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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Entrevista às avessas com Thalma de Freitas

Um dia depois de publicar a postagem logo aqui abaixo, fui surpreendido por um email bastante carinhoso da própria Thalma de Freitas comentando os textos que escrevi sobre ela aqui no blog. Começava dizendo, "tenho uma uma canção inacabada que se chama  "Futuro do Pretérito", hehehe, sempre vejo coinscidências como algo auspicioso". O título da postagem era Thalma de Freitas no futuro do pretérito.

Em seguida, esclareceu e completou algumas informações colocadas no texto a respeito do momento atual da sua carreira como cantora e compositora e de seus planos para o futuro. "A saber, meus outros projetos musicais não foram engavetados, tanto Casio Knights quanto o Voz e 7Cordas deverão ser gravados na sequência deste A Filha do Maestro", explicou. "Não faço idéia de como ou quando esses albuns serão lançados, minha relação com música continua sendo independente e livre."  

Na continuação do email, Thalma questionou algumas das minhas colocações sobre a apresentação na Sala Funarte. Foi interessante, pois permitiu-me fazer uma releitura crítica a respeito daquilo que escrevi na manhã seguinte ao show. Por exemplo, notei o quão injusto e fora de propósito fora compará-la com Mariana Aydar em suas relações com o samba (Mariana) e o samba jazz (Thalma). "A propósito, o samba jazz não me persegue, ele é a minha praia", afirmou a filha do maestro Laércio de Freitas, nome fundamental para a conformação do gênero. Thalma cresceu neste ambiente e o próprio EP, que ela considera de fato a sua estreia fonográfica, tinha seus arranjos construídos da combinação de voz, piano, baixo e bateria. Reafirmando essa ligação, ela citou a canção instrumental "JT", que compôs em homenagem ao falecido J.T. Meirelles e foi apresentada na Sala Funarte.

Pediu também que eu fosse mais claro a respeito da seguinte colocação: "Paradoxalmente, os melhores momentos do show são fruto da tensão anacrônica que se cria entre os arranjos passadistas e as composições recentes, nada reverentes à tradição do samba jazz". Ao respondê-la, tentei ser mais claro e coloquei da seguinte forma: "o paradoxo, ao meu ver, é o seguinte: você pega canções novas, recentes, como as de sua autoria e a do Romulo [Fróes], por exemplo, e as arranja com piano, baixo e bateria, mas não se trata de  uma renovação do samba jazz. Já não é mais algo facilmente rotulável, é uma coisa diferente", expliquei. "Do anacronismo entre o samba jazz e estas músicas novíssimas, desvinculadas de quaisquer tradições, surge o futuro do pretérito ou o pretérito do futuro, quando duas pontas aparentemente distantes se aproximam pra criar uma coisa diferente".

Thalma justificou também a inclusão de músicas antigas no roteiro do show, opção que mereceu críticas da minha parte. "Não tem problema nenhum não ter canção inéditas o suficiente pra preencher uma hora e vinte de show, ainda mais no caso de uma compositora em início de carreira, que declaradamente está no meio de um processo artístico. E eu avisei na hora que "Dindi" não estava no roteiro, a gente só tocou porque o show estava acabando e eu estava adorando aquele palco, queria ficar mais um pouco...é óbvio que eu não vou grava-la, mas posso cantar quando quiser, né?! O único risco que corro é de ser mal compreendida, mas isso não é grave", ela escreveu.

Realmente, não é grave, mas neste ponto discordei, embora tenha sido um pouco rigoroso, pois além de "Dindi", houve uma boa versão de "É Mentira, Oi", de Ary Barroso. "Não tenho nada contra haver músicas antigas no show. Mas, sinceramente, acho que esses super-clássicos, quando interpretados e arranjados de forma semelhante às gravações originais, agradam àquela parcela do público mais conservadora (a maioria, talvez), mas pouco acrescentam ao artista. Por outro lado, "Batuque", do Bebeto Castilho, que vc cantava no show do EP, é sensacional, por ser uma pérola que vc desencavou do baú. Eu mesmo não conhecia antes de ouvi-la na sua voz", retruquei.

