terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Siba e Catatau juntos em eletricidade

Muita gente credita até hoje o fim do Mestre Ambrósio ao trabalho que Siba veio a desenvolver com músicos da Zona da Mata pernambucana a partir do disco A Fuloresta do Samba (2002). No ano anterior a banda lançara Terceiro Samba e parecia estar seguindo sua escalada ascendente de Pernambuco para o Brasil inteiro e daqui para o exterior. No Rio, o show de lançamento em um Canecão lotado, em que de toda geração do mangue beat até então apenas Chico Science e Nação Zumbi haviam tocado, foi apoteótico. Rodas de ciranda propagavam-se umas dentro das outras até tomarem o salão inteiro, muitos versos eram entoados pelo público com fervor e o bis estendeu-se para muito além do que a banda podia esperar ou estava preparada. Os maiores sucessos tiveram que ser repetidos até que o encerramento definitivo se deu com Siba improvisando versos ao microfone.

Quem tivesse prestado atenção àquele último número, talvez não viesse a se surpreender com o futuro trabalho do compositor, cujo cerne viria a ser a poesia rimada. Mas o Mestre Ambrósio era então uma banda amada com tamanha devoção pelos seus fãs, que eles não poderiam imaginar que o seu fim se desenhava em um horizonte não muito distante. No entanto, aquele improviso era também uma pista de que os caminhos a seguir poderiam tornar insustentáveis as latentes divergências internas entre os seus integrantes. O processo de gravação de Terceiro Samba fora conturbado - o clima no estúdio não era nada bom, como relembraria anos depois o produtor Beto Villares, e o próprio Siba admitiria. Nem todos compartilhavam as mesmas ambições artísticas e estéticas. Cada integrante tinha seus próprios planos.

DAS CORDAS ACÚSTICAS ÀS ELÉTRICAS
Este ano, quando Siba novamente desviou sua trajetória da trilha óbvia, não houve trauma semelhante. Pelo contrário, Violas de Bronze, gravado em parceria com o violeiro Roberto Corrêa, foi saudado como uma obra coerente com a sua carreira e com aquilo que dele se poderia esperar. "Eu conquistei uma coisa muito boa, que nem foi intencional no começo, mas que hoje eu comemoro. Quando eu fiz a ruptura do que eu fazia com o Mestre Ambrósio para o que eu fui fazer com a Fuloresta, que foi realmente uma ruptura grande em termos de procedimento, de resultado sonoro, e até do tipo de pessoas com que se trabalha e tal, eu fiz uma guinada muito radical que me possibilitou, a partir daí, que eu possa fazer quantas guinadas eu quiser desde que eu mantenha uma coerência que é muito subjetiva minha", diz Siba, explicando a repercussão que o trabalho com Roberto vem obtendo, em entrevista via Skype ao Blog do Pindzim. "Tem um ponto que é constante no meu trabalho, alguns procedimentos que são meus e que têm me guiado, mas depois que eu fiz o Mestre Ambrósio e fiz a Fuloresta, que são tão diferentes, eu acho que fazer um disco com Roberto, só de rabeca e violas, deixou de ser pra mim uma guinada tão radical", completa.

Roberto Corrêa e Siba (Foto: Pablo Francischelli)


E se trata de um disco nada convencional. Com arranjos fundamentados apenas em viola caipira e de cocho - a cargo de Roberto -, e viola nordestina e rabeca - pelas mãos de Siba -, trata-se de um disco "estranho", na definição do próprio, por unir dois músicos cujas personalidades e trabalhos autorais são tão distantes e distintos quanto suas origens - Roberto vem do Brasil Central e Siba,  como se sabe, do Nordeste. "Eu não sinto mais tanto o peso de ter que ser coerente com um estilo musical que o público venha a me cobrar. As pessoas me cobraram o Mestre Ambrósio por uns anos e depois se acostumaram com isso e hoje eles sabem que o que dá o norte do meu trabalho não é um formato em si, é uma outra coisa", afirma, encerrando o assunto.

Este desvio eventual fez com que Siba se reaproximasse dos instrumentos de corda, praticamente abandonados desde os tempos de Mestre Ambrósio - embora na intimidade ele sempre os tenha mantido ao alcance da mão. E foi assim que a eventual imersão no universo da viola, por vias tortas, acabou sendo definitiva para abrir uma nova vereda em sua carreira. "Eu voltei a tocar guitarra agora, junto com esse processo do Violas de Bronze", revela Siba, para em seguida enfatizar: "guitarra elétrica".

A própria viola não será abandonada nesta nova fase que se anuncia, mas ganhará captadores e, quem sabe, distorção. Siba encomendou a um luthier de São Paulo uma viola elétrica que já está em suas mãos e com a qual ele vem preparando material para um futuro disco. "Meu próximo trabalho vai vir muito mais ligado às cordas, especialmente à viola e à guitarra. Uma coisa bem mais elétrica mesmo, retomando um pouco do que foi o lado elétrico do Mestre Ambrósio, só que talvez de uma maneira diferente", conta Siba, para logo depois vaticinar: "acho que vai ser diferente de tudo o que eu fiz antes, mas isso está se processando para mim agora, nesse momento". Momento este que não deixa de ser uma surpresa para ele próprio. No auge de seu envolvimento com a Fuloresta, Siba chegou a achar que jamais voltaria à guitarra. "Mas cada tempo é um tempo", pondera.

Siba e a viola nordestina (Foto: Pablo Francischelli)


PARCERIA COM CATATAU
Outra influência que seguramente o conduziu a esta nova trilha foi a de Fernando Catatau, líder do Cidadão Instigado. Siba revela que tem sido um ouvinte atento de tudo o que o músico e compositor cearense tem feito de um bom tempo para cá. Ao lado da Nação Zumbi, é a principal referência musical de Siba no cenário da música brasileira atual. Há um mês atrás quando conversamos, Siba ainda tinha poucas certezas acerca do novo trabalho, mas a participação de Catatau era uma delas. "Eu ainda estou montando esse trabalho novo. É um trio ou quarteto totalmente elétrico, de bateria, baixo e guitarra e viola elétrica, rabeca também, tudo muito elétrico. Praticamente é um power trio ou um power quarteto, não sei bem ainda, e quem vai produzir esse trabalho junto comigo é o Catatau. Ele é o grande parceiro dessa história", afirmou.

Além da coprodução do futuro trabalho, Catatau poderá integrar a banda idealizada por Siba. "É possível que sim, que seja eu e ele tocando as cordas. Isso é para o ano que vem. Já comecei agora, já tenho trabalhado material, tenho me preparado, e no começo do ano que vem a gente começa pra valer mesmo", diz. A ideia é levar o projeto ao palco no primeiro semestre, com apresentações em lugares pequenos, para depois entrar em estúdio. Siba prevê o lançamento em disco no final de 2010.

FULORESTA E NAÇÃO JUNTAS
Nem por isso, Siba e a Fuloresta entrarão em recesso. E até mesmo no trabalho com o grupo a eletricidade deverá se fazer sentir. Além das apresentações que vem fazendo desde o lançamento de Toda Vez que Eu Dou Um Passo o Mundo Sai do Lugar (2007), a Fuloresta pode se unir à Nação Zumbi para shows conjuntos, como aconteceu em duas oportunidades neste ano - no carnaval de Recife e no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, por ocasião das festividades do Ano França-Brasil. "São as duas bandas no palco com o repertório em comum dividido. Então a Nação toca nas músicas minhas com a Fuloresta e a Fuloresta toca nas músicas da Nação também, é tudo bem misturado. Agora, é uma banda muito grande, imagine, então é um projeto pra se fazer de vez em quando, ele é um pouco inviável", explica Siba.



