, Catatau coloca a sua poesia a serviço de uma musicalidade que vai muito além de tentativas de categorização pré-existentes. Nesse disco, as neuroses do cidadão extrapolam questões regionais e locais para ilustrar a paranoia universal.

A todo volume: Homem Velho / Deus é uma Viagem

5. Imã - +2

Nesta trilha para o balé do grupo Corpo, o trio dilui as identidades que se impunham nos três discos anteriores e alcançam a síntese de sua musicalidade e vão além de qualquer fronteira definível.

A todo volume: Sol a Pino / Você Reclama

6. No Chão sem o Chão - Romulo Fróes

Retrato nu e cru de um artista em crise de identidade expondo todas as suas qualidades e os seus defeitos, sem pudores.

A todo volume: O Que Todo Mundo Quer/Ninguém Liga / Caia na Risada

7. Sweet Jardim - Tiê

A melancolia da chanson francesa encontra tradução na língua portuguesa, deixando-se contaminar pelas sutilezas da música brasileira, passando ao largo de suas referências mais óbvias.

A todo volume: Chá Verde / Passarinho

8. Dois Cordões - Alessandra Leão

Três guitarras trançando a rede harmônica sobre a qual Alessandra faz ecoar suas melodias balouçantes com sua voz ao mesmo tempo potente e acolhedora.

A todo volume: Boa Hora / Trancelim

9. Sem Nostalgia - Lucas Santtana

Em termos semânticos, "Sem Nostalgia" é equivalente a "Chega de Saudade". Lucas Santtana fez o Chega de Saudade da geração nascida na primeira década do século 21. O formato voz e violão nunca mais será o mesmo. Ao menos pelos próximos 40 anos.

A todo volume: Cira, Regina e Nana / Cá pra Nós

10. Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos - Otto

Uma alma atormentada faz a trilha solora de um grande amor despedaçado na era das celebridades instantâneas e do fim da privacidade.

A todo volume: Crua / O Leite

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lucas Santtana e o título ganho por antecipação

Lucas Santtana subiu no palco do Vale Open Air ontem a noite com o jogo ganho, assim como o seu Flamengo entrará no Maracanã, domingo, para decidir o Campeonato Brasileiro com a taça já guardada no armário. Eram - e serão - favas contadas. Talvez, justamente por tocar diante de um público atento e devotado, que estava ali para ouvi-lo com atenção e muitas expectativas no primeiro show carioca desde o lançamento de Sem Nostalgia, começou tímido. Cantou os primeiros versos de "Cira, Regina e Nana" (no vídeo abaixo) quase escondido, em um canto do palco, e aquela que é uma das melhores músicas do novo disco, escolha certeira para abrir a apresentação em alta voltagem, não cumpriu com todas as promessas contidas naquele princípio de madrugada.



Sua banda, a Seleção Natural, tal qual o Football Portoalegrense no próximo domingo, ostentava o nome de sempre, mas seus integrantes eram completamente diferentes daqueles que o tem acompanhado desde a estreia em São Paulo. Não que se tratassem de meros suplentes. Guitarra, baixo e bateria ficaram a cargo, respectivamente, de Benjão, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, todos do Do Amor, os dois últimos também da banda Cê de Caetano Veloso. Provavelmente por este motivo, foi só a partir da terceira música que Lucas e a banda mostraram perfeito entrosamento e então o show engrenou.

As novas "Amor em Jacumã", "Who Can Say Which Way", "Night Time in the Backyard" e especialmente a instrumental "Recado pro Pio Lobato", em que Lucas assumiu o baixo, foram os pontos altos do show. Se por um lado, ao vivo os arranjos das canções de Sem Nostalgia se renovam com as novas leituras instrumentais para além da proposta de voz e violão do registro em estúdio, também ficam claras as limitações da voz de Lucas. Suas interpretações vocais são melhores em disco.