Antes de se despedir, Thalma ainda explicou a estranha interpretação de "Cordeiro de Nanã". "Ficou péssimo mesmo, eu tava tomando uma surra daquele in-ear, desconcentrei, foi mal, desculpe!" Não tem nada que se desculpar, Thalma, eu é que tenho que agradecer a atenção dispensada. Estes canais alternativos servem pra isso mesmo, desenvolver reflexões acerca deste momento especial pelo qual atravessa a música brasileira. Melhor ainda quando o artista se dispõem ao diálogo franco e aberto. A propósito, a postagem original e a íntegra dos emails trocados entre nós está em A Filha do Maestro, o blog da Thalma.

sábado, 17 de outubro de 2009

Thalma de Freitas no futuro do pretérito

Em 2007, Thalma de Freitas se uniu a Paulão 7 Cordas em um duo de voz e violão. Fizeram algumas apresentações baseadas em um repertório de sambas antigos cujo tema em comum era a decepção amorosa. Mais do que um show, era um recital. O violão elegante de Paulão era a base perfeita para a cantora dar vazão a todo o seu potencial como intérprete, como falamos aqui à época. Entusiasmada com o resultado, Thalma chegou a dizer que gravaria um disco naquele formato.

A gravação, porém, acabou nunca se concretizando. Thalma foi advertida por Kassin, seu companheiro na Orquestra Imperial, de que trilhando aquele caminho cairia na vala comum das cantoras-intérpretes devotas do samba. Se ela desejava realmente se afirmar como cantora em um cenário onde elas são abundantes, completou ele, deveria desenvolver um trabalho mais autoral e contemporâneo.

Kassin estava certo, ela concluiu, e daí surgiu o Casio Knights. Munida de um teclado, arriscando algumas programações eletrônicas, Thalma foi preparando um novo repertório com composições próprias e outras de seus pares na cena atual. Apresentou-se no exterior e fez alguns shows no Rio e em São Paulo para mostrá-lo ao público. A banda que a acompanhava era formada por Rubinho Jacobina no teclado, Kassin no baixo, Leo Monteiro na bateria e Gustavo Ruiz na guitarra. Um provável disco que resultasse desta combinação soava promissor. Mas também acabou não sendo gravado.

Janeiro de 2009: no Cinemathèque com Kassin, Rubinho Jacobina, Leo Monteiro e Gustavo Ruiz


Na última sexta-feira Thalma fez um show na sala Sidney Miller, no centro do Rio, com uma banda totalmente reformulada. Tinha Felipe Pinaud na guitarra e na flauta, Marco Tommaso no piano e no Rhodes, Alberto Continentino no baixo, Renato Massa na bateria e participações especiais de Marlon Sette no trombone e Altair Martins no trumpete. Na mesma medida em que Mariana Aydar declara que o samba a persegue, como justificativa para não abandonar uma trilha na qual se sente confortável, pode-se dizer que o samba jazz persegue Thalma de Freitas. A espinha dorsal dos arranjos com essa nova formação se assenta no tripé piano, baixo e bateria, assim como no EP lançado em 2004 pelo selo Cardume.

O show começou estranho na noite de sexta, com uma versão jazzística de "Cordeiro de Nanã" em que Thalma parecia sair do tom propositalmente ao fim de cada verso. A má impressão inicial foi apagada logo em seguida por uma sequência de novas e boas canções. Primeiramente, o bolero "Enquanto a Gente Namora", composto em parceria com João Donato; depois, "Santo Mambo", um número de raízes latinas cantado em portunhol; destacaram-se também "Uma Outra Qualquer Por Aí", canção até então inédita que a dupla Romulo Fróes e Clima fez para ela, e especialmente "Onde o Amor Termina", com letra do escritor angolano José Eduardo Agualusa (no vídeo acima em show no Cinemathèque, em janeiro deste ano). Esta, aliás, com sua poesia circular e sua bela melodia, evoca a melhor canção do EP, "Tranquilo", de autoria do anteriormente citado Kassin, e já se credencia à condição de clássico do futuro trabalho da cantora.