O FIM DO MESTRE AMBRÓSIO
Dada a imprevisibilidade dos rumos de sua carreira, há alguma esperança de que os fãs do Mestre Ambrósio vejam a banda novamente reunida?, muitos podem se perguntar. Siba acredita que não, mas não usa a palavra "impossível" para descartar totalmente uma futura reunião. Diz que acha "bem difícil". Por outro lado diz que composições antigas do Mestre Ambrósio de sua autoria podem reaparecer em algum momento no seu repertório, embora atualmente não haja nenhuma em vista. Por fim, aproveita para esclarecer de uma vez por todas que o fim da banda aconteceu independentemente de sua vontade.

"Apesar de eu ser creditado como o primeiro que saiu da banda pra fazer a Fuloresta, eu fui um dos poucos que não saí da banda, na verdade. A Fuloresta foi um projeto para o qual eu me preparei por anos, inclusive preparei a banda pra ele. A gente tinha uma proposta em comum de parar por seis meses para isso e para todo mundo também fazer as suas próprias coisas. Sendo que eu acho que o nível de conflito de interesse já tava bem alto em termos de interesse profissional e de carreira, de modo de ver o desenvolvimento da coisa. Com essa parada foram saindo um, dois, três. Na hora que saiu o terceiro a parada ficou por tempo indefinido. Nesse tempo indefinido eu acho que já se passou tempo demais e praticamente hoje eu acho muito difícil voltar a banda. Não existe um fim decretado, mas ao mesmo tempo eu acho muito pouco provável uma volta. Se na época que a banda tinha 12 anos de batalha e tinha, digamos assim, uma inércia positiva que possibilitava que a gente parasse por um tempo para depois retomar, porque tinha um público e tinha toda uma imagem, uma presença e tal, não aconteceu, hoje, depois de tantos anos, é um tamanho de esforço dentro de um contexto que é muito diferente. Cada um está em uma cidade diferente fazendo suas coisas,  então eu acho que o que a gente tinha pra dizer tinha que ter continuado naquela época", encerra.



Na verdade, o Mestre Ambrósio segue vivo na trajetória peculiar que Siba vem traçando ao longo de seus quase 20 anos de carreira. A proposta híbrida de combinar elementos regionais e universais já estava presente no trabalho da banda e veio - e vem - se expandindo cada vez mais em sua caminhada. Siba é um nome que nunca vem sozinho, está sempre junto de outros artistas importantes, de personalidade própria. Pode estar em parcerias com a paulistana Céu ("Nascente") ou com os conterrâneos Lucio Maia e Dengue ("Alados"), em projetos coletivos de sabor regional, como a própria Fuloresta, e de matizes latinas, como em América Contemporânea. Ou simplesmente indefiníveis, como a dupla com Roberto Corrêa e a futura banda com Catatau. Toda vez que ele dá um passo o mundo sai do lugar - e a música se expande para além do reconhecido e do imediatamente reconhecível, constituindo uma das obras mais sólidas, belas e relevantes de toda uma excepcional geração.

Agradecimento a Socorro Macedo e Le Fil Comunicacao Digital.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Samba Quadrado (e transcendental) de Rodrigo Maranhão

Crianças brincam na calçada de uma pequena travessa do Horto, bairro contíguo ao Jardim Botânico na zona sul do Rio, em frente a um conjunto de casas geminadas. Neste clima interiorano, por trás da fachada ensolarada e colorida de uma delas, Rodrigo Maranhão grava o seu segundo disco, Samba Quadrado - título de uma de suas doze faixas -, cujo lançamento deve acontecer em janeiro de 2010, segundo o próprio compositor, via MP,B Produções.



Naquela tarde em fins de outubro em que visitei o estúdio, o próprio Maranhão abriu a porta. Encontrava-se na cozinha servindo água para os músicos e técnicos. Deda tinha acabado de gravar flautas de pife na faixa "Sonho", uma das composições mais recentes da lavra de Maranhão, escolhida para abrir o show de transição entre o primeiro e o segundo disco apresentado no CCBB do Rio alguns dias antes. Ao vivo, a canção chamou atenção pela poética elaborada, cada palavra dando sentido claro aos versos, manifesto de um eu lírico a um só tempo ensimesmado e aberto ao mundo, expressando a personalidade do indivíduo por trás do compositor.

A música é brasileira, porém, cada vez mais e como sempre, nascida de um Brasil inominável, de confluências e miscigenações pouco ou nunca experimentadas. São evidentes certos traços nordestinos desenhados pelo acordeon de Marcelo Caldi e pelo ritmo percussivo. Este, ao mesmo tempo, não nega algum grau de parentesco, ainda que indefinido, com a bateria do Banga, mais ainda quando Maranhão incorpora o mestre de bateria ao lado da mesa de som para determinar o encaixe perfeito da flauta de pife, elemento novo na sonoridade "maranhense", componente ancestral que remete à ascendência indígena do Brasil pré-colonial.

Certos compositores são indissociáveis de suas origens e é quase sempre inevitável associá-los a elas: Dorival Caymmi e sua indolência baiana; Noel Rosa e a malandragem carioca; Luiz Gonzaga e a perseverança do sertanejo; Outros, a grande maioria, são capazes de transitar por gêneros diversos da tradição brasileira, seja com reverência ou ironia, mantendo imóveis as fronteiras que os separam ou fundindo-os com novidades externas, como o rock e a eletrônica. A música de Rodrigo Maranhão elimina categorizações e inaugura uma "música brasileira" que se basta com estas duas palavras por definição. Caberia o popular a uni-las, mas seria mais apropriado o universal.

Samba Quadrado trará a também recente "Quase um Fado", composta sob inspiração do português Antonio Zambujo, a quem Maranhão assistiu no começo deste ano, em um show no teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico vizinho do estúdio em que agora grava o novo disco. "Quase um Fado" porque o compositor-narrador assume-se um navegador solitário que carrega "no peito o segredo dos mares por navegar", solto no Oceano Atlântico, a meio caminho entre Brasil e Portugal. Não chega a ser um fado pronto e acabado, ou, antes, trata-se de um fado brasileiro. "Trago no peito o segredo dos mares que desafio", canta Maranhão em outro verso. Não satisfeito apenas com a fagulha inspiradora, Maranhão convidou Zambujo para fazer uma participação na faixa, prontamente aceita, mas que, àquela altura, ainda não tinha sido gravada.

Depois do pequeno intervalo para refrescar a garganta na pequena cozinha localizada logo na entrada, ante-sala para a vasta sala de gravação, com seu pé direito alto, alguns instrumentos dispostos pelos cantos e o microfone de gravação montado bem no centro, Deda se posiciona, agora com a flauta-baixo em punho. Maranhão e Zé Nogueira, que assina a produção do disco, sobem as escadas até a mesa de som, onde Duda, o técnico de gravação os aguarda com a próxima música a ser trabalhada no ponto.

Dado o play, violão dedilhado marca o ritmo da introdução de "Camaleão". A princípio, a flauta-baixo só entra no segundo compasso, Deda vai improvisando frases melódicas aleatoriamente. Como não domina a harmonia, toca livremente seguindo as sugestões de Zé Nogueira. Enquanto não aprova o que ouve, Maranhão se mostra tanquilo, sentado no sofá atrás da mesa de som, de onde não consegue vê-la tocando. À medida que Deda se aproxima de uma frase que lhe agrada, vai ficando agitado. "É isso, ficou bonito, assim", comenta. Zé Nogueira, porém, ainda não se dá por satisfeito. Concorda que foi bom, mas acredita que ainda pode ficar melhor. Alguns takes depois, os dois se dão por satisfeitos e resolvem seguir adiante.