O público se divertia, mas sem grandes arroubos, diferentemente da torcida rubro-negra no Maracanã. Lucas queria mais. Puxou cânticos de arquibancada, como aquele novíssimo, copiado da torcida do Internacional, inspirado em "Brasília Amarela", dos Mamonas Assassinas, tentando inflamar a galera. Mas as pessoas queriam mesmo suas músicas e guardavam qualquer manifestação mais eloquente para o intervalo entre elas. Às vezes os titulares não fazem falta nenhuma e é aí que mora o perigo para o Flamengo. Depois de ontem, intimamente, Lucas já pode vibrar: entrou no palco já consagrado e saiu dele como campeão. Diante da música, o futebol tem quase nenhuma importância.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Lucas Santtana apresenta Sem Nostalgia no Rio em dezembro

A aguardada primeira apresentação de Lucas Santtana com o show Sem Nostalgia no Rio está confirmada. Será no dia 1º de dezembro, dentro da programação do agora Vale Open Air, evento que mistura festas, música e cinema no Jockey Club da gávea . Se o disco é um dos melhores do ano, o show também promete (a julgar pelo que já se pode ver no Youtube). A transposição do formato voz, violão, sinfonia de insetos, mashups e efeitos para o palco, com banda completa - e que banda -, transfigurou o belo repertório do disco. As mesmas músicas soam como se fossem outras, reciclando o prazer da descoberta que se tem ao ouvir as gravações de estúdio, e ainda são sensorialmente potencializadas pelas luzes psicodélicas de Moisés Vasconcelos, como pode ser visto na foto abaixo, de Ana Muniz.



Fica-se, agora, na boa expectativa pela divulgação dos outros convidados. As escalações do Open Air costumam reservar boas novidades da cena contemporânea que não costumam subir aos palcos da cidade com frequência.

domingo, 9 de agosto de 2009

Otto entre o físico e o virtual - o dilema de uma geração

É cada vez mais comum que discos de artistas brasileiros sejam lançados no exterior antes de saírem aqui. Não faz grande diferença, pois, praticamente ao mesmo tempo, acabam chegando via mp3, muitas vezes disponiblizados pelos próprios músicos, e só depois são lançados em seu formato físico, sem prejuízo, mas também sem lucro.

Assim será com Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos, quarto disco de Otto. Com lançamento previsto para 1º de setembro, nos Estados Unidos, pelo selo Nublu, ainda não há distribuição garantida por aqui. Conforme contou em conversa na palteia do show do Los Sebozos Postizos na última sexta, no Rio, o disco deverá ser lançado no Brasil pela Rob Digital. Como o acordo ainda não está fechado, a data é incerta. Em previsão otimista, acredita que saia em outubro.

Ano passado, com o disco finalizado, mas sem a estrutura de uma gravadora ou de um selo de distribuição por trás, Otto chegou a anunciar que utilizaria uma plataforma digital para distribuí-lo. Acabou desistindo, em parte por falta de uma alternativa eficaz, capaz de alavancar sua divulgação, mas também por ter surgido a proposta da Nublu. O cd é o última ponta de toda uma cadeia que se desmanchou e da qual alguns nem chegaram a fazer parte, mas ainda faz sentido para a geração atual, que, com lançamentos sensacionais, vem fazendo de 2009 um ano histórico para a música brasileira (assunto para ser tratado a fundo em outro texto).

Otto em apresentação no Studio SP no ano passado adiantando uma canção do novo disco


Poucos conseguem explicar esse paradoxo: por que ainda há a necessidade do lançamento físico do cd? A resposta deve vir das demandas do público, essa entidade híbrida e cada vez mais abstrata. Lucas Santtana acaba de lançar Sem Nostalgia em duas frentes. Primeiramente, disponibizou o cd completo para download, com capa, encarte e boa qualidade sonora (320 kbps), que agora chega às lojas.