Outubro de 2009: apresenta canção inédita de Romulo Fróes na Sala Funarte

Paradoxalmente, os melhores momentos do show são fruto da tensão anacrônica que se cria entre os arranjos passadistas e as composições recentes, nada reverentes à tradição do samba jazz. O problema é que somente as músicas novas não são suficientes para compor o roteiro de uma apresentação de mais de uma hora. Assim, a parte final do show concentra-se em velhos standards do cancioneiro nacional, como "Dindi", por exemplo e aí o anacronismo constitui-se como algo negativo, pois Thalma se arrisca em canções que já mereceram melhores registros.

Durante o show, Thalma revelou que anda gravando algumas coisas com a banda que agora a acompanha. Ao que ela se referiu como uma demo deve resultar em um futuro álbum, a ser lançado no ano que vem, misturando suas personalidades de intérprete e compositora. As expectativas são as melhores, desde que ela tenha em mente as sábias palavras de Kassin. A participação de Jam da Silva - o mais moderno dos atuais compositores brasileiros - em cinco faixas já gravadas é um forte indício de que o samba jazz não será o limite.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Humaitá pra Peixe 2009 começa com 3namassa

Pode não ter sido o melhor dos começos, mas a sala Baden Powell lotada para o show do 3namassa, que deu a partida à 15ª edição do Humaitá pra Peixe, não deixou dúvida de que a escalação do projeto de Dengue, Pupillo, Rica Amabis e suas musas foi um acerto da seleção.

Até então o 3namassa tinha se apresentado uma única vez no Rio, em agosto, na Embaixada Pernambuco em um local que não era exatamente apropriado, especialmente no que dizia respeito à acústica. Pois na Baden Powell, o som esteve à altura. Já as musas mantiveram-se inconstantes, como na apresentação anterior.

Duas não haviam participado do show de 2008: Thalma de Freitas e Geanine Marques. Apesar do fator novidade, nenhuma teve voz e atitude no palco que se igualassem às da então ausente Marina de la Riva. Se não tinha participado do disco Na Confraria das Sedutoras, um suposto erro na escalação foi contornado com o convite para que se apresentasse ao vivo com o trio mais o guitarrista Junior Boca. A cantora de origens mezzo brasileira mezzo cubana parece talhada para o papel, como comprova sua interpretação de "O Seu Lugar" no CD/DVD MTV Sintonizando Recife.

E foi justamente com "O Seu Lugar" na voz de
Thalma de Freitas, intéprete original da canção, que começou apresentação da última sexta. Depois veio "Doce Guia", cujos vocais cabem a Céu no disco e que até então coubera a Marina nos shows. A última foi "O Objeto", antes de Nina Becker, fosse ao vivo ou em estúdio.

Thalma buscou uma postura sensual para adicionar aos arranjos libidinosos. O problema era sua voz, cuja emissão transmitia uma frieza capaz de resfriar o calor do verão carioca. Veio então Geanine Marques e da loira de postura fria e movimentos comedidos, a voz soou quente, impositiva, dando credibilidade ao verso "estrago eu sei que causei", de "Estrondo". Engatou direto "Lágrimas Pretas", talvez sem a mesma desenvoltura de Pitty, mas ainda assim com personalidade. Foi pena que tenha se limitado a esses dois números.

3namassa e Geanine Marques - Lágrimas Pretas


Em seguida foi a vez de Lourdes da Luz. Rimando os versos de "Sem Folêgo", de sua autoria - ela foi a única mulher a assinar a letra de uma música de Na Confraria das Sedutoras - a noite continuou num crescendo. "Certa Noite" ficou bem com suas voz e postura agressivas.

Karine Carvalho entrou no palco tendo um grande desafio pela frente. Manter o pique de um show até então menos intenso do que o prometido. Ter escolhido "Quente como o Asfalto", certamente uma das músicas mais fracas do disco, não a ajudou. Depois, quando cantou "Morada Boa", todos já aguardavam ansiosamente por "Tatuí", possivelmente o hit de Na Confraria das Sedutoras, cuja letra é de Rodrigo Amarante. É a única canção em que sua voz soa adequada à letra e ao arranjo, mas nem a melodia sinuosamente safada da canção foi suficiente para reacender um público que em momento algum chegara a entrar em combustão.