Não haverá flauta sobre a voz. Entre as duas partes cantadas, há espaço para um solo. De início, Maranhão e Zé Nogueira dão liberdade total para Deda improvisar. A cada take obtem-se um resultado diferente. Zé parece gostar do caminho que a flauta vai tomando, falta apenas adequá-la ao tempo da harmonia, pois o final do solo está invadindo a volta da voz. Maranhão não aprova, argumentando que o solo está muito "jazzístico" e que prefere os primeiros takes, com menos floreios. O comentário traduz a essência da música de Maranhão: harmonias relativamente simples sobre as quais se desenham melodias de beleza insólita e desconcertante.

Na tentativa de guiar a execução, Zé Nogueira faz com que Deda fica confusa e aquilo que em algum momento soou bem a ela se perde em tentativas de verbalização. É aí que Maranhão vem com a ideia que define a questão: "E se ela fizer o solo seguindo a melodia vocal?", sugere. E foi assim que se resolveu o solo de "Camaleão", não sem muitas idas e vindas de Zé Nogueira e Maranhão, da sala de controle à sala de gravação, entre solfejos e demonstrações da harmonia no violão.

No fim, mais relaxada, Deda deu sua maior contribuição à faixa, extraindo notas percussivas da flauta, ritmadas pelo vigor do sopro. Maranhão e Zé Nogueira gostam tanto que pedem para ela repetir o expediente também na introdução.

Enquanto Bordado (2007) foi quase um disco caseiro, de voz, violão e a participação de seus parceiros de Bangalafumenga nos ritmos, Samba Quadrado conta com uma estrutura profissional e a participação de instrumentistas importantes da cena musical carioca. A banda base conta com Marcelo Caldi no acordeon e teclados; Pretinho da Serrinha na percussão; e Nando Duarte no violão de 7 cordas, além do violão do próprio Maranhão. Entre as participações especiais, há o percussionista Marcos Suzano, a dupla Zé da Velha e Silvério Pontes, o guitarrista Ricardo Silveira e até um conjunto de cordas na faixa-título. "É quase uma super-produção", define Maranhão ao compará-lo com o primeiro.

Além das quatro músicas citadas anteriormente, Samba Quadrado traz ainda "Três Marias" e "Maria Sem Vergonha", ambas dos tempos de Mafuá, grupo de compositores formado na UniRio que abrigava Edu Krieger, Raphael Gemal, Rubinho Jacobina, Pedro Holanda e Carlos Pontual; e "Samba pra Vadiar", que há tempos vem sendo apresentada em shows e saiu no disco coletivo "Mar Ipanema", lançado no fim do ano passado.

A tarde vai chegando ao fim e, encerrada a participação de Deda, Maranhão, Zé Nogueira e Duda dão uma pausa para tomar um café na esquina. Entra em cena o Maranhão contador de histórias, evidenciando ainda mais a leveza e a alegria com que ele conduz o processo de produção do novo disco. O lusco-fusco matizado pelos tons verdejantes da natureza ao redor mantém o tempo em suspensão. Sinto-me gravitando em uma zona de atemporalidade a qual nos transportam os grandes clássicos. Tento prestar atenção à conversa, mas não consigo abstrair a sensação de que, antes mesmo de vir à luz, Samba Quadrado já garantiu seu lugar entre eles. Pela primeira vez, experimentei a intensidade de ver a concepção de uma obra-prima. Não compreendo de imediato: é o transe total.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Jam da Silva e Luisa Maita juntos em faixa de DJ francês

O DJ Kayalik do grupo francês Massilia Sound System queria uma voz em português para cantar em uma faixa de seu projeto solo de dancehall. Mandou as bases para Jam da Silva, aqui no Brasil, que compôs uma letra em português e convidou Luisa Maita para colocar a voz. A cantora ainda contribuiu com a melodia da canção, que está pronta e será lançada em um single no mercado francês, ainda sem data definida. O resultado ficou tão bom e agradou tanto aos envolvidos que é possível que uma segunda parceria entre os três acabe por se concretizar muito em breve.

Kaialik, Jam e Luisa em fotomontagem

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Lucas Santtana e o título ganho por antecipação

Lucas Santtana subiu no palco do Vale Open Air ontem a noite com o jogo ganho, assim como o seu Flamengo entrará no Maracanã, domingo, para decidir o Campeonato Brasileiro com a taça já guardada no armário. Eram - e serão - favas contadas. Talvez, justamente por tocar diante de um público atento e devotado, que estava ali para ouvi-lo com atenção e muitas expectativas no primeiro show carioca desde o lançamento de Sem Nostalgia, começou tímido. Cantou os primeiros versos de "Cira, Regina e Nana" (no vídeo abaixo) quase escondido, em um canto do palco, e aquela que é uma das melhores músicas do novo disco, escolha certeira para abrir a apresentação em alta voltagem, não cumpriu com todas as promessas contidas naquele princípio de madrugada.



Sua banda, a Seleção Natural, tal qual o Football Portoalegrense no próximo domingo, ostentava o nome de sempre, mas seus integrantes eram completamente diferentes daqueles que o tem acompanhado desde a estreia em São Paulo. Não que se tratassem de meros suplentes. Guitarra, baixo e bateria ficaram a cargo, respectivamente, de Benjão, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, todos do Do Amor, os dois últimos também da banda Cê de Caetano Veloso. Provavelmente por este motivo, foi só a partir da terceira música que Lucas e a banda mostraram perfeito entrosamento e então o show engrenou.

As novas "Amor em Jacumã", "Who Can Say Which Way", "Night Time in the Backyard" e especialmente a instrumental "Recado pro Pio Lobato", em que Lucas assumiu o baixo, foram os pontos altos do show. Se por um lado, ao vivo os arranjos das canções de Sem Nostalgia se renovam com as novas leituras instrumentais para além da proposta de voz e violão do registro em estúdio, também ficam claras as limitações da voz de Lucas. Suas interpretações vocais são melhores em disco.

O público se divertia, mas sem grandes arroubos, diferentemente da torcida rubro-negra no Maracanã. Lucas queria mais. Puxou cânticos de arquibancada, como aquele novíssimo, copiado da torcida do Internacional, inspirado em "Brasília Amarela", dos Mamonas Assassinas, tentando inflamar a galera. Mas as pessoas queriam mesmo suas músicas e guardavam qualquer manifestação mais eloquente para o intervalo entre elas. Às vezes os titulares não fazem falta nenhuma e é aí que mora o perigo para o Flamengo. Depois de ontem, intimamente, Lucas já pode vibrar: entrou no palco já consagrado e saiu dele como campeão. Diante da música, o futebol tem quase nenhuma importância.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Kassin em estúdio

Último integrante do +2 a lançar disco com a sua assinatura - Futurismo (2006), Kassin deverá ser o primeiro dos três a apresentar um novo trabalho após a dissolução da banda. Enquanto vai apresentando novas composições em shows - depois de Porto Alegre, ele toca em Recife (Feira Música Brasil, no dia 11) e em São Paulo (Studio SP, no dia 16) -, aproveita para registrá-las em estúdio, conforme revelou no último sábado logo depois de deixar o palco do Cinemathèque, onde tocou com Romulo Fróes.

Duas delas já podem ser ouvidas no Myspace. "Calça de Ginástica" tem uma levada anos 80, quase eletrônica, com vocal em falsete, e o baixo em primeiro plano. "Panda" é instrumental e remete à trilha sonora que o +2 fez para o espetáculo "Imã", do Grupo Corpo, mas talvez fosse mais apropriada ao acompanhamento de um desenho animado japonês, com seus riffs hipnóticos levados em um vibrafone, instrumento central do arranjo. Duas faixas muito diferentes uma da outra que apontam não para um caminho, mas para várias encruzilhadas.

