segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Especial Clara Nunes - Parte 4

Guerreira da esperança


Em 1977, o disco Canto das Três Raças foi levado aos palcos em um espetáculo homônimo no recém inaugurado Teatro Clara Nunes, um empreendimento bancado pela própria cantora em parceria com o marido Paulo César Pinheiro, até hoje em funcionamento no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro. Além das canções presentes no disco, Clara apresentava no show músicas de Caetano Veloso, Chico Buarque, Mauricio Tapajós, Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola que havia gravado ao longo de sua carreira. A partir do repertório, Clara procurava se afastar do rótulo de "cantora de samba" para consolidar-se como uma cantora de música popular brasileira sem restrições de gênero e estilo. Embora o espetáculo tenha sido mais um grande acerto da cantora em sua carreira, os mesmos críticos da Veja e do Jornal do Brasil encontraram motivos para criticá-la.

No final do ano, foi lançado As Forças da Natureza, disco repleto de músicas que se tornaram clássicas, com destaque para os sambas "As forças da natureza", de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, "P.C.J. (Partido Clementina de Jesus)", de Candeia, "Coisa da Antiga", de Wilson Moreira e Nei Lopes, "Coração Leviano", de Paulinho da Viola, e "Palhaço", de Nelson Cavaquinho. Em "Senhora das Candeias", dos onipresentes Romildo e Toninho, "Sagarana", de Paulo César Pinheiro e João Aquino, e "Fado Tropical", de Chico Buarque e Ruy Guerra, Clara segue por veredas outras que não o samba e em "À flor da pele" apresenta sua primeira música como compositora, em parceria com Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós, na qual ela criou a melodia.

Com mais um sucesso nas ruas, Clara foi convocada pela EMI para recepcionar o Príncipe Charles nos novos estúdios da gravadora localizados na rua Mena Barreto, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O detalhe é que ela não falava inglês. Problema nenhum, o que importava era que Clara era a mais popular cantora do casting da EMI Brasil. Em seguida, integrou o show coletivo Sabor bem Brasil que cruzou o Brasil de Norte a Sul, ao lado de Luiz Gonzaga, Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo e João Bosco, entre outros.

A notícia de uma nova gravidez obrigou-a a abandonar o espetáculo, mas não a impediu de entrar em estúdio para gravar Guerreira, cuja faixa-título composta por João Nogueira e Paulo César Pinheiro apresenta traços da personalidade combativa e lutadora de Clara. O disco ainda não estava na rua quando pela segunda vez a gravidez foi interrompida prematuramente. Apesar do enorme baque, o show tinha que continuar. Em outubro, a cantora gravou um clipe de Guerreira nas Cataratas do Iguaçu para divulgar o disco no Fantástico.



O fim de 1978 trouxe mais uma má notícia para Clara: a morte de Candeia. O compositor portelense fora um dos primeiros a acolher a cantora no seio do samba e teve suas músicas gravadas por Clara em muitos discos. Guerreira trazia "Outro recado", parceria entre o compositor e Casquinha, e o disco seguinte, Esperança, traria outras duas em parceria com Jaime: "Minha Gente do Morro" e "Ê favela". Antes de entrar em estúdio para gravar seu novo disco, Clara fez uma participação em Marçal interpreta Bide e Marçal, homenagem à dupla de compositores que participou da fundação da escola de samba Estacio de Sá, uma das mais tradicionais instituições do samba carioca, idealizada pelo filho do segundo, o Mestre Marçal. Veja abaixo depoimento da cantora falando sobre sua participação no disco



O ano de 1979 começou com uma viagem à África onde a cantora se apresentou ao lado de João Nogueira que a impediu de desfilar pela Portela. De volta ao Brasil, ela se empenhou em participar da fundação do Clube do Samba, um movimento pela valorização e o reconhecimento da música brasileira, uma vez que o país vivia a febre das discotecas e da disco music impulsionada pelo grande sucesso da novela Dancin Days, exibida na TV Globo.

Foi com esse espírito de representante da música popular brasileira na grande mídia e sob influência da triste realidade africana que Clara gravou Esperança. Na capa, a cantora aparece de mãos dadas com duas crianças humildes moradoras de uma favela no bairro da Saúde, localizado na região portuária do Rio de Janeiro, transmitindo uma mensagem de fé na renovação que emana do povo em sua luta pela sobrevivência, em suas manifestações culturais, mesmo quando condenado a viver em condições de pobreza degradante. Calcado em uma sonoridade marcadamente afro-brasileira, muitas músicas de Esperança retratam o viver das pessoas mais pobres e humildes. Porém, a primeira música a estourar e que levou ao delírio a multidão que compareceu ao show de lançamento do disco no Pavilhão de São Cristovão, quando Clara a executou acompanhada de um de seus compositores, foi "Feira de Mangaio", de Sivuca e Glória Gadelha.



Na ocasião do lançamento de Esperança, Clara estava em período de gestação pela terceira vez e acreditava que daquela vez a gravidez finalmente iria vingar. Mas o mioma em seu útero havia crescido, provocando mais um aborto espontâneo. Para enterrar de vez seus anseios maternais, o crescimento do mioma obrigou-a a se submeter a um cirugia para retirada do útero. O disco repetiu o sucesso dos anteriores emplacando outros sucessos, como "Banho de Manjericão", de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, e "Na linha do mar", de Paulinho da Viola, mas, emocionalmente, Clara passava por um momento delicado.

2 comentários:

ANINHA VIEIRA disse...

olá, parabens pelo lindo blog em espeacial ao carinho que fala de minha amada CLARA NUNES, vou postar no meu blog um atalho para o seu, amei!!!!!

Clara merece sempre todo o carinho

Ubirajara Rodrigues disse...

Gostei muito da matéria sobre a inesquecível guerreira Clara Nunes, que continuará eternamente luzindo entre as estrelas. Fiz um link para o meu blog. É que a voz dela na música Juízo Final, coloquei num video de título "METRÔ SERÁ PROCESSADO POR DISCRIMINAÇÃO SOCIAL?". De modo que arbritariamente o Youtube tirou do ar essa reclamação justa dos moradores do Morro Azul, que injustamente tiveram sua passagem fechada pelo Metrô Rio. Achamos que o poder econômico do Metrô está fazendo pressão para o Youtube manter suspensa a exibição do vídeo. Estamos contando com essa imensa energia guerreira de Clara Nunes.
Sucesso amigo, tudo de bom pra vc.