Prova disso foi que a banda se retirou e os pedidos pelo bis foram poucos e desanimados. Mas eles e elas voltaram. No rearranjo final, formaram-se duplas de cantoras. Ao lado da tímida Karine, Thalma soltou a voz e deixou no ar aquilo que é, mas eventualmente, na noite de sexta, não foi; Geanine deixou-se levar pela intensidade de Lourdes num dueto de igual para igual.

Foi bom, mas poderia ter sido melhor, talvez, se ao invés do 3namassa, a abertura do Humaitá pra Peixe 2009 tivesse ficado a cargo dos Sonantes - banda derivada do 3namassa. Com a diferença de ter única e exclusivamente Céu nos vocais.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Clipe - Enladeirada - Thalma e 3naMassa

Enquanto experimenta sua nova fase solo, nomeada Casio Knights, cujas canções foram, em sua maioria, compostas durante suas "férias criativas", Thalma de Freitas lança o clipe de "Enladeirada". A música, que está em Na Confraria das Sedutoras, ganhou um clipe no espírito do disco do 3naMassa. A idéia é bem simples. Nua e transpirando lascívia, Thalma canta os versos insinuantes da letra de Jorge du Peixe dentro de uma piscina. O excelente trabalho de pós-produção resulta em imagens que têm ao mesmo tempo uma estética vintage, pela fotografia em tons pastéis, e moderninha, pelos efeitos de imagem com muitas sobreposições. E assim, a idéia de ir criando um correspondente audiovisual para cada faixa vai se cumprindo.


3 Na Massa - Enladeirada from Nublu on Vimeo.

sábado, 25 de outubro de 2008

Crônicas de um festival anunciado

Os anos passam, as edições se sucedem e a produção do Tim Festival segue incorrendo em erros recorrentes. Filas intermináveis para comprar bebida e comida, palco ao ar livre, que no ano passado inviabilizou a apresentação de bandas do circuito alternativo, e o principal e mais grave: tendas com acústica mediana e que não barram a propagação do som. Resultado, ontem, Carla Bley subiu ao palco da tenda de jazz sob a vibração dos graves exorbitantes de Kayne West.

O rapper americano conseguiu lotar o palco principal da edição carioca do Tim 2008. Em sua apresentação, West é a estrela solitária rimando sobre bases pré-gravadas a frente de um cenário inspirado em um futuro de penúria. Incandescente, seco e monótono. Em frente ao palco, fãs animados dançavam e gravavam o show com suas câmeras e celulares. À medida que se caminhava para o fundo da tenda, predominava a badalação.

Na outra tenda, o The National começou sua apresentação para muito pouca gente que de fato conhecia a banda. A iluminação, clara demais, tornava o clima ainda mais impessoal e frio. O som embolado não contribuía para criar empatia com o público. Não agradou.

Esperanza Spalding abriu a segunda noite do festival e fez uma apresentação que agradou bastante aos presentes. Pindzim não viu o show, mas a julgar pelos comentários e pelos vídeos gravados, a cantora e baixista americana justificou as expectativas com seu jazz enquadrado em canções pop, com cirações à música brasileira - reforçadas no show pela participação especial do guitarrista e violonista Chico Pinheiro.

No encerramento da festa, o Instituto e convidados reuniu uma multidão no palco ao ar livre e botou a galera para dançar ao som do Tim Maia, fase racional. Faziam parte do timaço Fernando Catatau e Junior Boca nas guitarras, Pupilo na bateria, Thalma de Freitas e Carlos Daffé nos vocais. O rapper Kamau improvisando rimas sobre as bases do mestre mostrou a todos que quiseram ver que a música brasileira está alguns pontos acima da de estrelas importadas cheias de marra, como West, impostas de cima para baixo por uma indústria agonizante em seus últimos e derradeiros suspiros.