Além de Alberto Continentino, Donatinho e Domenico, que o acompanharam no show de Porto Alegre, têm participado das gravações Mauricio Takara e Marcos Gerez, do Hurtmold, e André Lima, da banda de Mallu Magalhães.

domingo, 29 de novembro de 2009

O segundo disco do 3naMassa

Está no blog do trio no Myspace: já foi gravada a primeira música que estará no sucessor de Na Confraria das Sedutoras. Tem Otto na poesia e Ana Cañas nos vocais sobre uma das tradicionais bases sacanas da turma. Ana, inclusive, comentou a sua participação, também no Myspace. Mais cedo ou mais tarde estará liberada para audição.

Conforme eles disseram há algum tempo atrás - acho que foi o Pupillo -, alguns letristas devem ser convocados novamente para a produção do disco novo. Porém, o time de cantoras será totalmente renovado. Entre as apostas certeiras, Marina de la Riva e Bárbara Eugênia, que têm participado de alguns shows da banda. No terreno das especulações, quem você gostaria de ouvir no aguardado volume 2? Luisa Maita? Cibelle? Tiê? Anelis Assumpção? quem sabe até Roberta Sá, por que não? Faça a sua lista e aguarde. Previsão de lançamento? Tá de brincadeira. Devagar é mais gostoso...

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Amanhã, Romulo Fróes se apresenta no Rio com Kassin e Domenico

Daqui a pouco deve começar o primeiro e único ensaio da banda carioca que Romulo Fróes arregimentou para o show de lançamento de seu álbum duplo No Chão sem o Chão, no Rio, amanhã a noite no Cinemathèque. Nele Romulo estará acompanhado de Domenico na bateria, Kassin no baixo e Gabriel Bubu na guitarra.

Em uma breve entrevista por email, ele antecipa algumas coisas sobre a apresentação, fala abertamente sobre as dificuldades de manter uma carreira independente no Brasil dadas as atuais condições, revela uma aproximação com a turma do +2 e o começo de uma já prolífica parceria com Domenico.



Com a palavra, Romulo Fróes.

Pindzim: É quase sempre demorado para os músicos de fora do Rio chegarem à cidade para tocar e até  mesmo bandas locais reclamam por falta de espaço e de convites. Você  tem feito ensaios sobre a música brasileira atual, cujo centro nevralgico certamente se localiza em São Paulo. Nesse contexto, em que posição se encontra o Rio de Janeiro? Estaria a cidade em uma condição periférica dentro desta nova cena, com poucas novidades no que diz respeito a novos músicos e bandas, e um público desinteressado?
Romulo Fróes: Definitivamente não há no Rio de Janeiro falta de novos trabalhos relevantes para a música brasileira, muito pelo contrário, muitas das coisas que mais gosto hoje em dia, são produzidas aí. Agora, não só o Rio, mas a Bahia, Recife, Minas e todos os outros estão passando por um período de imensa dificuldade no negócio de música. O modo como se constituía o mercado acabou e ninguém sabe como será daqui pra frente. São Paulo, mesmo com seus problemas que não são poucos, ainda assim, é o melhor lugar pra se desenvolver um trabalho, o que não significa possibilitar a um artista independente viver de sua música. Sinceramente, eu considero a possibilidade de nunca conseguir viver de música.

Uma consideração sobre a pergunta que originou tal resposta. Quando me refiro a uma certa pasmaceira na cena carioca atual, faço alusão à falta do surgimento de novíssimos nomes. Há uma nova geração já estabelecida: parte dela gira em torno dos integrantes do Los Hermanos e da Orquestra Imperial, que são aqueles que Romulo diz admirar;  do outro lado há os egressos do movimento de revitalização da Lapa, mas depois destes dois movimentos espontâneos quase nada de novo surgiu - o Manacá seria uma das poucas exceções, talvez. Enquanto isso, São Paulo não para de revelar novos nomes ou de atrair músicos de outros estados para lá desenvolverem os seus trabalhos.

Pindzim: Na esteira da pergunta anterior, por que a opção de formar uma banda carioca para tocar aqui, ao invés de trazer os músicos que participaram do disco e costumam acompanhá-lo em seus shows?
Romulo: Porque não há dinheiro, simples assim. Eu não sou uma banda, eu pago os caras que tocam comigo. Pouco, mas pago, e viajar pra outro estado, significa ainda pagar passagens, hospedagem, rango e tudo o mais. Isso tudo sairá do valor da metade da bilheteria arrecadada, que é o que a maioria das casas de show oferecem, por não terem também mais o que oferecer, a coisa está difícil pra todos. Faça as contas e verá o prejuízo na minha conta. 

Pindzim: Numa conversa há tempos atrás, você falou que tocaria no Rio com o pessoal da banda Do Amor, depois falou em Alberto Continentino no baixo, mas eis que agora vem com Domenico e Kassin, a melhor cozinha da cidade. Como essa banda carioca se formou?
Romulo: Partindo pra essa coisa de se montar uma banda local, quando a gente conversou, eu era mais próximo dos caras do Do Amor por conta da minha proximidade com a Nina Becker, com quem já dei algumas canjas. Mas por mais que todos tenhamos admiração um pelo trabalho do outro, as prioridades existem e neste fim de semana haverá show de Caetano Veloso na cidade, o que significa que metade do Do Amor não poderia tocar comigo, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Passado algum tempo me aproximei mais do Domenico, acabamos por fazer um trabalho juntos no Sesc Pompéia, trabalho em que também estava o Bubu. Precisávamos então de um baixista. Pensamos no Alberto Continentino, que acabou não podendo por também tocar nesse dia com a Vanessa da Mata. Daí pintou a chance do Kassin fazer e eu fiquei felizaço, afinal é quase o +2, que eu sou fã, tocando comigo, além do Bubu, que eu acho um dos maiores músicos dessa cena. Contei essa história toda pra mostrar as dificuldades de se manter um trabalho da maneira mais digna possível. 

Pindzim: Há intenção de levar adiante um possível trabalho com esses músicos?
Romulo: Sempre quero me relacionar com quem tenho admiração, esse show é muito por conta disso. Efetivamente, o que já rolou foi uma parceria de composição com o Domenico. Já fizemos três canções juntos e creio que muitas outras ainda virão. Quem sabe a gente não toque alguma neste show no Cinematheque...

Pindzim: Tendo pouco tempo para ensaiar, qual será o repertório do show? Imagino que baseado nas músicas de "No Chão sem o Chão", mas, sendo elas muitas, como foi feita a seleção?
Romulo: Vou fazer rigorasamente o show que costumo fazer com minha banda em São Paulo. Eu seleciono as canções, digamos, mais enérgicas do disco, pra não correr o risco de ser engolido pelo burburinho habitual de um show num boteco, as canções mais tristes e delicadas não funcionam nesse tipo de ambiente.  

Pindzim: Você é um compositor prolífico. Alguma chance de apresentar alguma coisa nova por aqui?
Romulo: Se tiver tempo de ensaiar sim, sempre gosto de mostrar novas canções, é onde mais me divirto. 

Pindzim: Da última vez em que conversamos, você falou sobre as encomendas que vinha recebendo para fazer músicas para algumas cantoras, citou a Thais Gulin, por exemplo. O que vem por aí de Romulo Fróes em outras vozes?
Romulo: Continuo minha constante paquera com todas as cantoras que conheço. De certo mesmo, no próximo ano terá canção minha no disco de estréia da Nina [Becker], um disco lindo que vai dar o que falar.