Lucas já assinou o atestado de óbito do cd, falta apenas preencher a data. E vai além: não é apenas a mídia que está migrando do formato físico para o virtual. Mas também o público. A lógica é a seguinte. Se a música pode estar acessível em qualquer lugar, através de um computador e um mp3 player, parte do público de um artista é também "imaterial". Existem fãs que jamais comprarão o cd ou irão a um show, seja por falta de interesse ou impossibilidade, embora possam ter a obra completa, faixas remixadas, participações especiais em discos de outros músicos, tudo organizado em arquivos digitais de som e imagem no próprio computador ou ao alcance de um clique em sites e blogs na internet. Paradoxalmente, esses mesmos fãs imateriais podem estar mais próximos dos músicos que admiram, fazendo contato via Myspace, blogs, sites oficiais, etc, do que aqueles que vão até o camarim depois do show para uma foto e um autógrafo. São eles que vêm aí.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pelas Tabelas em sessão nostalgia: Lucas Santtana e Rubinho Jacobina


Coincidentemente, pela segunda semana consecutiva, um dos retratados da edição semanal do Pelas Tabelas está com disco novo circulando na rede. Na segunda-feira da semana passada Vagarosa, de CéU, apareceu em blogs diversos. Nesta segunda foi a vez de Sem Nostalgia, de Lucas Santtana, iberado pelo próprio autorl antes do lançamento da versão física.

Trata-se de um disco de voz e violão, formação clássica da música brasileira, que um pouco por questões práticas, mas também por uma opção estética - a saber: apresentar as composições em sua essência básica - está presente na maior parte dos programas da série.

Primeiro compositor com quem gravamos, Lucas chegou ao alto do Parque da Catacumba, na Lagoa, apenas com o seu violão acústico, sem apetrechos eletrônicos. Falou sobre a sua relação com a música e interpretou algumas canções em versão minimalista, sobre as quais as únicas intervenções exteriores foram os ruídos urbanos. Apesar do cenário bucólico, uma britadeira foi uma interferência constante que não chegou a prejudicar a captação de som. Quando uma buzina intrusa fez-se ouvir durante a execução de "De Coletivo ou de Metrô", respeitou o tom da canção e como se fizesse parte do arranjo.

Nada, entretanto, nada que aproximasse as músicas da sonoridade que Lucas cria em estúdio. No que tange aos números musicais, essa limitação é do maior interesse, bastante diferente mesmo do disco recém-lançado. Com a colaboração de nomes como Curumin, Gustavo Lenza, Buguinha e o Do Amor, entre outors, Lucas extrai do violão sons de guitarra, baixo e bateria.

Baiano herdeiro do Tropicalismo, que tocou flauta nas sessões de gravação de Tropicália 2, de Gil e Caetano, sobrinho de Tom Zé, Lucas retrocede a um tempo anterior ao movimento. Sem Nostalgia é um disco futurista. Denota ousadia em uma época pautada por imediatismos cujos horizontes se limitam à dimensão plana das telas de plasma para as quais os olhos apontam e um ou dois cliques podem alcançar. Mexe com o mestre inspirador João Gilberto em "Super Violão Mashup", revisita a lírica do exílio londrino em parcerias com span style="font-style:italic;">Sem NostalgiaArto Lindsay e com Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes, integrantes da banda Cê de Caetano, vai além do rock que o velho ícone agora redescobre.

Pleno de nostalgia foi o reencontro entre Lucas e Rubinho Jacobina na praia do Forte de São João, na Urca. Amigos de longa data, dos tempos de adolescência, os dois há muito tempo estavam distantes, embora tenham tocado juntos na formação original da Força Bruta, a banda de Rubinho, na virada do século. É desta época a única parceria que compuseram juntos - "Hora de Cuidar".

Musicalmente, tem estilos bastante diferentes. Rubinho é um cancionista, a harmonização de letra e melodia é a sua matéria básica. Lucas é um arquiteto do som, cria estruturas sonoras sobre as quais busca expandir os limites da canção. Do reencontro, porém, podem vir a nascer outras duas parcerias inspiradas uma em João Donato e a outra em Batatinha. O encerramento do programa deixa o futuro em aberto.