Pindzim não assistiu ao MGMT, mas, pelo menos no Rio, o Tim ganharia mais se investisse em mais atrações nacionais e preços de ingresso mais baixos. Vamos esperar para ver o palco 100% nacional hoje, mas é quase certo que a animação seria muito maior. Ah, e o jazz deveria ser um festival a parte. A maior parte do público não está interessada nas atrações pop. E ainda evitaria o duplo desrespeito, ao público e aos próprios artistas prejudicados pela precária infra-estrutura sonora.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

3naMassa ganha o mundo

Com o disco Na Confraria das Sedutoras lançado no exterior pelo selo Nublu Records, o 3naMassa inicia sua carreira nos palcos em shows na França, no Canadá e nos Estados Unidos. Nada ainda foi divulgado sobre a configuração da banda no palco, uma vez que o disco traz uma cantora diferente em cada faixa. De acordo com a edição de maio da Rolling Stone brasileira , existe a possibilidade de que Thalma de Freitas assuma os vocais nas apresentações ao vivo do grupo.

Veja abaixo um vídeo produzido para apresentar o disco aos gringos. Se não apresenta grandes novidades, vale por trazer o núcleo musical do 3naMassa e algumas de suas musas falando sobre o projeto.



Agenda de shows confirmados:
21 jun 2008 20:00 3 Na Massa @ Les Invites de Villeurbanne - Lyon (França)
25 jun 2008 20:00 3 Na Massa @ Nublu 6th Anniversary - NYC, New York (Eua)
27 jun 2008 20:00 3 Na Massa @ Joe’s Pub - NYC, New York (Eua)
29 jun 2008 20:00 3 Na Massa @ Montreal Jazz Festival Montreal (Canadá)
30 jun 2008 20:00 3 Na Massa @ Montreal Jazz Festival Montreal (Canadá)

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Temporada paulistana 4 - conhecendo o Studio SP

Lotação máxima no Studio SP
Cansado pelas peregrinações culturais na capital paulista, Pindzim foi conhecer o Studio Sp em uma noite especial. Na sessão Cedo e Sentado, show de Thalma de Freitas e Nina Becker com o piano magnífico do maestro Laércio de Freitas. Em seguida, Kassin+2 no palco principal. Após um filé na mostarda no São Cristovão, cheguei atrasado e me posicionei ao lado do palco onde Thalma, Nina e o maestro divertiam-se desfiando clássicos antigos entre taças de vinho. A apresentação já se encontrava na parte final. Esgotado o repertório pré-definido, as músicas eram escolhidas na hora, entre um gole e outro. Ainda deu para apreciar algumas canções na voz aveludada de Nina Becker, cantando sentada, olhos fechados, sobre as ondulações do teclado do sorridente maestro. Antes do fim, só pra contrariar, Thalma de Freitas puxou uma música de Chico Buarque. (Em uma entrevista à Folha de São Paulo na véspera, Nina havia declarado não entender como novas cantoras gravam músicas de Chico Buarque que já foram gravadas tantas vezes.) Realmente, não é a praia dela. Enrolou-se com a letra e precisou do auxílio de Hélio Flanders, do incensado Vanguart, a soprar-lhe os versos ao pé do ouvido, sob gargalhadas da platéia. Dessa forma bem humorada encerrou-se a apresentação. Ao descer do palco, o Maestro Laércio de Freitas comentou sobre as propriedades do vinho sobre a música.

Até o começo do show de Kassin+2 no andar de baixo, mais de uma hora se passou e o espaço diante do palco extrapolou sua capacidade máxima. Quando as primeiras notas de "O seu lugar" anunciaram o início do show, parecia estar faltando um integrante da banda. Moreno Veloso se fazia invisível, sentado com o seu violão. Apesar do som impecável, estava difícil curtir o show devido à lotação da pista naquela sexta-feira. Ainda resisti a "Quando Nara ri", mas depois preferi ir embora, dando por encerrada a breve temporada paulistana. Apesar disso, ficou-me a melhor impressão possível do Studio SP. Afinal, não há no Brasil uma casa de shows em que se possa assistir no espaço de um mês aos melhores nomes da música brasileira independente: Dona Zica (30/08), Cidadão Instigado (01/09), Charme Chulo (04/09), Katia B (06/09), Vanguart (18/09), Thalma de Freitas e convidados (22/09), Turbo Trio (28/09) e Z'África Brasil (29/09). Fica a certeza de que em breve estarei de volta.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Temporada paulistana 2 - ao som da Orquestra Imperial