SERVIÇO
Cinemathéque
Endereço: Rua Voluntários da Pátria, 53 - Botafogo
Horário: 21h
Ingressos: a partir de R$ 15,00 

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Siba e Roberto Corrêa na estrada com Violas de Bronze

Em entrevista via Skype ao Blog do Pindzim, os músicos falaram sobre a repercussão do disco lançado no começo do ano

Violas de Bronze é um dos grandes discos brasileiros da excelente safra 2009. Porém, guarda uma grande diferença de todos os outros lançamentos (podem ser citados também os novos de Otto, Cidadão Instigado, Céu, Lucas Santtana, +2 e a lista continua). Siba e Roberto Corrêa criaram um clássico atemporal. O arcaísmo dos arranjos baseados nas possíveis combinações de  rabeca e das violas caipira, nordestina e de cocho chocam-se com as atualíssimas sacadas poéticas de Siba, atualizando a tradição dos cantadores nordestinos, o estilo virtuoso de pontilhar a viola de Roberto e as mais modernas técnicas de gravação e mixagem utilizadas durante as breves sessões de estúdio que deram forma às canções.



Veio à luz agora, mas poderia ter sido antes, em um passado imensurável, quanto depois, em um futuro próximo. Trata-se de um projeto paralelo às carreiras de ambos os envolvidos que foi viabilizado quando a conciliação das agendas permitiu. Por esse mesmo motivo, shows são pouco frequentes, mas nos próximos dias Siba e Roberto tocam em Goiânia e em São Paulo.

Hoje, se apresentam na 15ª edição do Goiânia Noise Festival, que como o próprio nome sugere trata-se de um evento cujo foco principal é o rock e todo o barulho inerente ao gênero. Na sexta, ocuparão o palco do Auditório do Ibirapuera, local onde som e silêncio convivem em perfeita harmonia. Não há som sem o silêncio e no Ibirapuera, com sua acústica impecável, é possível ouvi-los ao mesmo tempo, um preenchendo o espaço do outro, sem conflitos, suas respectivas oscilações determinadas pelo ritmo das músicas. Todas as variáveis que tornam um espaço o exato oposto do outro dão a dimensão da universalidade de Violas de Bronze, reflexo das origens e trajetórias bastantes diferentes de Siba e Roberto Corrêa.

O pernambucano Siba partiu de um interesse adolescente pelo rock para formar o Mestre Ambrósio, banda pioneira na fusão de ritmos regionais nordestinos com a eletricidade e a urgência da música pop. Paralelamente, mergulhou de cabeça na Mata Norte a partir da descoberta do maracatu de baque solto, dedicou-se às suas práticas no convívio com os mestres da  poesia oral e dos desafios até tornar-se ele próprio um mestre e junto com músicos locais formar a Fuloresta, banda que transpõe ao palco em uma linguagem própria uma versão condensada dos rituais tradicionais. 

Nascido no extremo oeste de Minas Gerais, próximo a fronteira com Goiás, Roberto aprendeu a tocar violão em Campina Verde, sua cidade natal, até chegar em Brasília para cursar a faculdade e poder se dedicar ao violão clássico. Logo descobriu a viola e a adotou como instrumento e objeto de estudo. Escreveu o primeiro livro dedicado ao método da viola caipira em 1983. Sua obra autoral mistura o popular e o erudito em composições altamente originais. Além de músico, é pesquisador e professor.



No momento em que fazem música juntos, todas as fronteiras, sejam elas culturais, comportamentais ou imaginárias, se diluem. "Eu acho que as fronteiras estão menos rígidas atualmente, o que é regional, pop, moderno, tradicional.
 A gente acaba se beneficiando de um processo de quebra da rigidez entre essas fronteiras para o qual a gente também colaborou desde a década de 90. O meu trabalho vem sendo inserido nesse meio, entre as fronteiras, quebrando um pouco com cada lado. Acaba que o que possibilita a gente de estar num festival como o Goiânia Noise, que até pouco tempo era muita mais restrito, é justamente esse contexto mais abrangente. Isso é de certa forma uma colheita do que a gente trabalhou a vida inteira", afirma Siba.

"O rock é você fazer o novo, o inovador, isso é a essência do rock, é uma linguagem nova, uma linguagem livre. De certa forma, eu faço isso com o meu trabalho, o Siba faz com o dele. Nós somos criadores modernos e não estamos presos a nenhum tipo de raiz, nenhum tipo de coisa. A gente quer fazer o novo, o contemporâneo", completa Roberto ainda falando sobre a expectativa de tocar em um festival no qual à primeira vista o trabalho da dupla não se enquadra.

Nesse sentido, segundo Roberto, Violas de Bronze teria em sua essência o espírito do rock e deve ser bem recebido em Goiânia, assim como tem sido no resto do país. "A nossa grande conquista ao unir o meu trabalho com o do Siba foi fazer uma coisa diferente. Propor uma linguagem nova foi uma coisa que a gente encarou sem saber o que ia acontecer do outro lado. A gente quer dizer algo com a nossa música e a gente acha que isso aconteceu nesse trabalho", afirma.

No disco, Roberto alterna-se entre a viola caipira e a viola de cocho. Além da rabeca, Siba toca viola nordestina. Embora a tenha utilizado em poucas músicas do Mestre Ambrósio, a reaproximação de Siba com os instrumentos de cordas foi impulsionada pelo projeto. "Essa virada pra viola, pra tentar me aproximar e me tornar mais íntimo dela, tem muito a ver com a intenção de fazer esse disco, de trabalhar com Roberto. Tem muito da minha convivência com ele, do tanto que eu aprendi com ele sobre as formas de me relacionar com o instrumento, mas é um processo também muito recente essa identificação e marca pra mim um retorno, uma virada que eu já vinha tentando fazer há muito tempo, que era realmente focar um pouco mais nas cordas", afirma Siba, que também tocava guitarra nos tempos de Mestre Ambrósio. A partir do trabalho com a Fuloresta, ele praticamente abandonou os instrumentos de cordas, fosse no palco ou em estúdio.



Embora a rabeca e a viola tenham uma origem européia em comum e estejam juntas em manifestações populares brasileiras como a Folia de Reis, por exemplo, combinações como viola nordestina e viola de cocho, rabeca e viola de cocho, e viola caipira e viola nordestina são inéditas. O resultado estabelece uma ligação, e mais, uma fusão, entre duas tradições da cultura popular brasileira que normalmente não se comunicam entre si. 

"Com certeza, eu acho que é um disco que dialoga muito com a tradição de viola do sudeste, do centro-oeste, está mais obviamente ligado a essa tradição por conta do peso do trabalho do Roberto. Mas ele se comunica também com o mundo da cantoria nordestina, da viola do nordeste, que é um mundo, e esse eu conheço, tradicionalmente mais fechado em si", afirma Siba, lamentando que, apesar da boa repercussão que o disco obteve na mídia impressa, dificilmente poderá contribuir para uma aproximação entre ambos os universos. "É um preço que se paga pela pouca democracia que a gente tem nos meios de comunicação. Quer dizer, a gente não tem espaço em rádio, não tem meios que promovam a produção independente do Brasil como um todo, de uma maneira mais igual, mais equilibrada, então acaba que trabalhos como esse, que poderiam dialogar de uma forma rica com vários mundos de música tradicional do país, demoram a chegar nesses lugares". Por vezes nem sequer chegam.

Justamente por aproximar dois universos distantes, não se trata de um disco fácil, daqueles que conquista o ouvinte logo à primeira audição. Violas de Bronze conduz o público a um território desconhecido, uma região imaginária. Estranho é o adjetivo que Siba costuma usar para defini-lo. "O público tem recebido o disco com a surpresa de quanto esse disco é diferente tanto para mim quanto para o Roberto. Mas, ao mesmo tempo em que as pessoas reconhecem aquilo que de alguma forma elas gostavam de ver no trabalho de cada um, o público do Roberto me descobre e o meu público descobre o Roberto também", diz Siba.