Os Cariocas em São Paulo
Seguiu-se o melhor do Rio de Janeiro em São Paulo ao som da Orquestra Imperial. Aí o interesse residiu exatamente no contraste entre as apresentações do coletivo carioca em casa e na fria capital paulista. Poucos foram aqueles que se arriscaram num bailado. Num primeiro momento devido à lotação da casa, rendida ao poder de sedução das musas Thalma de Freitas e Nina Becker. Depois, talvez, pela falta de costume. O som impecável, como nem sempre acontece no Circo Voador, onde os microfones de Rodrigo Amarante e Moreno Veloso insistem em se manter abaixo do aceitável, fez com que o show sobrepujasse o baile. Olhos e ouvidos atentos no palco, o que se conclui a partir do repertório de "Carnaval só ano que vem" é que Thalma de Freitas é o grande destaque do time de crooners. Transitando entre a melancolia contida do samba "Não foi em vão", de sua autoria, e da fossa francesa em "Rue de mes souvenirs", e a euforia controlada de "Tranquilo" e a agressividade de "Onde anda o meu amor" ela demonstra um domínio vocal e cênico cuja evolução encontra-se muito próxima do ápice. Rodrigo Amarante vem logo em seguida. Com a bela "O Mar e o Ar" ele completa a sua trilogia natural composta ainda por "O Vento" e "Evaporar", confirmando um novo caminho como compositor, iniciado no disco "4". Na sua voz, "Yarusha Djaruba" é o clássico dos bailes presente no disco.

Completam o time de cantores Max Sette, o rei da fanfarra, que fez algumas paulistas suspirarem à possibilidade de uma "Ereção" incontrolável, o mestre Wilson das Neves, e o hitmaker imperial Rubinho Jacobina. Os três são os responsáveis por manter no disco a irreverência dos shows com "Era Bom", parceria dos dois primeiros, e "Salamaleque", composição do último. A participação de Jorge Mautner e a intervenção do baterista Domenico Lancelotti interpretando "Eye of the Tiger" em falsete foram a senha para o momento chalaça que marca o final das apresentações da banda. Desencontros entre os instrumentistas e os cantores, o tradicional deixa que eu deixo até o apoteótico "Eu fumo sim", contra a hipocrisia de uma sociedade que se diverte movida a álcool. "Tem gente que não fuma, está bebendo". Um magnânimo boa noite para nós e a realização de um velho sonho para Thalma de Freitas: uma recepção calorosa no palco do antigo Palace. Uma noite de merecimentos.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

7 Cordas dedilhadas e um Tom de voz

O público presente no Cinematèque Jam Club no último domingo assistiu ao encontro de duas tradições distintas da música brasileira. De um lado, o violão do samba, a harmonia da canção flertando continuamente com o peso da baixaria nas cordas mais graves, tocado por um mestre que tem incorporado ao seu nome o sobrenome do seu instrumento: Paulão 7 Cordas. Além de exímio instrumentista, diretor musical e arranjador. Já trabalhou com muitos dos principais nomes do samba carioca, de Nelson Cavaquinho e Velha Guarda da Portela a Tereza Cristina e Zeca Pagodinho. Do outro, a voz de Thalma de Freitas em um tom contido e performático entre a bossa do samba jazz e a fossa do samba-canção. Uma tradição herdada do convívio com o seu pai, o maestro Laércio de Freitas, depois aprofundada com os demais integrantes do trio que a acompanha em sua carreira solo. Além do maestro, o baixista Bebeto Castilho, membro original do Tamba Trio, e o baterista Wilson das Neves.

Entre as jovens cantoras brasileiras, Thalma é aquela que transita com maior naturalidade entre os diversos gêneros musicais brasileiros. Enquanto a grande maioria compõe seus ecléticos repertórios como se estivesse visitando um supermercado, com preferência pela prateleira do revitalizado samba de raiz ou da fossilizada Bossa Nova, Thalma não se fixa a nenhum estilo ou referência, mantendo trânsito livre entre o passado e o presente, sempre com um foco bem definido em cada um dos seus diferentes projetos. Com os companheiros de Orquestra Imperial, ela subverte a pureza do samba com arranjos de gafieira pop-rock. No último carnaval, caiu na folia juntando-se aos paulistas do Instituto em um tributo ao Tim Maia Racional. Integrou a banda do produtor Apollo 9 levando aos palcos sua mistura entre o som orgânico e o eletrônico. E mesmo quando cai no samba tradicional, como em sua participação em Samba Novo, disco coletivo lançado este ano que reúne alguns nomes que vêm renovando o gênero no Rio de Janeiro, ela se destaca pela diferença. Troca o cavaquinho pelo piano no diálogo com o violão, enquanto o arranjo percussivo privilegia as sutilezas ao invés da marcação em sua interpretação de “Minha noite é de manhã”.

Apesar dos convites, Thalma ainda não havia experimentado o formato minimalista de um show de voz e violão. Ao surgir a oportunidade de fazê-lo, convidou Paulão 7 Cordas para acompanhá-la. O repertório foi se desenhando a partir dos ensaios com sugestões de parte a parte, tendo como substrato o samba-canção. “Voz e 7 Cordas” apresenta músicas sobre amores acabados ou mal-resolvidos que refletem um momento particular da vida da cantora. Esta intimidade é aprofundada pela subtração da grandiloqüência dos arranjos originais das canções a um único instrumento – o violão.

No palco, Thalma usa a alta carga dramática das letras para dar vazão à sua veia interpretativa enquanto as sete cordas de Paulão constroem os cenários. Pode ser a amante que espezinha em “Basta de Clamares Inocência” (Cartola) ou que é espezinhada no pout-pourri de “Me Deixa em Paz” (Monsueto Menezes/Ayrton Amorim) e “Mel na Boca” (David Correa). Atriz versátil, vai da amargura à piedade em “Risque” (Ary Barroso), coloca-se na terceira pessoa e assume a condição de cronista em “Louco (Ela é seu mundo)” (Wilson Batista e Henrique de Almeida) e chega até a fazer graça com a própria desgraça em “Camisa Amarela” (Ary Barroso). Mas quando se emociona, após a execução de “Ronda” (Paulo Vanzolini), não é atriz nem personagem. Perde o ar, esquece a letra da próxima música, pede uma pausa, respira fundo e contém a emoção no olhar lacrimejante. Depois continua, conforme prometido, até acabar o vinho que ela e Paulão bebem no intervalo entre as músicas.

Thalma aproveita as pausas para conversar com o público. Convida todos a assistirem a intimidade dos ensaios em seu canal no youtube. Elogia as sugestões de Berna Ceppas, seu produtor, presente na platéia - “ele nunca erra”. Mas a revelação mais emblemática surge quando ela aponta sua cantora favorita – Elizeth Cardoso, a faxineira das canções. “Era a Rosa Passos, mas agora eu estou conhecendo mais a fundo a Elizeth”. Na relação entre as duas cantoras, fecha-se o círculo da tradição entre o passado e o presente que caracteriza o show.

A carreira de Elizeth começou na era de ouro do rádio, na década de 30, graças a um convite de Jacob do Bandolim. Ela dividia seu tempo entre os estúdios e as boates onde se apresentava como crooner até consolidar-se como intérprete e assinar seu primeiro contrato com uma gravadora já no fim dos anos 50. Em 1958, gravou Canção do Amor Demais, disco dedicado às canções de uma dupla ainda pouco conhecida pelo grande público: Tom Jobim e Vinicius de Moraes. “Chega de Saudade” e “Outra Vez” registraram pela primeira vez o violão de João Gilberto e entraram para história como marcos inaugurais da bossa nova. Sete anos depois, Elizeth se integrou ao movimento pela revalorização do samba de raiz com Elizeth sobe o Morro, álbum em que gravou músicas de compositores como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia e Paulinho da Viola. E em 1968, promoveu o encontro entre o samba, representado por Jacob do Bandolim e o Conjunto Época de Ouro, e a bossa nova, representada pelo Zimbo Trio, em um show histórico, no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, quando ainda existia um distanciamento até então intransponível entre os músicos de uma e outra vertente. Já no fim de sua vida, gravou o disco Todo Sentimento, acompanhada apenas por Rafael Rabello no violão de sete cordas. Uma das músicas é “Doce de Coco” (Jacob do Bandolim/Hermínio Bello de Carvalho), que também foi gravada por Thalma em seu disco solo.