Violas de Bronze é o resultado de um convívio musical que vinha sendo frequente nos últimos três anos. Vem daí a intimidade e a dinâmica que Siba e Roberto mostram no palco, a ponto de dispensarem ensaios. "Como é somente uma dupla, acaba que a gente vai criando caminhos de comunicação que não dependem do formato do disco. A gente demora um pouco pra se ver, mas quando se vê já tem um jeito de processar a coisa no palco" explica Siba.

O show é estruturado a partir das canções do disco, mas, uma vez no palco, a intenção não é reproduzi-las fielmente. "As músicas ao vivo não estão exatamente como no disco, sempre tem um errinho que vira acerto, sempre tem um improviso qualquer na hora", revela Siba. Completam o repertório uma ou outra canção dos repertórios particulares de cada um, como "Vale do Jucá" e "Siriema" (no vídeo abaixo).



Como se trata de um trabalho recente cujas apresentações são programadas entre os intervalos de seus compromissos prioritários, Siba e Roberto fazem de cada encontro uma celebração musical. "A gente definitivamente não está cansado disso, ao contrário, cada música que a gente faz no show é uma experiência nova, como se a gente entrasse pela primeira vez naquele universo. A gente sabe exatamente o que fazer, mas em cada música pode acontecer qualquer coisa", finaliza Roberto.


SERVIÇO
Goiânia Noise Festival - Palco Centro Cultural Goiânia Ouro
Endereço: Rua 03, esquina com Rua 09, nº 1016, Galeria Ouro, Centro 
Dia: Quinta, 26 de Novembro de 2009
Horários: 22h
Duração: 90 min (aproximadamente)
Ingressos: Grátis (retirada de ingresso duas horas antes no local)
Classificação Indicativa: ?


Auditório do Ibirapuera
Endereço: Parque do Ibirapuera, entrada pela rua Pedro Álvares Cabral
Dia: Sexta, 27 de Novembro de 2009
Horários: 21h
Duração: 90 min (aproximadamente)
Ingressos: R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada)
Classificação Indicativa: Livre para todos os públicos

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Besouro: quando a trilha sonora é melhor que o filme

Atualmente em cartaz em um cinema perto de você, morador das capitais brasileiras, Besouro  não é aquele tipo de filme cujo desgostar pode ser camuflado com elogios à fotografia, ao elenco, à direção de arte, à edição ou mesmo aos efeitos especiais, dignos de nota em se tratando de cinema brasileiro. Talvez os belos cenários do Recôncavo Baiano e da Chapada Diamantina sirvam como ponto de fuga, mas nada é capaz de maquiar a fragilidade do roteiro da estreia em longa-metragens do diretor de publicidade João Daniel Tikhomiroff.



Embora o mito de Besouro e a capoeira constituam temas próprios a uma boa história, a narrativa se estabelece num vácuo entre a fábula e uma suposta realidade histórica sem convencer nem numa chave nem noutra. Os personagens arquetípicos - mocinhos(as) e vilões planos planos, sem nuances, com exceção de Quero-quero (Anderson Santos de Jesus) - transitam em situações óbvias. 

No que se pretende "real", os negros recém-alforriados submetidos a condições de trabalho degradantes e privados de se manifestarem livremente, com proibições à prática da capoeira e, embora não seja mencionado no filme, também de exercerem seus rituais religiosos, depositam toda confiança numa possível redenção através do capoeirista Besouro (Ailton Carmo). Um triângulo amoroso entre o personagem principal, Quero-quero e Dinorá (Jéssica Barbosa) adiciona o elemento romance à trama, que não poderia faltar no repertório de clichês da roteirista Patricia Andrade (de "Dois Filhos de Francisco"). 

Besouro e sua amada


Pior é a representação das entidades do candomblé que compõem o terreno fabular. Além de nada acrescentarem à história com seus visuais estilizados - são meros guardiões de Besouro que, no entanto, não conseguem evitar o final trágico do capoeirista em sua luta do bem contra o mal -, banalizam as tradições religiosas afro-brasileiras, simplificando-as rasteiramente.

Exu estilizado


Os jogos de capoeira são poucos, mas muito bem coreografados por Hiuen Chiu Ku, o mesmo coordenador de cenas de ação dos hollywoodianos Matrix e Kill Bill. O desfecho em loop primeiro oferece uma versão com final feliz, mas em seguida opta pela tragédia seguida de esperança. Esperança esta de que o possível sucesso do filme resulte em uma continuação. A cena final, totalmente desprovida de sentido e fora de contexto, se presta única e exclusivamente para tal fim. O filho de Besouro assume a alcunha de seu pai e encara o temporariamente vitorioso coronel. As chances de um Besouro 2 são palpáveis. Em duas semanas de exibição, foi visto por 240 mil pessoas, de acordo com o blog da produção, um número bom para produções nacionais. 

Mas por que razão um filme de qualidade estética duvidosa mereceria menção em um blog musical? Por causa da trilha sonora, obviamente. Besouro tem direção musical de Rica Amabis, membro do coletivo paulista Instituto. Se o filme não vai ficar na história, a sua trilha sonora já pode ser considerada clássica. Se coloca ao lado das de Baile Perfumado, Amarelo Manga, O Invasor, Árido Movie e Deserto Feliz. Exceto a do filme Beto Brant, assinada pelo Instituto, todas as outras vêm da cena cinematográfico-musical de Recife, reunindo bandas como Mestre Ambrósio, mundo livre s/a, Nação Zumbi - com e sem Chico Science - Eddie e os cantores e compositores Otto e Junio Barreto 

A trilha de Besouro reúne quase todos eles. Já no começo do filme, os cânticos das rodas de capoeira são entoados ora por Junio, ora por Otto. A trilha incidental tem temas compostos pelo próprio Rica em parceria com Pupillo e Tejo Damasceno, outros por Naná Vasconcelos e a canção tema do personagem principal, "Besouro - Cordão de Ouro", é da Nação Zumbi



Não bastasse isso, "Besouro", a música tema do filme, promoveu o reencontro da Nação com Gilberto Gil treze anos depois de o músico baiano juntar-se à banda durante as gravações de Afrociberdelia para colocar voz em "Macô". Novamente ele canta sobre a base sonora da Nação dando mostras de que lhe caberia muito bem  uma renovação nos moldes daquela engendrada pelo seu parceiro tropicalista de primeira hora, juntando-se a músicos mais jovens para renovar se não a sua música, a sua sonoridade. Porém, somente aqueles que permanecem no cinema quando os créditos finais já correm avançados por sobre a tela negra são brindados com o verdadeiro climax de Besouro. O melhor momento do filme dispensa imagens.

Abaixo, Gil coloca a voz na faixa em seu estúdio no Rio. Pena que o áudio esteja saturado.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rodrigo Amarante faz a América na banda de Devendra Banhart

Com suas duas bandas em recesso - o Los Hermanos por tempo indeterminado e o Little Joy por força das circunstâncias que obrigam Fabrizio Moretti a se dedicar aos Strokes -, o ruivo segue sua carreira internacional, agora como membro da banda de Devendra Banhart, tocando guitarra. O músico que lhe abriu as portas da América, ao convidá-lo a participar das gravações de Smokey Rolls Down Thunder Canyon, em 2007, acaba de lançar What Will We Be e está com a agenda de shows cheia.

Em abril, Devendra e banda tocaram em um dos palcos alternativos do festival de Coachella, na California, e desde então vêm se apresentando no Estados Unidos, onde permanecem divulgando o novo disco até o fim de novembro. Em seguida, seguem para a Europa.



What Will We Be, cuja capa é esta aí em cima, também conta com a colaboração de Amarante. São claros os ecos do Little Joy, com seus temas ensolarados e saudosistas, já o Los Hermanos parece estar mesmo relegado ao limbo.

Abaixo, alguns momentos de Devendra e Amarante juntos no palco.

No Coachella, Amarante e sua camiseta estampada com o rosto do poeta Paulo Leminski.


Tocando "Baby", do disco novo (nada a ver com a canção de Caetano Veloso, referência fundamental de Devendra, como o próprio já declarou várias vezes).


Amarante ataca de percussionista lembrando dos tempos de Orquestra Imperial.


Nas ruas de San Diego.

sábado, 14 de novembro de 2009

Kassin e o presente pós-Futurismo

Leandro de Nardi, correspondente eventual aqui do blog na capital gaúcha, foi conferir a estreia portoalegrense de Kassin, agora sem o aposto +2. Abaixo, as suas considerações em texto e o registro em imagens.

Kassins
Estreia em Porto Alegre a nova banda de Kassin
por Leandro de Nardi (com edição e colaboração de Pindzim)
Vídeo: Lucieli Galho

Kassin+3 ou seria Kassinx3? A equação matemática pouco importa. Kassin nunca é um só. É múltiplo. Há aquele do Futurismo, o do Game Boy, o produtor e o Alexandre, nome de batismo que poucos conhecem, eterno e legítimo.

O show apresentado em Porto Alegre, no projeto Unimúsica, da UFRGS, deu provas de sua capacidade musical. Numa apresentação consistente apesar de se tratar de uma estreia, com mais de hora de duração, o multi-homem, instrumentista, compositor e produtor promove uma simbiose sonora, não só dos vários Kassins que coabitam dentro de si, mas também dos integrantes de sua nem tão nova, mas sempre competente banda. Domenico contribui com seus ritmos contagiantes; Donatinho evoca a elegância do pai João Donato ao teclado; e Alberto Continentino toca um baixo que só o próprio Kassin poderia tocar, caso não estivesse divertidamente ocupado com a sua guitarra.

O show visita o passado de Futurismo e desenha o futuro em tempo real. Já na abertura, "Azul", em tom celeste intimista, sente-se a densidade rítmica da guitarra de Kassin conduz um passeio pela poesia caótica da zona sul carioca.  



De Futurismo, tocaram "Tranquilo", "Esquecido", "Quando Nara ri", "Simbiótico", "Mensagem" (dedicada ao inseparável parceiro Domênico), "Homem ao Mar", "Pra Lembrar", "Ponto Final", "O Seu Lugar" e"Água", a melhor de todas, que Caetano Veloso pegou emprestada para os shows da turnê do disco Zii e Zie.

Entre suspiros, freqüentes nas novas músicas, talvez decorrentes do prazer provocado pelos novos horizontes e consequente sensação de liberdade, Kassin aparenta estar em seu melhor momento. Compensa sua timidez com uma fina ironia nas manifestações à plateia e nas letras de suas músicas. Misturadas aos acordes da banda e à sutileza de seu timbre vocal por vezes desafinado, são diversão garantida. O deleite musical vem intercalado com gargalhadas do público ligado em suas composições, digamos, inteligentes. Este é o adjetivo que vem à cabeça vendo-o no palco com seus óculos de lentes grossas e sua aparência estranha, próprias antes a um cientista maluco, o que ele não deixa de ser, do que propriamente a um músico.

Em "Lua do Sol", música nova composta com Jon Fell, baixista da banda inglesa The High Llamas, Kassin questiona em forma de verso: “…será que somos um satélite ou uma lua no sol?” A resposta depende do Kassin que há em cada um de nós. Foram incluídas no repertório as antigas "Stricnina" e "O Que Você Quiser", ambas gravadas por Toni Platão no álbum Calígula Freejack (2000). Entre as novíssimas, as bem humoradas "Calça de Ginástica" e "Potássio", em que exalta as propriedades nutritivas de bananas e tomates. Se "Futurismo" tinha um sotaque caribenho, com climas etéreos e sabores tropicais, as novas composições apontam para uma sonoridade oitentista, com bateria e teclados impondo um ritmo mais acelerado, e letras que evocam paisagens urbanas.



Para um publico talvez um pouco surpreso, desacostumado que está às novidades da cena independente que vem de fora (de suas fronteiras regionais) e de dentro (do Brasil grande) - olha que este ano Little Joy, Céu e agora Kassin, fizeram a estréia nacional de seus novos trabalhos na capital gaúcha -, além de um tanto resistente a elas, a cidade até que não está tão mal.

E já que a frase anterior remete a Chico Science, vale continuar com ele: "a cidade não pára, a cidade só cresce" e nós, gaúchos, argüimos que a nova música brasileira só cresce, não dando o menor sinal de parada. Se abrindo aos poucos, Porto Alegre tem o privilégio de acompanhar e ir compreendendo este movimento. Não é difícil de se acostumar ao que é bom.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Blecaute frustra Blind Date de Dolores e Naná


Há sete anos atrás, DJ Dolores (na foto ao lado) lançou o disco Contraditório e criou um novo significado para a expressão 'disc jockey' no âmbito da música brasileira. Não foi uma empreitada solitária. O resultado daquela que pode ser considerada a sua obra prima foi alcançado com o apoio da Orquestra Santa Massa, um conjunto de instrumentistas também compositores que vêm inscrevendo seu nome na história a partir do movimento mangue-bit. Entre eles, havia um percussionista à época intitulado Mr Jam, hoje conhecido por Jam da Silva.

Lembro disso, porque na última terça-feira, no Rio, DJ Dolores subiu ao palco com "O" monstro sagrado da percussão brasileira - Naná Vasconcelos (na foto ao lado) - em um show-espetáculo intitulado Blind Date, em edição especial do Multiplicidade, evento em que Jam da Silva se apresentara há duas semanas atrás. A proposta da dupla era fazer um som improvisado a partir dos beats disparados pelo DJ. O seguiam na jam uma banda com quatro músicos, tocando sax, trombone, baixo e percussão e Naná.

A sessão mal começara e ia se arrastando monotonamente, apesar da altura absurda do som, cujos graves faziam reverberar a estrutura do teatro. À repetição da batida, os músicos iam reproduzindo as mesmas frases instrumentais enquanto, no canto do palco, Naná, inexplicavelmente, reduzia sua participação a gritos guturais reprocessados por um pedal e a toques esporádicos em sua árvore de tamborins - uma estrutura vertical em que duas sequências de cinco tamborins podem ser tocadas sincronicamente a partir de um único movimento.

Menos de meia-hora havia se passado quando o encontro às cegas virou um encontro às escuras. Mas não só, pois a queda de energia emudeceu instrumentos e o computador de Dolores, sua central de beats e programações. No aguardo da restauração da luz, Naná se beneficiou de sua fama e exercitou sua porção 'entertainer', que, hoje em dia, parece mais afiada do que a sua porção musical. E a plateia que tinha ido lá para vê-lo tocar, tornou-se o instrumento de Naná. Regendo a multidão, iludiu a todos induzindo-os a pensar que estavam fazendo música. Mas não importava, a grande maioria parecia finalmente se divertir,  o que não tinha acontecido durante o espetáculo propriamente dito.

Encerrada a pantomima, se recolheu, mas foi incitado a continuar. Resmungou, mas acabou cedendo quando lhe entregaram um berimbau. Sem muita inspiração, aceitou a condição de salvar a noite. Quando o enfado novamente tomava conta do público, a esta altura já ciente da extensão e da gravidade do apagão, convocou os músicos da banda a se juntarem a ele. Puxou um frevo e todos voltaram a se animar. Dolores atacou de agogô, mas ficou claro que sua intimidade com instrumentos orgânicos não chega nem perto de sua habilidade em manipulá-los eletronicamente. "Cidade Maravilhosa" veio em seguida, mas aí a ironia ultrapassou todos os limites do bom senso e da minha paciência. Não fiquei para ver o resto.