O trânsito entre diversas tradições musicais brasileiras é um traço comum às trajetórias de Elizeth Cardoso e Thalma de Freitas, cada qual à sua época, sem que haja aí qualquer juízo de valor ou parâmetro para comparações. O show “Voz e 7 Cordas” presta homenagem, se não especificamente a Elizeth, a um passado sem o qual não haveria, hoje, no presente, uma intérprete do quilate de Thalma de Freitas.

Show: Voz e 7 Cordas
Músicos: Thalma de Freitas (voz) / Paulão 7 Cordas (violão de 7 cordas)
Local: Cinematèque Jam Club - Rio de Janeiro
Data: 13 de maio de 2007.


Assista a "Basta de Clamares Inocência" e “Louco (Ela é seu mundo)” no show do Cinematèque na Tuba do Pindzim.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Três dedos de prosa com Thalma de Freitas


Thalma de Freitas faz dois shows no Cinematèque Jam Club no sábado e no domingo . Pindzim trocou três dedos de prosa com a cantora para saber como serão as apresentações. Ela também fala sobre os demais projetos musicais nos quais está envolvida.

Pindzim: As comemorações do aniversário este ano serão especiais, duas noites no Cinematèque. A primeira uma jam entre amigos e a segunda uma apresentação inédita acompanhada por Paulão 7 Cordas . Como surgiram estes projetos e como serão as apresentações?
Thalma: O duo com Paulão surgiu da minha necessidade de cantar e fazer show. Tenho muitos convites para shows 'simples"... as pessoas pedem voz e violão por ser fácil de montar e eu convideu o Paulão pra ter esse formato reduzido e ao mesmo tempo garantir uma qualidade absurda, porque o violão do cara não é brincadeira... É o mesmo principio do trio, na hora de fazer meu trabalho solo dou prioridade aos músicos, prefiro trabalhar com os mestres. Adoro fazer aniversário, então peguei esses dois dias no Cinemathèque, no primeiro vou fazer música e dançar com meus amigos, e domingo estreia o show Voz e 7 Cordas... Melhor impossível!

Pindzim: Estes shows são uma pista do que vem por aí no seu próximo trabalho solo ou vc pretende continuar com aquele trio sensacional composto pelo maestro Laércio, seu Wilson e o Bebeto? Já existem planos para um novo trabalho?
Thalma: Existem planos e convites, mas eu ainda preciso compor meu repertório... o duo serve pra isso também, e o trio... bom... agora é um um quarteto, hehehe...

Pindzim: Ao mesmo tempo, vc permanece em atividade participando de projetos diversos como a Orquestra Imperial, o Tim Maia Racional com o Instituto, a coletânea Samba Novo, produzida pelo Rodrigo Maranhão, e também integrou a banda do Apollo 9 em shows. Fale um pouco sobre estes projetos e possíveis desdobramentos futuros deles na sua carreira.
Thalma: Eu gosto e prefiro trabalhar em equipe... gosto de somar pra melhor, citando meu pai, então o trabalho com a Orquestra Imperial, o Tim Maia Racional, o Apollo Nove, e quem mais vier... é minha carreira... na verdade não tenho carreira e sim trajetória. Quando faço trabalho solo fico no básico, na tradição, exatamente pra demonstrar de onde venho e que posso ir pra onde quiser... Tanto na musica quanto atuando, eu gosto é de representar!
Paz, T.


Além das apresentações deste fim de semana, estão confirmados os shows de lançamento do primeiro disco da Orquestra Imperial, Carnaval só no ano que vem, em junho no Teatro Rival. Como atriz, Thalma vai participar da próxima novela das sete da Rede Globo, Sete Pecados, que deve estrear em junho.