Do encontro de dois grandes nomes da música brasileira, de gerações diferentes, o saldo é quase vexatório. O pouco que se viu já permitiu um vislumbre do todo. Dolores retrocedeu ao passado de Contraditório, apesar dos eflúvios eletrônico-jazzísticos evocados pela combinação de seus ritmos com a banda ao seu redor. Sua proposta para a Blind Date caberia muito bem em uma pista de dança, onde Naná seria totalmente dispensável, mas no palco de um teatro soa apenas maçante.

Naná, por sua vez, há tempos assume-se como simulacro do gênio que um dia foi e em algum momento se acomodou e adormeceu. Hoje, seu som é apenas barulho, muitas vezes desagradável.



E é aí que cabe a lembrança do primeiro parágrafo. No universo da percussão brasileira que extrapola as fronteiras do convencional deve-se ouvir Jam da Silva (na foto acima). Nas suas mãos, o berimbau soa como guitarra, é harmônico e melódico a um só tempo; os ritmos guiam as melodias; a voz é instrumento delicado e a percussão não tem um fim em si mesma, não prescinde dos demais instrumentos. Jam faz música.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Da Lama ao Caos: reprodução literal 15 anos depois

"Modernizar o passado é uma evolução musical" cantava discursando Chico Science, em 1994, nos primeiros versos do hoje clássico Da Lama ao Caos, cujos 15 anos de lançamento têm sido comemorados com shows em que o álbum é reproduzido de cabo a rabo, quase sempre com a participação de convidados especiais. Porém, no palco, o ditame de Chico é ignorado. Reproduzir não é mordenizar.

Talvez porque a modernização já tenha sido levada à cabo nas comemorações de 10 anos do movimento, quando todos os integrantes da Nação e do mundo livre s/a, a outra banda seminal do movimento, se reuniram para fazer algumas apresentações sob a alcunha de Orquestra Manguefônica. Na ocasião, fizeram releituras inspiradas e nada reverentes de músicas de Da Lama ao Caos e de Samba Esquema Noise. Com certeza, um dos melhores shows já vistos em palcos brasileiros.

Na última sexta no Rio, com as memórias da Orquestra Manguefônica reverberando na mente, fui ao Circo Voador conferir o show da atual efeméride, ainda mais que o convidado era Fred Zeroquatro. Adicionou seu cavaquinho e fez duetos com Jorge du Peixe em algumas músicas, a bateria de Pupillo, que não fazia parte da banda na época, inseriu mais agressividade e intensidade às versões, mas nada que se possa chamar de novidade, afinal, muitas daquelas músicas fazem parte do repertório usual da Nação. Tratou-se de apenas mais um show, o que, em se tratando de Nação Zumbi, nunca é pouco, mas o show de lançamento de Fome de Tudo, no mesmo Circo, há pouco tempo atrás, foi muito melhor.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Mariana Aydar e os caminhos a seguir

Pensara em ir ao Canecão assistir à estreia carioca do show de Peixes Pássaros Pessoas no início de outubro. Tinha curiosidade de ouvir as novas canções ao vivo, mas a imponência da casa acabou por me afastar. Preferi esperar por uma outra apresentação em local mais apropriado, condizente com o clima e com o 'tamanho' da cantora - nos palcos do Rio Mariana Aydar ainda dá seus primeiros passos.

Aconteceu ontem. Assisti à segunda sessão de Mariana no projeto Pode Apostar, do Centro Cultural Banco do Brasil, série de shows que está sendo realizada também em São Paulo e Brasília. E a mesma notória evolução alcançada no segundo disco em relação ao primeiro se repete, agora, no palco. Aquela cantora que se apresentou pela primeira vez no Rio no Centro Cultural Carioca, em março de 2007, tinha um repertório baseado em clássicos do passado, eminentemente sambas e alguns forrós, e uma banda arregimentada para reproduzi-los respeitosamente.

A escolha de "Minha Missão" - eterna na voz de Clara Nunes - para começar o show, com cavaquinho e violão de 7 cordas, em uma interpretação correta, porém fria, transmitia uma sensação de deja vu. Revelou-se apenas uma escolha equivocada. A única da noite, pois logo em seguida, na execução de "Tá?", uma das melhores do novo disco, o cavaquinho é trocado pela guitarra, o 7 cordas pelo baixo e o teclado de Lucas Vargas faz ribombar seus graves distorcidos, abrindo caminho para uma outra Mariana tomar a cena. Mais segura e incisiva, apesar de alguns altos e baixos. E baixos aqui não devem ser entendidos como maus momentos, mas sim como sintomas de uma certa instabilidade, variando entre a catarse e a retração.

Para os fãs que lotavam o teatro, talvez a oscilação da intérprete no palco tenha passado desapercebida, mas durante "Zé do Caroço" e o número que se seguiu, ela acabou se evidenciando. Depois de cantadas as primeiras estrofes, surge a voz de Leci Brandão. Seria uma base pré-gravada? Não, era uma surpresa guardada na coxia, de onde surgiu a sambista vestindo um traje de azul esfuziante, entoando os versos políticos de sua canção com extensa potência vocal. Tantas vezes apresentado, o dueto fluiu bonito e harmonioso. Seguiu-se um discurso de agradecimento, Leci tecendo loas à sua afilhada por tê-la feito tocar nas rádios do Rio pela primeira vez em mais de trinta anos de carreira. Até então, jamais tivera espaço, afirmou a madrinha, há tempo radicada em São Paulo.

A canção seguinte, "Deixa, Deixa" - não confundir com "Deixa", de Ivan Lins, redescoberta a partir do sample de Marcelo D2 na sua "Desabafo" -, outra do repertório de Leci, não saiu tão redonda. Leci brilhou, atraindo as atenções para si no centro do palco, enquanto Mariana, reverente e também tímida, fazia o contracanto do hino liberal, que há trinta anos atrás já advogava a liberdade como antídoto contra a violência. Qualquer um pode beber, fumar, discursar, enfim, fazer o que bem quiser, defende, até a seguinte conclusão: "é melhor do que ele sacar de uma arma para nos matar". Nesse momento, nota-se que, para Mariana, assim como para a maioria de suas contemporâneas, o palco ainda não é um espaço no qual elas se sintam totalmente confortáveis.

No caso de Mariana é também uma questão de repertório. Ela se sai melhor quando investe nas canções de Peixes Pássaros Pessoas, e ganha ainda mais quando o samba fica um pouco de lado, o que, conscientemente ou não, aconteceu no CCBB. "Beleza", "Peixes", "Nada Disso é pra Você" e "Aqui em Casa", além de "Tá?", foram as melhores da noite.



Porém, como ela revelou ao público, o samba a persegue desde os tempos da escola primária, quando ela e outros colegas eram obrigadas pelo motorista da kombi escolar a ouvir diariamente um programa dedicado aos bambas, ao invés das rádios jovens com seus sucessos efêmeros. Mariana faz bem em entregar-se a essa perseguição quando canta os sambas contemporâneos de Duani - "Florindo", por exemplo, embora "Manhã Azul", aquele que considero o mais belo do disco tenha sobrado, apesar de pedidos da plateia. Nem tanto quando resgata canções da memória do seus tempos de menina, como "Te Gosto", do Fundo de Quintal.

Depois que Leci vai embora, abre-se um vazio em cena. Por isso mesmo, o público praticamente exige a volta de Leci para o bis e o que poderia se tornar uma perseguição um tanto exagerada do samba, revelou-se a deixa para uma vingança divertida. "Zé do Caroço" caiu no funk e virou um batidão comandado pelas MC's Leci e Mariana, com adornos de guitarra e cavaquinho, apontando para outros possíveis  - e por que não inusitados? - caminhos a serem seguidos.